estranha loucura

Pensamentos além da normalidade

João Paulino

Estudante de Direito amante da filosofia, que encontra nos livros um meio desvelar as obviedades da vida.

HISTÓRIA, CINEMA, POLÍTICA: UM ESTRANHO AMOR

Breve exposição histórica sobre o contexto da Guerra Fria e seu relevo no pós-guerra. Exposição do filme Dr. Strangelove, como sátira do cenário histórico-político citado. Sucintos posicionamentos sobre importância do cinema para politização e também para servir de “memória” da sociedade.


Dr.Strangelove

A Europa e o mundo viveu um período de intenso conflito e tensão com a Segunda Grande Guerra, encabeçada pela Alemanha sob comando do Füher, Adolf Hitler. Apesar do fim do conflito armado, a tensão continuou, com atores e contextos diferentes. A esse período costuma-se chamar de Guerra Fria. Com o fim da Alemanha Nazista, ocorreu a divisão do país em Alemanha Oriental dominada pela URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas) e Alemanha Ocidental que passou ao comando principalmente dos EUA. Foi construído o famoso muro de Berlin; símbolo da divisão não apenas do país, mas do próprio mundo, a chamada bipolarização. O mundo a partir de então estava dividido; influenciando nas relações de todo o mundo. Estava à solta a ameaça “comunista”!

Durante esse interstício (de maneira mais específica de 1945 até 1991), o mundo viveu envolto ao medo de um conflito armado entre as duas grandes potências, e principalmente um conflito nuclear, haja vista ambas terem desenvolvido tecnologia para fabricação de armas nucleares, o que levaria ao fim do planeta. Esta tensão sentia-se em cada canto e a cada dia se intensificava e adentrava nos lares. Apesar da tensão, o conflito não chegou a acontecer diretamente; estava muito mais nos planos estratégicos, exemplo máximo disto, foi a corrida espacial que acabou por levar o homem a lua. O único momento que o conflito chegou aos campos fora na Guerra do Vietnã que americanos terminaram perdendo, para os famosos vietcongues, terminando com o país aderindo ao socialismo. O fim da Guerra Fria (que tem esse nome justamente por ter ocorrido no campo da estratégia, sem o “calor” trazido pelos campos de batalha de fato) tem como um dos grandes símbolos a derrubada do Muro de Berlim no dia 09 de novembro de 1989. Dia apoteótico para a história. Da queda do muro à dissolução da União Soviética, não demorou. Ainda em 1989 no mundo socialista aconteceram as primeiras eleições livres. Após a queda do muro, a reunificação da Alemanha e o colapso econômico e político na URSS devido ao desgaste trazido pelas corridas armamentista e espacial, no dia de Natal de 1991, o último dirigente soviético há 6 anos no poder, Mikhail Gorbatchov, faz o anúncio do fim da gigante União Soviética, que se dissolve oficialmente no dia 31 de dezembro do mesmo ano.

O período histórico, bem como tantos outros que poderiam ser citados, também foi um prato cheio para a indústria cinematográfica hollywoodiana! O “centro mundial do cinema”, como em outras vezes absorveu os conteúdos trazidos pela conjectura que estava situado, absorvendo, transmitindo e como toda arte, perpetuando a história! Inúmeros filmes foram feitos falando da situação como um todo, ou especificando em determinados momentos; um dos temas favoritos fora sobre a Guerra do Vietnã, produções tanto em defesa quanto em forma de crítica à Guerra. As críticas surgiram veementemente também por causa dos movimentos hippie e demais contra-culturais. Um dos filmes que pode se considerar emblemático acerca do tema, que foi baseado no livro Red Alert de Peter George. Falamos do belo filme Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb, dirigido pelo famoso Stanley Kubrick, que dirigiu grandes produções como A Clockwork Orange e 2001: A Space Odyssey, que dispensa comentários de sua genialidade.

Em Dr. Strangelove não é diferente. O filme conta a história do general americano D.Ripper (estrelado por Sterling Hayden), que fica louco e arma um plano visando o início de uma guerra nuclear entre Estados Unidos e União Soviética, por achar que os soviéticos estão sabotando os reservatórios de água americanos. Os líderes tanto americanos quanto soviéticos se reúnem para dar uma solução à situação, tentando neutralizar o avião que carrega as ogivas nucleares. Bem, o contexto da Guerra Fria é o que dá essência à trama, nesse contexto de forte tensão e ameaça nuclear, que chega a via de fato, após um ato de loucura de um general americano. Apesar dos momentos de tensão vividos, o filme era do gênero comédia sendo considerado por alguns como uma das melhores de todos os tempos. Mas não é uma comédia comum; carregada de humor negro, um humor ácido, perspicaz, certeiro. Uma das grandes sátiras políticas já feitas sem dúvida. Fez de um dos grandes momentos de tensão da história, um “joguinho”, reduzindo a real importância dos fatos. Mas talvez tenha sido feito isso, para mostrar que muitas vezes o que estava em batalha eram os egos e apenas em segundo plano entravam os reais interesses das nações envolvidas (e nisto, ele é mais atual do que nunca!). É interessante ressaltarmos também as brilhantes atuações de Peter Sellers, que representou Lionel Mandrake, presidente Merkin Muffley e Dr. Strangelove. Este, dá um ironia genial a trama, principalmente quando tenta controlar seu braço, que “tem vida própria” e insiste em fazer a saudação nazista. Seria, uma alusão ao autoritarismo latente? Cabe uma boa reflexão, bem como, toda a genial obra que faz uma brilhante sátira ao período da guerra fria. Outro ponto interessante é o título do filme que em tradução livre, seria “estranho amor”, satírico e irônico. Pedindo licença poética, não é possível, diante do título, não declamar caetanamente a relação entre URSS e EUA ─ para a sátira do filme ─ “não vamos fuçar nossos defeitos / cravar sobre o peito as unhas do rancor / lutemos, mas só pelo direito / ao nosso estranho amor”. Eis o estranho, conturbado, violento amor.

Não apenas essa genial obra, mas inúmeras outras de igual quilate, se pautaram no contexto da Guerra Fria, não apenas como forma de discutir a própria situação política internacional, como para suscitar outras inúmeras discussões de enorme valor para sociedade, por exemplo, as armas nucleares. Interessante ressaltar, a importância do cinema para mais uma vez (re)contar a história. Além do prazer da arte, a função política de ensinar. Ela nos propicia a conhecer a nossa própria história, afinal, como diria um autor que se perde nas minhas difíceis e conturbadas memórias: “um povo que não conhece sua história, está fadado a repeti-la”.


João Paulino

Estudante de Direito amante da filosofia, que encontra nos livros um meio desvelar as obviedades da vida..
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