estadiário

porque dá um trabalho revelar os segredos de todo mundo.

Francisco Gracioli

Meu nome de certidão é Francisco, mas quase ninguém me conhece assim. "Chico" é o mais usual. Estudante de muita coisa, querendo ser alguém na vida. Quase publicitário, quase jornalista, quase escritor. Sinta-se à vontade para ler o meu diário aqui: facebook.com/odiariodochico

ANGÚSTIAS DE QUEM NÃO SABE SONHAR

Será que ninguém mais já se viu desesperado por ter que fazer escolhas? Será que ninguém mais tem medo de deixar outros sonhos para correr atrás de apenas um? E as pessoas perdidas que ainda estão à procura de algum sonho para agarrar? Onde estão? Respiração ofegante, nó na garganta e bastante indecisão. Calma. Parece, mas talvez você não esteja só.


Nada faz sentido. É caótico viver sem rumo, sem norte nem sul. Ouvir repetidas vezes o mantra clichê: "você ainda é muito novinho..." enquanto as marcas do tempo vão raspando a juventude. Estão enganando a quem? Estou me enganando pra quê? Eu não sou mais tão jovem assim para viver no fluxo da maré. Foi isso aos 18, aos 19, aos 20... Esse ciclo não tem fim? O que o mundo faz com aqueles que não sabem o que fazer? Vira lixo ou vira nada. Vira o quê, meu Deus? As gerações passadas nasciam bem determinadas. Centradas. Focadas. Gritavam que "queriam ser" e depois de anos de carreira, de fato, "eram". Não existiam tantos caminhos. Era "pegar ou largar".

Mas, na teoria, este é o século em que se pode tudo. Não há limite, apenas obstáculos. Assim que as crianças crescem, vinculam suas paixões às profissões. Pode tudo mesmo: engenheiro, professor, cineasta, pesquisador, astronauta, mergulhador, viajante de mundo e de web, navegante, doceiro, bailarino, economista, jornalista, criador, humorista e (inserir aqui qualquer outra carreira imaginável).

angústia-2.jpg

É justamente nesse conglomerado de possibilidades que eu não me encaixo. Meus desejos vivem num limbo que eu não enxergo, escondidos num lugar que nem eu sei. Não mostram a cara. Ou saíram para dar uma volta sem jamais retornar, ou já nasci com defeito de fabricação. O gene da incerteza é latente. Não decido. E os sonhos, onde estão?

Invejo quem corre atrás daquilo que ama, ainda que não o tenha conseguido. Ah!... Aquelas pessoas que estão há cinco ou seis anos criando calos no percurso até algum sonho perfeito. De pés inchados, não desistem. Eu as invejo com bons olhos. Muito! Porque não sinto o que elas sentem. Sou um cubo-mágico embaralhado, cujos quadradinhos são pedaços de vontades desconexas. Não são lineares. Um reflexo da superficialidade de sonhos de retalhos. Não sei montá-los. Paixões sobrepostas. Não sei criar sequências. É o mal de quem vive de olhos embaçados por pensamentos; a falácia de ter tudo e ter nada.

Angústia-1.jpg

Onde é que está o erro no meu processo de maturação? Por que tanta instabilidade? Pra que ser volátil? Tem gente que me aconselha, e eu os entendo. Dizem para que eu me esforce em escolher algo logo e que não olhe pra trás. Todos os túneis são obscuros. Deveria entrar em algum e não dar meia-volta. Seguir em frente. Esquecer o que nem cheguei a lembrar.

Falar é fácil, o difícil é fazer. Como vou virar à direita sem saber o que se passa à esquerda? E se pudesse criar um caminho infinito onde todas as direções coexistissem? Não dá? Pois me explique: por que não?

O mais apavorante é que, enquanto se é um barco sem bússola, isolado no meio do Pacífico, as pessoas que amo já estão se ancorando nas ilhas mais distantes - que, aliás, nunca as conheci. Talvez nem as conheça, por não ter força sonhadora suficiente para chegar até lá. Alguns vão em bando, passam por ti, acenam, cumprimentam, param e conversam por trinta minutos, no máximo. Mas o tempo (deles) urge e precisam voltar a navegar. Têm projetos, muitos. Não podem abandoná-los. O mar está pra peixe, mas não está pra mim. O céu está pra pássaro, mas não pra mim. A terra está pra planta. O que é que está pra mim?

29-01-2016-Angústia-1.jpg

Se houvesse outros assim como eu...

Tique.

Esses outros perdidos devem estar presos bem no centro de um relógio analógico, imersos na esfera digital que consome as relações humanas. Enxergamos os doze números que os ponteiros tocam, mas não conseguimos alcançá-los porque nem sabemos qual caminho tomar. Vivemos projetando e projetando e teorizando...

Taque.

Mudos, tentamos escutar o som do coração, só que a pressão do tempo fala mais alto. Giramos sobre o próprio eixo enquanto ela nos ensurdece.

Tic.

Passa tudo, menos a angústia de gente que pensa muito e nada faz. Passam os sorrisos na internet que simulam a certeza.

Tac.

Passam as lembranças confusas de gente que é indefinida. Passam os amigos que atingiram o sucesso. Passa o desespero por nem saber o que é "sucesso".

Tic.

Passam as oportunidades que deixamos de tentar. Passam os amores que nem puderam se revelar.

Tac.

Passa tudo.

Tic. Tac. Tic. Tac.

Quando se viu...

Tic-tac-tic-tac.

Passou a vida.

angústia-4.jpg

(Antes que o despertador toque, um pedido: algum sonho que abarque todas as indecisões dos angustiados? Esse sonho, ele é o Presente. Anda! Precisamos acordar para a vida.)


Francisco Gracioli

Meu nome de certidão é Francisco, mas quase ninguém me conhece assim. "Chico" é o mais usual. Estudante de muita coisa, querendo ser alguém na vida. Quase publicitário, quase jornalista, quase escritor. Sinta-se à vontade para ler o meu diário aqui: facebook.com/odiariodochico .
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/recortes// @obvious, @obvioushp //Francisco Gracioli