essa metamorfose ambulante

Porque a verdade é só uma questão de perspectiva

TOLEDO, R.R.

Meistre da Cidadela do Reino Cintilante: 'The Shitborn, Queen of The Crossovers, The Blender of References and Protector of The Madness'. Farmacêutica com deficiência nos níveis endógenos de dopamina e serotonina. Em uma busca incessante pelo controle da ansiedade, da angústia e da loucura... Uma existência tentando governar sua essência, mas sempre presa no terrível paradoxo da liberdade. P.S.: Fã de Sartre e Cultura Pop! - caso as referências não tenham sido óbvias o suficiente -

Um Manifesto em Defesa de Simone de Beauvoir

O ressurgimento do estereótipo ideal de mulher como “bela, recatada e do lar” desencadeou grande comoção na sociedade, trazendo à tona a discussão sobre feminismo. Foi nesse momento que me deparei com a seguinte situação: alguém postou nas redes sociais uma célebre frase de Simone de Beauvoir ao que outro respondeu “citar uma nazista pedófila e destruidora de lares não vale.” Fiquei muito indignada e respondi com um “textão”, que gostaria de compartilhar e expor um cenário extremamente preocupante que vêm se formando na nossa sociedade.


simone-free-to-use.jpg

Os sistemas políticos, a estrutura social, os padrões de comportamento humano estão sempre em transformação e os fatores que influenciam essas mudanças são variados, assim como são os desfechos que ela produz. De uma forma geral e simplificada, as mudanças podem ser progressistas ou regressistas.

No contexto atual, o embate entre liberais e conservadores representa bem essa tendência humana de se movimentar ciclicamente e que tem como conseqüência uma história que se estabelece em ondas. Uma onda libertária seguida de uma onda conservadora e vice-versa. Claro que, como em qualquer processo político e sociológico, nada é preto no branco, existem muitos tons de cinza que permeiam essa trajetória. A mudança é sempre gradual.

Clinton_Bush_Obama.jpg

Mas para não ficar nessa abstração toda, tomemos como exemplo o caso da aprovação do estatuto da família no Brasil que, ao estabelecer como família apenas a união entre homem e mulher, ignora não só os casais homossexuais, mas também mães e pais solteiros ou qualquer outro laço afetivo que possa ser formado e constituir uma relação de dependência e/ou solidariedade. A mudança proposta neste caso representa uma tentativa de se restabelecer o núcleo familiar hierárquico e patriarcal, onde se têm definido os papéis sociais de cada membro. Sendo uma mudança machista, além de, claramente, homofóbica.

estatuto-da-familia-2-638.jpg

hqdefault.jpg

No mesmo contexto histórico temos outro exemplo das forças conservadoras agindo sobre a sociedade: o ressurgimento do estereótipo ideal de mulher como a “bela, recatada e do lar”, encarnado na figura da esposa de Michel Temer, que desencadeou grande comoção nos segmentos progressistas, trazendo à tona a discussão sobre feminismo.

13001292_597623723744631_543260754400420114_n-e1461170478868-615x516.png

Foi nesse momento que me deparei com a seguinte situação: alguém postou nas redes sociais uma célebre frase de Simone de Beauvoir ao que outro respondeu “citar uma nazista pedófila e destruidora de lares não vale.” Fiquei muito indignada e respondi com um “textão” que exigiu muito do meu tempo, gostaria de compartilhar e expor um cenário extremamente preocupante que vêm se formando na nossa sociedade, onde extremistas mal intencionados atacam ferozmente movimentos sociais importantes que construíram uma sociedade mais justa e conquistaram direitos essenciais à dignidade humana.

"Citar uma nazista pedófila e destruidora de lares não vale" 1Beauvoir.jpg

Nazista? Beauvoir viveu e trabalhou na França durante a ocupação nazista (1940-1944), um regime ditatorial extremamente opressivo, onde qualquer manifestação ideológica contrária significaria morte. Tentar sobreviver dentro desse regime imposto torna alguém nazista?

