Wander B.

Wander B. é artista da palavra, da música e do gesto

Teat(r)o Oficina: o espaço onírico da cidade que não dorme

Conhecida por ser uma cidade que não dorme, São Paulo nos serviria de metáfora para descrever as consequências do que seria uma vida eternamente em estado de vigília se não fosse o espaço onírico proposto por Zé Celso


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Zé Celso (Foto: Jennifer Glass)

Um dos principais temas da psicanálise desde o seu advento é a experiência onírica. Marco na história da cultura ocidental e pedra fundamental da ciência de Sigmund Freud, A interpretação de sonhos (1900) deixa claro logo em seu título o quanto a experiência de sonhar se mostrou para o autor como algo de suma importância para a vida humana e seu entendimento.

A literatura de Freud nos diz que a partir dos sonhos podemos ter contato com o nosso material inconsciente, com algo que existe em nós e nos guia em nossas decisões sem ao menos nos darmos conta disso – a famigerada frase “o eu não é senhor nem mesmo em sua própria casa” (1917) é uma imagem que ilustra bem esse ideário psicanalítico.

O sujeito do sonho, o ser sonhante, encontra-se num lugar onde as experiências são menos limitadas pelos freios morais e legais da cultura – no sonho o “tabu” se quebra naturalmente, assim como se desfazem tantas outras limitações (tais como as noções de tempo e espaço, de possível e impossível, de realidade e ficção). O sonho nos aproxima e revela, então, o que há de mais pulsional em nós – e, se é inegável que em algum momento do nosso processo evolutivo nos distanciamos dos outros animais por meio da linguagem, é inegável também que muito da nossa constituição, possivelmente a maior parte dela, atende às demandas instintivas inerentes à vida.

Localizado no coração da cidade, no bairro de origem italiana que para os correios e os registros oficiais chama-se Bela Vista – mas é conhecido por todos os populares como Bixiga –, o Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona (o teatro do Zé Celso) foi fundado em 1958 e é conhecido, ainda hoje, em pleno século XXI, como um espaço subversivo de contestação dos padrões mais enrijecidos da sociedade. É significativo pontuar aqui que o valor simbólico do Oficina começa já em seu endereço; afinal, oferecer diálogos que questionam valores tradicionais dentro do epicentro da tradição é algo que explicita um ponto nodal entre o familiar e o estranho – outra questão tão cara a Freud, como podemos constatar em “O estranho” (1919).

Sangue, fezes, sêmen; dança, filosofia, oração: são elementos que tentamos distanciar, a qualquer custo, no repertório imagético da nossa vida cotidiana. Sangue, fezes, sêmen; dança, filosofia, oração: são coisas que se misturam e se revelam indissociáveis no teatro de profundezas da subjetividade vivido no Oficina que, com suas peças ritualísticas, inserem os espectadores (muitas vezes literalmente) num universo onde abundam concomitantemente figuras históricas e estóricas a se unirem por um único fio que podemos chamar, oportunamente, de sentido.

Conhecida por ser uma cidade que não dorme, São Paulo nos serviria de metáfora para descrever as consequências do que seria uma vida eternamente em estado de vigília se não fosse o espaço onírico proposto por Zé Celso. Constata-se, então, que São Paulo sonha apesar de. A cidade simboliza em vários espaços, é fato (leiamos os grafites!), mas digere o inadmissível, sobretudo, naquele corredor da rua Jaceguai, n° 520, que é também palco e templo. E por mais que se possa argumentar que o Oficina seja experimentado por uma parcela pequena da população da cidade, é nessa mesma premissa que ele se aproxima das experiências do sonho. Afinal, este também é apreendido muito parcialmente pelos olhares da consciência.

Com certeza, do mesmo modo que Freud mostrou que a interpretação dos sonhos se faz mister para o entendimento do eu, interpretar as cenas que acontecem no Uzyna Uzona pode proporcionar um entendimento único sobre o que existe no inconsciente dessa cidade.

Por Wander B.


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Wander B. é artista da palavra, da música e do gesto.
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