estilo narrativo

Roteiros, perfis, ficções e mais algumas palavras.

Denilson Monteiro

ESSE MISTÉRIO ESTRANHO QUE ENVOLVE TIM MAIA

A trajetória de Sebastião Rodrigues Maia, o Tim Maia do Brasil.


Tim Maia e o cowbell B.jpg

“Ainda bem que eu vim! Pra começar: agudo, grave, eco e retorno!”

Em 28 de setembro de 1942 fazia 71 anos que a Princesa Isabel havia assinado a Lei do Ventre Livre. No mesmo dia, na Rua Afonso Pena nº 24, Tijuca, Rio de Janeiro, nascia o menino Sebastião Rodrigues Maia, o 11º filho do casal Altivo e Maria Imaculada. Seria conhecido como Tim Maia, pai do soul brasileiro, dono de musicalidade única, voz inconfundível, temperamento explosivo e ao mesmo tempo doce e bem-humorado. O Tim Maia do Brasil.

Tião cresceu ouvindo música no rádio e nas serenatas dadas por seus pais. Um irmão, que tocava um violão “cansado”, lhe ensinou alguma coisa e depois o pai pagou um professor. Mas nem só de música viviam os Maia. Para sustentar 11 filhos, Altivo valia-se do seu talento na cozinha mantendo uma pensão. De vez em quando, cabia a Tião entregar marmitas na casa dos fregueses. “Ô Tião Marmiteiro”, gritavam. Uma vez foi pego por um freguês, um menino da sua idade indignado ao vê-lo jogando bola e comendo um pastel da marmita de sua mãe. O garoto lhe deu uma bronca e ele o perseguiu com um canivete. Foi o primeiro contato com Erasmo Esteves. Mais tarde, o Tremendão, Erasmo Carlos.

Coroinha na Igreja dos Capuchinhos, aos 14 anos, com a ajuda de Frei Cassiano, “um capuchinho muito dinâmico e pra frente”, Tião formou Os Tijucanos do Ritmo, conjunto com 1 bateria ( comprada com 7 mil cruzeiros dados pelo frei), 1 bongô, 1 trompete e 17 acordeons. Quem tocasse acordeom tinha vaga. Durou pouco, a disputa pela bateria gerou arranca-rabos entre Tião e os outros tijucanos. Inspirado em grupos como Quatro ases e um coringa, Farroupilha e Os Cariocas, formou com seu irmão, Luís, e os colegas China e Trindade, o Universal. Outra experiência abreviada pelo seu jeito explosivo, pois quebrou seu violão brigando com Luís.

Em 1957, na aurora do rock ‘n’ roll, o amigo Arlênio Livio apareceu na porta do Bar Divino, ponto de encontro da turma, trazendo Roberto Carlos, um capixaba de 16 anos sonhando em fazer sucesso no Rio. Com ele, mais Arlênio e Wellington, único que falava inglês, Tião criou Os Sputniks. Antônio Carlos, primogênito dos Maia, conseguiu o primeiro show. Foi no Teatro da Igreja dos Capuchinhos, onde Tião foi coroinha e Antônio realizava serviços como voluntário.

Vieram mais apresentações. Porém, enciumado com o sucesso que Roberto fazia com as meninas, Tião começou a hostilizá-lo. Num show em um clube no Méier, Roberto não apareceu. Estava no Clube do Rock, 15 minutos espremidos no programa Meio-dia, da TV Tupi, apresentado pelo gordo Carlos Imperial, moço de família rica que divulgava o rock ‘n’ roll. Roberto virou o Elvis Presley brasileiro, não precisava ouvir desaforos de Tião. Deu adeus aos Sputniks.

Tião também procurou Imperial, que mudando seu nome e, o integrou ao Clube do Rock. “E agora, vamos apresentar uma grande novidade: Tim, o Little Richard brasileiro!” anunciava na TV e em clubes do subúrbio carioca.

