estadiário

porque dá um trabalho revelar os segredos de todo mundo.

Francisco Gracioli

Meu nome de certidão é Francisco, mas quase ninguém me conhece assim. "Chico" é o mais usual. Estudante de muita coisa, querendo ser alguém na vida. Quase publicitário, quase jornalista, quase escritor. Sinta-se à vontade para ler o meu diário aqui: facebook.com/odiariodochico

QUANDO A CAMPEÃ FICA FORA DO PÓDIO

- O que que ela tá comemorando?
- Ela tá comemorando?!
- Mas nem ganhou...
- Nossa, se fizesse o movimento perfeito...
- Deixa sair a nota... Deve ficar em último, com certeza!
- Que pena.


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Treinou tanto até não ter mais água pra suar. Chorou, chorou, chorou até secar os olhos. Depois, sorriu de modo sutil. Batalhou. Tropeçou. Até que...

As Olimpíadas chegaram. Correram. Os 200 milhões de especialistas sedentos pela medalha. A hora é agora?

Cenário: qualquer ginásio da Rio 2016.

Sonorização: gritos, aplausos, assobios, urros.

- Lá vem. Bem ali, ó!

- Tá vendo?

- É do Brasil?

- Aham, é do Brasil!

Os 400 milhões de olhos nem piscam mais quando ela desponta no cantinho da arena antes de entrar. Dá pra ouvir as passadas. Cada vez que um dos pés toca no chão, a arquibancada treme. Está de cabeça abaixada. Provavelmente, um ritual de concentração. É uma gigante!

Anda. Tac. Tac. Tac. Tac. Até que para. No centro do arena. Estática, a atleta fica envolta pela multidão.

- Bem ali, ó!

- Onde?

- Tá vendo?

- Tô!

- Ei, olha pra cá!

- Acena aqui para a torcida!

A multidão está tão longe, mas está perto. O grito de cada um dos brasileiros sai das gargantas alheias, percorre toda a superfície da pele da competidora até que se aloja naqueles carocinhos que surgem na pele quando a gente se arrepia.

A nação faz barulho.

O coração também.

A cabeça permanece curvada. De repente, em câmera lenta, surge uma coragem para encarar todo mundo. O pescoço se desenrola. Ela olha ao redor. Os torcedores enlouquecem. Ela olha para a câmera. O mundo enlouquece.

Aos berros, todos são brasileiros com muito orgulho, com muito amor! Aos berros, o Brasil vai! Aos berros, todos acreditam!

Caem algumas lágrimas dela antes que a arbitragem anuncie o início da prova. A prova. Aprova? Os 200 milhões de especialistas sedentos pela medalha...

- Vai! Falta pouco.

- Faz o que só você sabe fazer!

- Não vai decepcionar, tá?

Tá...

Na cabeça, as vozes ecoam. Isso é torcida! Espreme os miolos. Impulsiona o salto. Suspende os braços. Dá forças para a corrida. Empurra as pernadas. Acho que agora vai!

O árbitro apita.

Início.

Respira fundo.

- Força, vai. Força!

- Sim, você consegue!

- É só fazer o que você ficou treinando durante tantos anos.

- Não fez mais nada além de treinar!

- Tá na mão essa medalha!

Salto perfeito. Aplausos.

Outra acrobacia. Gritos. Aplausos.

Uma defesa fantástica. Assobios.

Olha! Que velocidade! Mais aplausos.

- Falta pouco. Últimos segundos.

- É só um ponto. É só um golpe. E só.

- Agora tá no finalzinho.

E um giro e um mortal e...

Ela cai.

(Silêncio)

Os 200 milhões se emudecem.

- Caiu?!

- O que?

- C-A-I-U?!

- Eu não acredito!

- Vai perder?

- Meu Deus!

- Que que aconteceu?

- Desequilibrou?

- Acho que foi desatenção.

A arena permanece sem som.

A atleta está ali. Bem ali, ó. No centro.

Ela sabe que falhou naquela apresentação.

Tum-tum. Tum-tum. Tum-tum. Tum-tum.

É a pressão; a arterial também.

- E aí, não vai fazer nada?

- Ah! Já sabia que não ia conseguir...

Então, ela se levanta do chão em câmera lenta. A cabeça está curvada. O pescoço se desenrola. Olha ao redor. O mundo e as câmeras querem saber: será que desiste?

Não, não desiste.

- Olhá lá!

- Olha! Olha! Parece que ela vai refazer o movimento.

- Vai completar a prova...

- Sério que ela ainda tem força pra completar a prova?

- Meu Deus! Ela tirou o tênis?

- Como assim? Mas não tem nem mais chances de ganhar...

Recomeça, mas o olhar já está longe. Será que decepcionei o meu país?

Ainda não há som. Alguns aplausos. Sutis. O público começa a esboçar algum ritmo. Ela vai...

Silenciosa.

Um. Dois. Três. Quatro...

Vou conseguir!

Cinco. Seis.

Tenho que finalizar!

Sete. Oito.

Cadê a torcida? Estavam comigo até agorinha...

Nove.

Vamos! Não posso desistir agora.

Dez.

Uh! Consegui. Graças a Deus!

Caem mais lágrimas. Choro compulsivo.

- O que que ela tá comemorando?

- Ela tá comemorando?!

- Mas nem ganhou...

- Nossa, se fizesse o movimento perfeito...

- Deixa sair a nota... Deve ficar em último, com certeza!

- Que pena.

- Nossa, é uma pena.

- Perdeu tanto tempo, né?

- Talvez não estava tão preparada...

Aí, instantes depois, sai a pontuação: última colocada.

- Coitada.

- Nossa, uma pena pra ela, né?

- Pera aí! Mas ela está sorrindo?

- Sorrindo e chorando?

- Por que ela está sorrindo?!

- Mas perdeu, não perdeu?

- Caiu no meio da prova...

- Errou aquele ponto tão fácil!

- Ei, querida, por que você tá vibrando?! Pulando?

- Você tá entendendo? Aquela atleta ali está tão feliz... Mas ficou em último! É doida mesmo.

- Você perdeu a competição.

- O que está sentindo? Por que não está triste?

- Chora de tristeza, anda! Chora!

- Como você se sente?

- Será que ela sabe que perdeu?

Não, não. Não perdeu. Nenhum atleta olímpico que joga limpo perde. Não há perdas nem para o último lugar. Não há demérito. Não há dó. Não existe essa história de que "o sonho olímpico acabou".

Ela já é campeã. Está entre as melhores do mundo.

A medalha pode não ser nossa. Aquele pódio não teve o hino brasileiro. Não estaremos nos primeiros colocados do ranking mundial.

Com todos os problemas que o esporte sofre no Brasil, é uma honra vê-la no topo.

Você é heroína!

Você é nosso orgulho!

Parabéns aos atletas que escorregaram, que tropeçaram, que desequilibraram, que estatelaram a bunda no chão, que erraram a mira, que perderam o ponto, que não subiram no pódio oficial...

Vocês não perdem nunca. Vocês são esperança.

Pode comemorar, querida!

Você é, sim, vitoriosa!


Francisco Gracioli

Meu nome de certidão é Francisco, mas quase ninguém me conhece assim. "Chico" é o mais usual. Estudante de muita coisa, querendo ser alguém na vida. Quase publicitário, quase jornalista, quase escritor. Sinta-se à vontade para ler o meu diário aqui: facebook.com/odiariodochico .
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