essa metamorfose ambulante

Porque a verdade é só uma questão de perspectiva

TOLEDO, R.R.

Meistre da Cidadela do Reino Cintilante: 'The Shitborn, Queen of The Crossovers, The Blender of References and Protector of The Madness'. Farmacêutica com deficiência nos níveis endógenos de dopamina e serotonina. Em uma busca incessante pelo controle da ansiedade, da angústia e da loucura... Uma existência tentando governar sua essência, mas sempre presa no terrível paradoxo da liberdade. P.S.: Fã de Sartre e Cultura Pop! - caso as referências não tenham sido óbvias o suficiente -

As Séries de Comédia Fora da Curva e do Prozac! - (Parte 2)

Uma análise das comédias mais insanas produzidas pelo filtro da loucura do exótico mundo mais ocidental do Oriente. Uma imersão no humor negro - da mente australiana de Jim Jefferies - e no humor nonsense - das mentes neozelandesas de Jemaine Clement e Taika Waititi -.


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Continuando essa lista com mais um exemplar de comediante de stand-up e produtor executivo de um show, apresento-lhes: Jim Jefferies! Criador da série - muito subestimada por sinal -, Legit.

Jim Jefferies é um australiano de sotaque carregado, que vive como comediante de stand-up nos EUA há muitos anos e, apesar da sua exótica origem, o trabalho de Jim Jefferies é produzido nos EUA e seus parceiros são todos figurões da indústria americana. Porém a série legit é uma extrapolação de sua personalidade peculiar e estrangeira para as telinhas.

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Infelizmente essa série teve apenas duas temporadas, com um início excelente de muito humor negro! Acidez sem limites, sem filtros e sem eufemismos. Uma série sem medo de chocar a sociedade, impregnado de escatologia, boemia e niilismo! Se fosse produzida no Brasil seria responsável pela indignação dos defensores da moral e dos bons costumes e, provavelmente, viraria alvo de conspiracionistas religiosos.

A série é uma ficção com aspectos autobiográficos, assim como são as séries produzidas por Larry David - analisado na primeira parte desta lista -. O protagonista é o próprio Jim Jefferies, interpretando a si mesmo: um comediante de stand-up, ateu, pessimista, niilista, com a vida desregrada de um solteiro boêmio que vive com seu melhor amigo Steve, mas tem problemas para estabelecer relacionamentos interpessoais de qualquer tipo com o sexo oposto.

Um recurso de roteiro muito frequente na série são os interesses amorosos de Jim, numerosos, devido sua personalidade de canastrão desapegado e conquistador, porém desajustados, completamente fora da curva. Jim está longe de corresponder ao estereótipo de galã e Don Juan, mas sabe usar de seu senso de humor e carisma.

Essa premissa da difilculdade em se relacionar com o sexo oposto está presente também na personalidade de seu melhor amigo e nas tramas que o envolvem, sendo ele a personificação do fracasso e desespero. No meio de sua turbulada vida, com frequentes brigas com a ex-mulher, as dificuldades em lidar com o grave problema psicológico de sua mãe, que além de autoritária é uma acumuladora - vivendo no meio do caos absoluto de amontoado de caixas contendo tranqueiras inúteis -, enquanto seu pai dorme acampado em uma barraca no jardim. Como se não bastasse tudo isso, Steve é responsável por cuidar de seu irmão Billy - um jovem que sofre de distrofia muscular e se encontra praticamente paralisado abaixo do pescoço, porém completamente lúcido. Suas limitações são apenas físicas -, mas nessa árdua tarefa ele tem ajuda de seu amigo Jim com quem divide uma casa.

O núcleo central da série é formado pelos três vivendo juntos, o que por si só é uma receita fantástica para o caos e o absurdo. O piloto da série, muito bem escrito, nos apresenta a formação desse conjunto inacreditável de personagens em uma situação altamente cômica com nível de humor negro suficiente para estourar o radar de qualquer humano politicamente correto.

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Neste episódio, Billy se encontra internado em uma instituição de saúde voltada a cuidar de pessoas com necessidades especiais. Sendo tão jovem e confrontado por suas limitações, Billy se encontra abatido e um tanto deprimido. Durante a visita de seu irmão Steve e seu amigo Jim, Billy desabafa sobre suas frustrações, especialmente o fato de ser um adulto e nunca ter tido uma experiência sexual. Essa foi a semente que gerou o caos a seguir. Jim, apesar de todo seu pessimismo, seus defeitos e sua personalidade autodestrutiva, é um cara que se comove com a situação de seu amigo, o trata com afeição e tem as melhores intenções. Motivado pelo contexto em que se encontrava, Jim decide ajudar o amigo.