De fato, Beauvoir trabalhou na Rádio-Vicky, uma rádio nazista, mas também escreveu sobre o contexto em que vivia: "Em Paris, o mero ato de respirar implicava num compromisso". Susan Suleiman, professora de Harvard, faz uma longa análise da premiada obra "Les Mandarins" e parte da premissa que esta retrata os aspectos da guerra e do pós-guerra, argumentando ser um romance sobre as memórias da Guerra e da Ocupação. Onde não há nenhuma evidência do apoio de Beauvoir à ideologia nazista.(1) The 20th Century O-Z: Dictionary of World Biography afirma que Sartre e Beauvoir foram ativos na Resistência francesa contra os nazistas, escrevendo e divulgando material clandestino.(2)

Quanto à pedofilia: um tema bem espinhoso, realmente. É fato que Sartre e Beauvoir tinham um relacionamento aberto e ambos se relacionavam com jovens que, geralmente, eram seus estudantes/pupilos. Existe um famoso caso: o de Olga Kosakievicz, considerada amiga e pupila de Beauvoir, que se relacionou com Sartre e os três formaram um triângulo amoroso abertamente para a sociedade. Beauvoir escreveu seu primeiro romance (She Came to Stay) baseado nessa experiência.(3)

A parte mais chocante acontece em 1977, quando uma petição a favor da redução da idade de consentimento na França, que era de 15 anos, foi assinada por grandes intelectuais da época, como Sartre, Beauvoir, Foucault, Barthes, Deleuze e Robbe-Grillet.(4) Pois é... Muitos intelectuais “pedófilos”, mas só vejo questionarem a obra e o caráter de Beauvoir.

Não vejo muita histeria e acusações quando se trata de seu contemporâneo Chaplin, por exemplo, esse sim... Bem inescrupulosos os recentes relatos de muitos que viveram à sua volta, vou citar o que eu acho o mais repugnante: "Irving Wallace conta que, para atrair garotas, Chaplin contratava ‘artistazinhas’ para dublar a atriz principal, ‘tanto em cena como na cama’. Lita Gray chamou a atenção do diretor quando tinha somente 6 anos. Aos 12 anos, andava pelo estúdio de Chaplin ‘sob os olhares amorosos do seu diretor dominador.' (…) Em 1923, durante a filmagem de Em Busca do Ouro, tentou violentá-la no quarto de hotel que ela ocupava. ‘Ele beijou minha boca e meu pescoço e seus dedos voaram para o meu corpo apavorado’, escreveu Lita.”(5)

Só existem evidências de relacionamentos de Beauvoir com jovens maiores de 16 anos, mas mesmo assim ela é a escória e Chaplin o gênio. Até meados do século XX o mundo era bem abjeto mesmo, muitas eram as mulheres que se casavam antes dos 15 anos. Este é um aspecto cultural daquela sociedade e todos daquela época encaravam como normalidade tais situações. Nossa sociedade evoluiu e hoje isso é visto com repugnância, o que é excelente. Mas é importante lembrar que Simone de Beauvoir viveu sua juventude naquele período e a distorção dos fatos a transformaram em pária. Descontextualizaram todo o trabalho e biografia dessa mulher e a trataram com tremenda desigualdade em relação aos homens de sua época.

Agora, quanto à Destruidora de Lares... Eu nem sei o que comentar sobre tamanha atrocidade. Lamentável este posicionamento e a displicência em não analisar mais profundamente toda essa onda antifeminista, que tem como base memes do Facebook e os ataques ultraconservadores de exaltados fundamentalistas religiosos. Desmerecendo o trabalho de uma mulher que quebrou paradigmas e foi uma excelente representação da “Mulher Independente” que tantos dizem defender. Cometeu erros, claro, assim como toda aquela sociedade do início do século XX e assim como todos nós, eventualmente.

Referências:

1. SULEIMAN, S. Memory Troubles: Remembering the Occupation in Simone de Beauvoir’s Les Mandarins. French Politics, Culture and Society. 2010 :4-17.

2. MAGILL, F. N. et al. The 20th Century O-Z: Dictionary of World Biography. London and New York. Routledge, 1999. Vol 9, p 3329.

3. HOLLAND, A. Simone de Beauvoir - A Beginner's Guide Ebook Epub. 2002.

4. Sexual Morality and the Law, Chapter 16. Politics, Philosophy, Culture –Interviews and Other Writings, 1977-1984. Edited with an Introduction by Lawrence D. Kritzman. New York/London, 1990. Routledge, p.295.

5. Belém, E.F. O Chaplin pedófilo que Carlitos escondeu. Jornal GGN. Luis Nassif Online, Cultura. 28/12/2013.


TOLEDO, R.R.

Meistre da Cidadela do Reino Cintilante: 'The Shitborn, Queen of The Crossovers, The Blender of References and Protector of The Madness'. Farmacêutica com deficiência nos níveis endógenos de dopamina e serotonina. Em uma busca incessante pelo controle da ansiedade, da angústia e da loucura... Uma existência tentando governar sua essência, mas sempre presa no terrível paradoxo da liberdade. P.S.: Fã de Sartre e Cultura Pop! - caso as referências não tenham sido óbvias o suficiente -.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/sociedade// @obvious, @obvioushp //TOLEDO, R.R.
Site Meter