Quando o pai morreu, em fevereiro de 1959, Tim decidiu ir para os Estados Unidos. “Vou estudar televisão”, disse a Erasmo, o garoto de quem ficara amigo, mostrando prospectos de um curso que havia conseguido com Jacy Campos, diretor do Meio-dia. Chegou “na matriz” em 17 de agosto de 1959. Morou em Tarrytown, perto de Nova York, com uma família de americanos, os O’Meara. Só falava o inglês das músicas que cantava. Fez gesto de que tocava violão e lhe deram uma guitarra, presente que serviu para ganhar um troco em festas cantando Prece ao vento (“Vento que balança as palhas do coqueiro ...”) do Trio Nagô. Trabalhou em mercado, fábrica de máquina fotográfica, lanchonete, tomou conta de criança, tirou neve da porta de casas. Jamais estudou televisão. Morando sozinho, montou com 3 americanos o The Ideals, grupo de doo-wap e soul, estilos que conheceu na terra do Tio Sam. Também foi lá que fumou seu primeiro baseado, seu “baurete”. Foi preso com quatro amigos durante um passeio em Daytona Beach, ao abastecer um Chevrolet 58. O carro era roubado. “Puxou uma etapa” de dez dias.

Conseguiu que o baterista Edison Machado, em Nova York para o show de bossa nova no Carnegie Hall, participasse de New Love, bossa sua com Roger Bruno, colega do The Ideals. Compacto gravado na Ray Cup Records, gravadora “fundo de quintal”, especializada em spirituals. Percorreu 50 gravadoras com o disquinho embaixo do braço, buscando chance em um selo grande. Só recebeu portas na cara.

Foi preso torrando um baurete num prédio abandonado em Tarrytown. Cumpriu seis meses de pena e logo após, o enfiaram num avião de volta ao Brasil. Adeus sonho de virar astro do soul na América. Chegou no final de 1963 e encontrou Roberto com a carreira em ascensão. Escondeu que havia sido deportado, levava Arlênio, China e Trindade ao banco para o verem cobrar um dinheiro que os Estados Unidos lhe deviam.

Passou 1966 preso (“No PP, onde o filho sofre e a mãe não vê”) por roubar duas cadeiras. Na cela, leu que Roberto e Erasmo eram ídolos da Jovem Guarda. Livre, foi pra São Paulo procurar os dois. Cantava soul e as meninas queriam iê-iê-iê. Passou fome e frio. Conseguiu um contrato na TV Bandeirantes, gravou um compacto pela CBS com “Meu país” e "Sentimento" e outro pela Fermata com "These are the songs" e "What you want to bet". Nenhuma repercussão.

Eduardo Araújo lhe deu força, o colocando como produtor de A onda é o boogaloo onde também gravou uma música sua, Você. Quando Roberto gravou Não vou ficar e um empurrão de Erasmo e dos Mutantes o levou para a Philips, parecia que a coisa ia deslanchar. Voltou para o Rio, onde dormia num sofá com mola quebrada, o Dromedário, no apartamento do cantor Fábio.

“O Fábio tava todo feliz na sala e a gente no quarto cansadinho. Eu abria os shows do Fábio. Aí, ele tava rindo pra caramba na sala e eu vi na parede do quarto um quadro com uma moça bonita e o mar atrás. Eu fiz Azul da Cor do Mar naquele dia porque ele tava muito feliz e eu meio down no quarto. Falo que ‘uns nascem pra sofrer enquanto o outro ri’”.

Gravou "These are the songs" com Elis Regina e todos queriam saber quem era o cantor de voz rouca que brilhava ao lado da maior cantora do Brasil. Belo impulso para o compacto que acabara de lançar.

Lançada em março de 1970, a bolacha com Primavera (Cassiano/Sílvio Rochael) trazia o ex Tião marmiteiro como Tim Maia. Um estouro, chegava nas lojas e esgotava. Primavera tocava em todas as rádios. A gravadora encomendou um LP. Gravou Azul da Cor do Mar; Coroné Antonio Bento, Cristina e Padre Cícero. 24 semanas na parada de sucessos. Montou show no teatro da Praia, virou astro.