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O que se desenvolve a seguir é uma das reviravoltas mais brilhantes já vistas em uma série de comédia. Jim convence Steve a sequestrar seu irmão, tirá-lo da instituição e levá-lo, contrariando qualquer recomendação médica, a um puteiro para que ele não morra sem ter uma experiência sexual.

O que se desenrola neste segundo e terceiro ato, nos apresenta o que será a série: dramas pessoais de pessoas problemáticas, cada um com uma personalidade distinta mas todos com sérios desvios! Pessoas fora da curva, longe da sanidade, convivendo em meio a conflitos, resoluções e verdadeiro afeto.

Uma série de humor negro que apresenta algumas realidades duras e cruéis a partir de uma perspectiva cômica, descontraída e, ao mesmo tempo, responsável. Jim Jefferies é um louco problemático, mas também um humanista! Tem uma forte amizade com Billy e desenvolve simpatia e afeto por vários personagens com deficiências físicas e mentais que a série nos apresenta.

Saindo do universo de humor negro - da cabeça australiana de Jim Jefferies - para um universo de humor nonsense - das mentes neozelandesas de Jemaine Clement e Taika Waititi - apresento a vocês a quarta série desta lista: Flight of The Conchords.

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Esta série foi criada por James Bobin, Jemaine Clement e Bret McKenzie, sendo os dois últimos os protagonistas do show. Taika Waititi foi um dos redatores e diretores, teve participação no processo criativo, mas foi o encontro e a convivência com Jemaine o maior acontecimento que essa série nos proporcionou. A parceria Clement e Waititi desenvolve-se para no fututro nos brindar com trabalhos primorosos de comédias realmente fora da curva e de todos os padrões. Mas isso é assunto para um próximo momento... A série também nos traz muito humor e elementos nunca vistos antes, nos apresentando a essas excêntricas e peculiares mentes criativas. Como disse antes na parte 1 desta lista: "O perfil de loucura de uma obra é um padrão neuroliguístico dos seus criadores."

Em Flight of The Conchords, Jemaine Clement e Bret McKenzie interpretam personagens homônimos, que são músicos, hipsters, deslocados da sociedade e do sistema capitalista que os sufocam. Uma dupla de músicos que dividem um quarto pequeno e o sonho de tornar sua banda folk, Flight of the Conchords, um sucesso. Apesar dos constantes fracassos, a persistência dos personagens é grande, tendo, até mesmo, um agente que administra a carreira da banda - marcando shows em qualquer muquifo da imensa Nova York - e uma fã incondiconal dos rapazes.

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O sonho de uma carreira musical é apenas pano de fundo para desenvolver personagens com problemas psicológicos, dificuldades em compreender e se ajustar as convenções sociais e dificuldades extremas em se relacionar com o sexo oposto. Em outras palavras: temos aqui dois malucos que vivem presos na própria mente e têm zero habilidades de interagir com o mundo exterior. Uma ótima receita para o nonsense, que é entregue de maneira sutil e, às vezes, de maneira intensa, sem freios, sem sensores de ridículo para fazê-los parar.

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Um dos momentos mais nonsense que a série nos traz é a gravação de um videoclip amador para a banda, onde Jemaine e Bret se vestem de robô - em uma fantasia trash - e executam uma performance hilária enquanto cantam a música da banda: "Humans are Dead". Essa é apenas uma das várias performances musicais deste show de TV, que é uma mistura de comédia com musical, indo do melancólico ao nonsense.

Se existe uma série que corresponde a descrição "fora da curva e fora do prozac!", essa é, com certeza absoluta, Flight of the Conchords!

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TOLEDO, R.R.

Meistre da Cidadela do Reino Cintilante: 'The Shitborn, Queen of The Crossovers, The Blender of References and Protector of The Madness'. Farmacêutica com deficiência nos níveis endógenos de dopamina e serotonina. Em uma busca incessante pelo controle da ansiedade, da angústia e da loucura... Uma existência tentando governar sua essência, mas sempre presa no terrível paradoxo da liberdade. P.S.: Fã de Sartre e Cultura Pop! - caso as referências não tenham sido óbvias o suficiente -.
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