estilo narrativo

Roteiros, perfis, ficções e mais algumas palavras.

Denilson Monteiro

BOAS FESTAS E UM FELIZ...

Primeiro capítulo do livro "Dez, nota dez! Eu sou Carlos Imperial", Planeta, 2015. Um texto natalino no estilo Carlos Imperial.


natal.jpg

Em 13 de dezembro de 1968, a linha dura do regime militar recebia antecipadamente o seu presente de Natal por meio do Ato Institucional no 5. A partir dessa data, terminavam os pudores, e o Brasil passava a viver assumidamente numa ditadura, com a intensificação da censura aos meios de comunicação e muita gente presa. “Às favas, senhor presidente, todos os escrúpulos de consciência”, disse o então ministro do trabalho, Jarbas Passarinho, ao General Costa e Silva durante a reunião no Palácio Laranjeiras onde foi decidida a promulgação do mais perverso dos Atos Institucionais.

Contudo, em Copacabana, no apartamento da Rua Barata Ribeiro 814 onde morava o compositor, jornalista, apresentador, produtor musical e mais um sem-número de ocupações, Carlos Imperial, o destino do país não era prioridade naquele momento. O gordo encrenqueiro vivia outro de seus dias agita- dos, excitadíssimo com sua mais recente ideia. Criara um cartão de Natal para lá de irreverente, que no lugar da figura do velhinho de barbas brancas e roupa vermelha, trazia uma foto sua sentado num vaso sanitário com as calças arriadas e mão no queixo com semblante meditativo – sua livre interpretação da escultura “O Pensador” de Auguste Rodin. Ao lado a dedicatória: “Espero que Papai Noel não faça no seu sapato o que eu estou fazendo neste cartão”. Porém, tais dizeres eram apenas para os amigos, já que para os inimigos – e ele os tinha – o “não” era eliminado da frase, manifestando o desejo de que o “bom velhinho” não tivesse a mesma consideração para com o sapato do desafeto em questão. O cartão também tinha uma capa que trazia o desenho de dois pares de pés, um masculino e outro feminino, em lados opostos, simulando uma popular prática sexual simultânea e recíproca. O restante dos corpos era encoberto por um retângulo com a frase: “Boas festas e um feliz...”. Os bons votos de Imperial para 1969 que se aproximava.

Carlos Eduardo Corte Imperial conseguira projeção nacional em 1967, na gincana musical “Esta Noite se Improvisa”, na TV Record. Aparecia como o grande vilão do programa, o homem do contra que adorava provocar a plateia agindo com arrogância e enaltecendo sua superioridade. Recebia vaias ensurdecedoras que retribuía com beijos, o que irritava ainda mais o público. Na im- prensa, toda vez que lhe davam algum espaço, não deixava de atacar alguém, principalmente a personalidade que se encontrasse gozando de maior popularidade no momento. Acreditava que, ao fazer isso, as atenções se voltariam também para ele. Era um sujeito tão implicante quanto aquele garoto que fica na sala de aula dando petelecos nas orelhas dos colegas para rir da irritação deles. O cartão de Natal era apenas um peteleco em novas orelhas.

Para ajudá-lo a pôr a ideia em prática, Imperial recorreu a amigos mais chegados e membros da família. Andava envolvido com a produção de um grupo vocal chamado “A Turma da Pesada”, e pediu que as gêmeas cantoras do conjunto, Célia e Celma, o ajudassem. As duas mineirinhas de Ubá, por serem professoras formadas no Sacre-Coeur de Marie e terem letra bonita, foram incumbidas de escrever nos envelopes o nome dos endereçados. Maria Luíza, sua filha de 13 anos, colou as fotos no papel-cartão. Outros amigos, como o “mimiqueiro” Tony Checker, e os cantores Fábio, Luiz Henrique (ou Gastão Lamounier) e Ângelo Antônio, estes dois últimos também integrantes da “Turma da Pesada”, levaram os 100 envelopes nos endereços indicados.

Depois de entregues, os cartões provocaram variadas reações: riso, espanto e indignação. E foi justamente um indignado – provavelmente alguém que recebeu a mensagem desejando que seu sapato fosse feito de penico –, que acabou por complicar a vida do Gordo. Essa pessoa fez com que o cartão fosse parar nas mãos de membros do governo militar, dando a entender que a brincadeira de Imperial era uma provocação, que na verdade ele queria era ver sujas as botas dos generais que se encontravam no poder. Tudo isto justo naquele finalzinho de 1968.

Na noite de 1º de janeiro, a “A Turma da Pesada” havia se apresentado no programa do comediante Ronald Golias, na TV Tupi. Logo após, Imperial le- vou Célia e Celma em casa, na Rua Barão de Ipanema, frisando muito bem que iria apanhá-las na manhã seguinte, pois haveria ensaio em seu apartamento. Depois seguiu para a cantina La Fiorentina, no Leme, onde a classe artística carioca batia ponto, na companhia dos pupilos Fábio e Gastão Lamounier (ou Luiz Henrique). Conversava animado e já nem se lembrava da travessura natalina que havia aprontado. O que queria realmente era discutir seus vários planos para a “Turma da Pesada”. Imaginava o grupo viajando por todo o país e tocando sem parar nas rádios. Também sonhava faturar alto com o lança- mento de “O Rei da Pilantragem”, sua segunda produção cinematográfica. Di- zia que teria um desempenho bem melhor do que “Tropeiro”, o maldito filme que lhe trouxera apenas prejuízo e dor de cabeça. A conversa prosseguia, até que três homens dirigiram-se à sua mesa.  – Senhor Carlos Imperial? – Pois não? – O seu carro está trancando o nosso, nós não estamos conseguindo sair.Será que o senhor poderia ir lá com a gente para tirá-lo?

O Gordo estranhou, não lembrava de ter dificultado a saída de ninguém quando estacionou seu Mercury Cougar, mas atendeu aos homens. Pediu que Fábio e Gastãozinho aguardassem e os acompanhou. Minutos depois, os três o trouxeram de volta, estava com as mãos algemadas. Tudo não passara de uma desnecessária encenação de um trio de maus atores. Imperial explicou aos amigos o que acontecia:

– Estou sendo preso pelo Dops, avisem meus pais.

O grande gozador agora sentia um friozinho na espinha. Já havia se metido em algumas merdas anteriormente, mas aquela o deixava amedrontado de verdade. Naquele momento, toda a preocupação que não havia tido com o que acontecia no país passou a existir. Ouviu comentários sobre a prisão de quem era tido como inimigo do regime. No entanto, não conseguia imaginar o que tinha feito para ser considerado um. Aqueles três pediam que ele os acompanhasse, mas para onde? A sede do Dops, lá na Rua da Relação? Muita gen- te dizia que quem entrava ali apanhava um bocado. E se pretendessem coisa pior? Aquela história de jogarem gente no Guandu podia ser verdade...

Gastão, numa demonstração de amizade ou falta de noção do perigo, pediu e obteve dos agentes permissão para acompanhar o amigo no camburão. Para Fábio, restou observar a viatura com os dois companheiros desaparecer na Ave- nida Atlântica, e imaginar a melhor maneira de dar a notícia aos pais de Imperial, sem que após recebê-la terminassem precisando dos cuidados de um médico.


version 1/s/literatura// @obvious, @obvioushp //Denilson Monteiro