O baixista Rubão Sabino lembra da maratona de shows que fez com Tim nesse período: “Tinha vezes em que a gente tocava na Pavuna e na mesma noite ia pra Campo Grande. No meio do caminho ele parava o carro, pegava o dinheiro e pagava um por um dos músicos. Depois ligava para o próximo clube confirmando se estava tudo em cima”.

Mais três discos – todos trazendo apenas seu nome como título – e belas canções: "Não Quero Dinheiro" (Só Quero Amar); "A festa do santo reis" (Márcio Leonardo); "Sofre"; "O que me importa?"; "Réu confesso"; "Gostava tanto de você" (Edson Trindade). Até que em 1974, lendo o livro Universo em Desencanto, aderiu à Cultura Racional de Manoel Jacintho Coelho.

Meteu tesoura na cabeleira black power; raspou a barba; só vestia branco; abandonou os bauretes; deu sua coleção de discos para sua irmã, Luzia – o que ajudou na formação musical de seu sobrinho, Ed Motta – e até pintou alguns instrumentos de branco, entre eles um órgão Hammond, comprado do mutante Arnaldo Batista. “Não é religião, sente a filosofia. É um conhecimento transcendental que ultrapassa todas as expectativas do ser humano e que desvenda os mistérios da natureza e do animal racional”, definia à revista Pop a ideia que abraçara.

Finalizava um álbum duplo na nova gravadora, a RCA Victor, disco com time de músicos enorme, verdadeira viagem sonora. Apagou todas as vozes e gravou letras em louvor à filosofia racional. A única canção que permaneceu com a letra original foi Que beleza. A RCA se assustou e rescindiu o contrato. Maia pegou o disco, dividiu em dois e lançou por seu selo, SEROMA (Sebastião Rodrigues Maia). Mas, as rádios não tocavam e as emissoras de TV não o queriam com seu “bando de malucos vestidos de branco”.

O mar de rosas de Tim Maia com a Cultural Racional acabou em setembro de 1975, quando abriu a janela de seu apartamento e gritou: “O Universo em Desencanto é tudo mentira! Manoel Jacintho é um pilantra!”. Passou a ter um pé atrás com religiões. “Eu estava com ele no carro e quando paramos num sinal, veio uma evangélica dar um panfleto pra ele. Cara, ele deu um esporro na mulher: ‘Eu nunca mais vou cair nessa porra!’”, conta o amigo, Silvio Rochael.

De volta à Terra, correu atrás do tempo perdido. Ensaiou sem parar com sua banda, a Vitória Régia, nome da rua onde ficava sua casa - ideia de seu guitarrista, Paulinho Guitarra. Gravou disco em inglês, mas sem dinheiro para a prensagem, deixou engavetado. Veio um contrato com a Polydor. Com uma robusta Vitória Régia (três guitarras, dois baixos, coro com três cantores, teclado, bateria e grana) gravou um LP que trazia Rodésia; Brother, father, sister and mother e Márcio Leonardo e Telmo, homenagem a seus dois filhos. Um belo disco sem o devido reconhecimento. Depois de um LP pela Som Livre e finalmente lançar o disco em inglês, fez as pazes com o sucesso caindo na discoteca. Tim Maia Disco Club tinha o arrasa-quarteirão, Sossego.

“Só quem trabalhou com ele sabe como era. Músico muito cheio de coisinha não aguentava muito tempo. Ele dava uma bronca e falava: ‘Aí, pessoal, é que nem amarelinha, quem errar sai’”, relembra aos risos o guitarrista José Mauricio, na Vitória Régia (“a única que paga aos domingos após 21 horas”), em 1976.

