estupidamente inofensiva

Para aqueles que não controlam seu lado inofensivo

Carol Teles

Fugindo da minha eterna previsibilidade em ser inofensiva.
Sentindo-me perigosa nesse momento.

A histórica fábrica de heróis hollywoodiana

Do western aos filmes espaciais. Como o cinema americano usou, e usa, de fatos históricos para criar os heróis em massa que se espalham pelo mundo inteiro, tornando-os cartão de visita de um país visionário.


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Vamos combinar, quando se trata de cinema é muito mais fácil alguém dizer que se lembra de algum filme lançado pelas empresas cinematográficas americanas, do que de qualquer outro lugar do mundo.

Sempre tive a impressão, e tenho certeza que não sou só eu, de que o cinema americano puxa a - vamos de chamar de sardinha - para a sua própria terra. O patriotismo deles beira ao exagero. Então se em um filme de guerra olharmos a perspectiva de soldados americanos, provavelmente terminaremos de assisti-lo beirando as lágrimas e crucificando o exército contrário, seja japonês ou alemão. Mesmo você sendo um japonês ou alemão. E não preciso odiar as ações de Hitler ou condenar o ataque a Pearl Harbor para afirmar isso.

O fato é que crianças do mundo inteiro querem se vestir como pequenos soldados americanos, camuflando sua identidade patriótica em prol de um personagem de filme protagonizado por um ator, que às vezes nem é americano. E então nasce a figura do herói capaz de qualquer sacrifício pelo bem maior, e de um séquito de fãs que o seguem simplesmente porque ele disse na tela grande que aquilo era o correto.

Mas a origem desse herói cinematográfico americano provém de alguns anos antes das duas grandes guerras eclodirem. Ele vem da época em que o leste dos EUA lutava ainda por conta dos resquícios da Guerra Civil, e o lado oeste era disputado por mocinhos ou bandidos em cima de cavalos imponentes, usando um par de botas barulhentas e um chapéu que jamais caia. Era uma corrida por oportunidade.

Cidades de apenas uma rua onde só funcionavam, na maioria das vezes, um grande bar, que também poderia ser um bordel; uma cadeia com um xerife usando uma estrela no peito e alguns outros pontos comerciais que servissem de subsistência a essa rua. Onde as pessoas moravam? Eu não faço a mínima ideia. Vai ver dentro dos próprios estabelecimentos. Mas era esse o cenário do que hoje chamamos de faroeste, ou na origem morfológica da palavra, “Far West” (extremo oeste).

O primeiro filme produzido de fato em Hollywood, usando esse fundo histórico e geográfico, foi o In Old California, em 1910. Na época o diretor D.W. Griffith viajou para a Califórnia para rodar o seu filme e usou uma pequena vila chamada de Hollywood como palco de fundo para ele. E não, na época Griffith não sabia que estava pisando no que futuramente seria a sede de uma das maiores indústrias cinematográfica do mundo. Importante dizer que Hollywood é um distrito da cidade de Los Angeles, mas a palavra é geralmente usada como uma metonímia do cinema americano. Tipo Bombril para representar esponja de aço.

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Logo de início a indústria do cinema percebeu que o público gostava de ver os mocinhos da tela usando armas no coldre, defendendo garotas indefesas e com corpos exuberantes e derrotando vilões prováveis e cruéis. Era a jornada do herói, só que tendo como pano de fundo uma época totalmente americana. E não que outros países não tiveram suas próprias cidades de ruas únicas, corridas do ouro, brigas com índios ou caras correndo atrás de trens; mas eles não tiveram a sagacidade de perceber que isso vendia na tela. E olhe que os primeiros filmes não tinham áudio, apenas imagens e aquela velha música de orquestra empolgante no fundo.

O cinema Western, como se chamam os filmes de faroeste, tinha inicialmente um público mais forte entre crianças e adolescentes. Eram comuns nas matinês da época e rendiam financeiramente o suficiente para serem produzidos cerca de cem filmes anualmente. Além disso, tinham as vendas dos artigos de Cowboy, como botas, chapéus e fantasias com franjas. Os garotos tinham aquilo como perspectiva de heroísmo. Aqueles ali na tela, em cima de cavalos lustrosos, eram seus heróis. Já as meninas se colocavam no papel das mocinhas, esperando seu grande Cowboy derrotar o mal do mundo e resgatá-las das garras cruéis de um vilão qualquer.

Quando as crianças de outros países, fascinadas pelo poder dos heróis do cinema Western, começaram a ter as fantasias e sonhos dos garotos americanos, aquilo passou a funcionar como um cartão de visita do heroísmo deles pelo mundo inteiro. Não importava muito para as crianças espanholas se Cortez tinha sido um grande conquistador espanhol – deixando as chacinas à parte, claro – os meninos espanhóis, engatados no cinema americano, queriam ser heróis americanos. E lembram quando falei do tal patriotismo de crianças não americanas indo para o ralo em relação a seu próprio país? Pois é. O cartão de visita do cinema western tinha doce em suas cenas heroicas e impossíveis. Doces que nem Willy Wonka seria capaz de fabricar, mesmo com todos os Oompa-Loompas do mundo.

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E depois de anos sendo referência para o mundo inteiro como fabricadores de heróis Cowboy, o cinema americano, com a incrível arte de prever além, achou na Guerra Fria e na corrida espacial um modo de mudar o foco. Quase ninguém lembra que a primeira pessoa a ir ao espaço foi um russo, e darei um segundo de silêncio por Gagarin. (Feito). Mas todos sabem quem pisou na lua pela primeira vez – ou o que nos contaram sobre isso. E de onde Armstrong era mesmo? Cantando o hino nacional deles nesse momento.

Foi nessa época que a coisa mudou de figura e ficou uma loucura. Nada de botas de Cowboy e chapéus de couro. O lance era artefatos de alumínio, porque de alguma forma as pessoas associavam aquilo ao espaço. Pobre de Woody! Depois que Buzz Ligthyear apareceu no pedaço o marrom foi ultrapassado pelo azul estelar. E do mesmo modo, o Western foi ultrapassado pelos filmes espaciais, que foram originados em... A previsibilidade é uma coisa entediante.

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O que quero dizer é que o cinema americano sempre parece estar um passo a frente de todo o resto, nos dando seus próprios heróis para qualquer coisa de novo que aconteça na história. Não podemos negar sua importância, e o fato de que eles são bons no que fazem. Cinema por lá é coisa séria, e normalmente está ligado a tudo ao redor que podemos ver, e tudo aquilo o que eles veem antes de nós.

Sinto falta dos heróis de bota e cabelos sujos de poeira. E acredito que futuramente sentirei falta de astronautas vestidos como marshmallows gigantes. A indústria anda, o cartão de visita muda, mas criamos novos heróis para aplacarmos nossa eterna vontade de mudar o mundo.

(imagens: Google)


Carol Teles

Fugindo da minha eterna previsibilidade em ser inofensiva. Sentindo-me perigosa nesse momento. .
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