estilo narrativo

Roteiros, perfis, ficções e mais algumas palavras.

Denilson Monteiro

OUTROS ANIVERSÁRIOS DO GUANABARA

Batalhas em supermercados nos tempos do Sarney.


Medusa .jpg

Outubro é o mês de aniversário do Guanabara, conhecida rede de supermercados do Rio de Janeiro. O evento é tido como um similar brasileiro do programa Hora Selvagem do canal de TV por assinatura, Discovery. Uma multidão vai às diversas filiais do estabelecimento digladiar-se por uma lata de leite condensado pela metade do preço normal. Isso faz a alegria dos telejornais, que noticiam o fato como um dos sinais da tal crise que assola o país. Assistindo a isso, lembro de aventuras que vivi em supermercados em outros tempos, que para mim, eram mais terríveis do que os do atual momento.

Em fevereiro de 1986, José Sarney, segundo presidente do Brasil após a ditadura militar – Tancredo Neves fora eleito em janeiro do ano anterior, mas no dia da posse foi internado e morreu em abril sem colocar a faixa presidencial - , lançou um conjunto de medidas econômicas para derrotar o monstro da inflação. Uma delas visava o congelamento de preços.

Nas emissoras de TV, os apresentadores dos telejornais enchiam a boca para dizer que a máquina que remarcava o valor das mercadorias estava aposentada. Também eram exibidas cenas de populares que zelavam pelo sucesso do congelamento de preços, denunciando os comerciantes que o desrespeitavam. Eram os “fiscais do Sarney”, cujo mais famoso foi um senhor do sul do país, que diante das câmeras disse: “Eu fecho este supermercado pelo roubo abusivo e extorsivo que está acontecendo”.

Foram dias de muito ufanismo. E também de alívio, pois as pessoas iam pela manhã aos supermercados, e se retornassem à tarde, os preços dos produtos permaneciam os mesmos. Entretanto, passadas algumas semanas, as prateleiras começaram a ficar vazias. Dizia-se que os comerciantes estavam escondendo as mercadorias para vendê-las por um valor maior. Ágio era a palavra utilizada para definir essa prática.

Não havia carne nos açougues e Sarney ordenou que a polícia federal fosse laçar os bois nos pastos dos fazendeiros sonegadores, o que gerava mais belas imagens para as TVs. Também foi importada carne da França. Era resfriada e tinha um gosto que desagradou bastante o consumidor brasileiro. O governador do Rio de Janeiro, Leonel Brizola, ferrenho opositor de Sarney e uma mente prodigiosa para criar expressões que desconcertavam seus adversários, chamou a carne francesa de “mumificada”.

Além da carne, sumiram muitos outros produtos: frango, açúcar, óleo, feijão e arroz. Quando alguém ficava sabendo da chegada desses itens nos mercados, corria para lá antes do sol raiar, na esperança de levar alguma coisa para casa.

Nessa época, eu era um garoto de 19 anos, morador de Piedade, bairro da Zona Norte carioca. Certa vez, fui ao Boulevard, um supermercado em Vila Isabel, que no passado fora a fábrica de tecidos que inspirou Noel Rosa a compor o clássico “Três Apitos”. Não sei como, mas na sua rede de informações, minha mãe soube que o mercado ia receber um carregamento de ovos e me incumbiu de trazer ao menos uma dúzia. Lá fui eu, antes de ir para a academia trabalhar meus músculos para ser um novo Sylvester Stalonne.

No Boulevard não havia fila, era abrir a porta e todo mundo correr para pegar os ovos – apenas uma única dúzia para cada cliente. Como ia para a academia, estava com o traje adequado para a corrida: tênis Adidas e uma confortável calça de moletom. Ia ser barbada. Pontualmente às oito horas, as portas do estabelecimento foram abertas. Com a energia dos meus 19 anos, dei uma disparada, abrindo larga dianteira.

No grupo de consumidores desesperados, um pouco atrás de mim, havia uma senhorinha de casaquinho de lã e chinelos. Apesar da idade e do calçado inadequado, ela até que ia bem. Porém, tropeçou e foi ao chão. Ouvi os gritos de umas moças: "Oh, aquela senhora caiu!". Pensei em voltar para ver se estava tudo bem, prestar alguma ajuda. Porém, lembrei que estava ali pelos ovos e, tal qual um Dick Vigarista, aquele personagem desonesto do desenho animado "A corrida maluca", concluí: "Menos uma concorrente". Fui um dos primeiros a chegar até a pilha, conseguindo a minha preciosa dúzia de ovos - eram tão pequenos, que mais pareciam de codorna com tratamento a laser para a retirada das pintas.

Fui para a academia, levantei meus pesos e horas depois, fui embora na companhia de um amigo. Parei numa esquina para ouvir melhor um desabafo que ele fazia sobre problemas com os pais. Contudo, ele gesticulava muito e num dado momento, sua mão bateu na embalagem de isopor dos ovos, que foi ao chão. Parecia uma praga da senhorinha, quatro ovos quebrados, uma tragédia. Constrangido, meu amigo quis pagar pelo prejuízo. Mas não adiantava, com a crise do Sarney, não havia ovos em lugar algum. Seria preciso aguardar a chegada de um novo carregamento, sabe-se lá quando. Falei para ele não se preocupar.

Quando cheguei em casa, dona Graça perguntou o motivo dos ovos estarem quebrados. Para evitar uma interminável reclamação, inventei que o tumulto no Boulevard foi tão grande, que até tentaram arrancar a dúzia de minhas mãos, o que causou a quebra. Como na época, a situação era realmente cheia de casos grotescos - um parente havia atravessado a porta de vidro da Sendas de Pilares tentando comprar carne - ela acreditou. Morreu oito anos depois sem saber da minha mentira.

O congelamento durou menos tempo do que minha mãe. Em novembro de 1986, no dia seguinte à vitória maciça de seus aliados nas eleições para governo, Senado e Câmara, Sarney liberou o reajuste de preços e os produtos voltaram às prateleiras.


version 2/s/sociedade// @obvious, @obvioushp //Denilson Monteiro