Saltou de gravadora em gravadora, sempre deixando boas canções pelo caminho: Do Leme ao Pontal; Vale tudo; Carinhos; Telefone; O descobridor dos sete mares; Me dê móvito, a “melô do último a saber”. Cantava para 20 mil pessoas no Chic Show, baile tradicional de São Paulo. Mas, ao mesmo tempo que era sucesso, os excessos tornavam uma incógnita saber se ia ou não aparecer nos shows. No programa “Chico e Caetano”, só apareceu no ensaio e foi o que levaram ao ar; gravando para o Fantástico o vídeo de O descobridor dos sete mares, achou que o diretor demorava demais e foi embora. Em Recife, não foi ao show e o contratante sugeriu a Luis Carlos Batera entrar no seu lugar usando peruca. “Eu só vi o Luiz Carlos mudando de expressão e dizendo pra eles: ‘Porra meu irmão, eu moro em Vila Isabel! Vou pegar um rabo desses?’”, recorda Pedrinho Piri, na época tocando na Vitória Régia. O grande barraco aconteceu em um show no estacionamento Quatro Rodas, em Vilar dos Telles. Tim não apareceu e o público revoltado quebrou cadeiras e garrafas. Houve até um baleado. “Eu deixei de comparecer a alguns shows muitas das vezes porque eles não me pagaram. Em alguns porque eu estava doidão, cheio de rebordosa, e não dava pra cantar daquele jeito. E em alguns eu não fui porque não quis ir mesmo, pra causar a maior polêmica. Todas as vezes que eu não fui eu paguei os músicos”, se justificava.

Ficou na vida de “triatleta doidão” (maconha, uísque e cocaína) até maio de 1997, quando sofreu um problema de saúde (“tive uma inflamação no saco”) e o médico avisou que se continuasse assim, não duraria muito. Largou a garrafa de uísque bebida diariamente, deixou de cheirar e, começou a caminhar pela praia. Só não abandonou os bauretes e a comida. Rogério Lopes, último guitarrista da Vitória Régia, lembra: “Um negócio engraçado era ver o embate dele com a comida. Ele ficava sentado à mesa diante de um pão com manteiga e resmungando: ‘Vou ter que parar de comer essa merda. Não posso mais comer essa porra. Esse negócio faz mal pra mim. Não pode, não pode, não pode’. Mas ele acabava comendo”.

Recuperado, lançou quatro CDs em 97, todos gravados no estúdio que construiu na sua casa no Recreio dos Bandeirantes. Um deles, Amigos do rei, foi a realização do sonho de cantar com Os Cariocas. Assim que começou a gravar com seus ídolos, ligou para Erasmo, outro admirador do quarteto vocal: “Olha só, seu puto, eu consegui, você não!”.

Acumulou um mundo de processos. Em alguns era réu, em outros o queixoso. Fez shows em que a bilheteria foi confiscada por oficiais de Justiça, “os corvo”, cobrando ações que perdera à revelia. Virou persona non grata na TV Globo depois de faltar ao Domingão do Faustão. Erasmo, o aconselhava: “As portas são tão difíceis de serem abertas, e você fica brigando com um diretor que depois sai e fica um que gosta de você, mas você briga com ele também. Procure agir menos por impulso, pensar mais nas coisas”. Admitia estar mesmo gastando muito dinheiro com processos, mas depois dizia: “Ah, Erasmo, eu tenho mais é que ferrar com eles”.

Em 8 de março de 1998, faria um show no Teatro Municipal de Niterói, a gravação de disco acústico. Vitória Régia e orquestra de cordas, com transmissão pelo canal Multishow da Globosat. Era o reatamento das relações com a Globo, grande chance de reorganizar a vida. Tentou cantar “Não quero dinheiro”, não conseguiu. “Vou pedir.. vou pedir...” foi só o que saiu. O coração deu defeito. Levado para o hospital, morreu depois de uma semana internado. Era um domingo, 15 de março. No Maracanã, jogavam Botafogo e Flamengo. Quando a notícia de sua morte foi anunciada no alto-falante com pedido de minuto de silêncio, as torcidas iniciaram um coro de “Tim Maia! Tim Maia! Tim Maia!”, semelhante ao que Jorge Benjor cantava em WBrasil, a canção na qual transformara Tim em sindico do Brasil. O tempo passa, mas o coro continua ecoando.


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