estranha loucura

Pensamentos além da normalidade

João Paulino

Estudante de Direito amante da filosofia, que encontra nos livros um meio desvelar as obviedades da vida.

Azul é a cor mais quente... e machista!

Para além das primeiras impressões do filme Azul é a cor mais quente. Percepção da manutenção da estrutura de dominação da mulher.


Recentemente assisti ao filme “Azul é a cor mais quente” que foi lançado já há algum tempo, mais ou menos no final de 2013. Por inúmeros motivos procrastinei, mesmo depois de toda a repercussão que teve no mundo inteiro. É um filme francês dramático que se baseou nos quadrinhos de Julie Maroh, tendo como título na frança “La vie d’Adèle” tendo as atrizes Adèle Exarchopoulos — como Adèle — e Léa Seydoux — como Emma — nos papéis principais do filme.

O filme basicamente conta a história da jovem Adèle, adolescente que começa a se descobrir como mulher, descobrir a paixão tudo que envolve esse período da vida, enfim, começa a se conhecer e acaba por descobrir em Emma uma paixão, uma paixão por outra mulher. É nesse contexto que ela começa a descobrir coisas como o preconceito e a opressão de uma sociedade hipócrita, imbuída de um profundo preconceito que tem suas raízes no modelo patriarcal e perpetua-se através do modelo de exploração da atual sociedade capitalista. Superado isso, ela passa a namorar Emma, elas têm um relacionamento e o enredo do filme se desenrola.

É sem dúvidas um belo filme, que tem uma sensibilidade ímpar ao conseguir observar essa descoberta de Adèle, o preconceito estabelecido e a superação por parte das duas. Tecnicamente, um filme muito bonito, com closes perfeitos, com jogos de câmera que dão uma bela sensualidade ao filme.

Infelizmente, a beleza do filme fica por aí. Ao ultrapassarmos a primeira camada, ou seja, irmos além daquilo que se apresenta superficialmente e fazermos uma breve análise interpretativa da camada estrutural do discurso produzido (especialmente numa “segunda fase” do filme) perceberemos — e nos entristeceremos — que é um discurso de manutenção de dominação da mulher na sociedade. Em um primeiro momento conseguimos encontrar um possível rompimento do discurso dominante, mas que se perde a partir do momento que Adèle e Emma passam a morar juntas. Aquela é a “professorinha” que tem essa profissão pelo bom jeito, pela inclinação que toda mulher tem para a maternidade, mas que permanece com as obrigações domésticas. Já Emma assume um papel que nos padrões heteronormativos da sociedade, seria representado pelo homem, o provedor do lar; a vida de Adèle passa a se modular a dela; tudo gira em torno dela, afinal ela é quem desempenha o papel importante na relação. A cena da pequena festa que as duas dão na casa delas, lembrou-me sobremodo, algumas vezes — guardadas as proporções — que fui assistir a um jogo de futebol na casa de algum amigo em que a estrutura patriarcal perdura: a esposa tomava de conta de tudo, fazendo comida, preparando uma coisa e outra, maioria das vezes na cozinha, quando não ficava de “acessório” perto do marido, porque as atenções deveriam estar voltas para ele, ele é quem “manda”. É o que conseguimos perceber que acontece nas cenas entre as duas protagonistas do filme.

Foucault aqui nos auxilia e muito, ao falar que o poder não é um objeto natural, mas uma prática social que se produz historicamente e o poder como uma sujeição de um sobre outro. No filme é o que acontece: temos a perpetuação de uma espécie de ordem simbólica, onde o núcleo familiar (vale dizer uma esfera de reprodução de dominação) se compõe de alguém que desempenha papel mais importante, pois é mais forte, é quem dá o sustento; e de outra pessoa mais frágil, que se subordina ao outrem e dessa forma mantêm-se uma estrutura de dominação que se prega no modelo patriarcal.

É notório, mas acho importante dizer: não estou falando de um machismo, onde é homem biologicamente falando num polo de dominação e de outro uma mulher biologicamente falando no outro, pois acredito que a discussão vai muito mais além. Para mim, o que está a ser discutido, são as práticas sociais que temos reproduzidas em determinados microcosmos das relações sociais e é nisso que critico o discurso estrutural do filme, pois percebo uma manutenção da ordem simbólica de dominação patriarcal e não uma igualdade na relação, ao contrário, o que consigo enxergar é uma patente desigualdade que se contradiz a liberdade dos afetos. Eu sou daqueles que acreditam que mudar os agentes que praticam as ações, não mudam as ações, mudam apenas os agentes. Quero dizer com isso que: a essência, a ideia, aquilo que motiva permanece igual, a substância do fenômeno é a mesma e no enredo é a dominação. A mulher deixar de ser dominada por um homem e ser dominada por outra mulher, ela continua sendo dominada, preterida, com sua liberdade ceifada e continua a ser objeto de opressão, tanto na esfera da sociedade como um todo como naquele núcleo. E é isso que quero dizer: mulher é muito mais! Mulher é gente! Que o amor seja a única coisa que nos una, não que nos prenda, afinal se nos prende não é amor! Screen-Shot-2013-12-18-at-5.46.07-PM.png


João Paulino

Estudante de Direito amante da filosofia, que encontra nos livros um meio desvelar as obviedades da vida..
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