estupidamente inofensiva

Para aqueles que não controlam seu lado inofensivo

Carol Teles

Fugindo da minha eterna previsibilidade em ser inofensiva.
Sentindo-me perigosa nesse momento.

O preocupante caminho da falta de ideias entre os jovens Wiki

Nessa nova era da facilidade, o jovem tende a usar a internet de forma indevida e frenética. Acaba, assim, sendo reprodutor automático das ideias alheias, colocando-se num ciclo vicioso que não o leva a lugar algum.


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Duas semanas atrás eu estava passeando pelo Youtube, um hábito muito comum meu. Talvez por ser blogueira literária e uma rata de biblioteca, a maioria dos canais que visito são sobre livros. Os que acompanho com frequência já são adicionado na aba de favoritos, e os outros eu acabo encontrando por acaso. Foi em um desses acasos que cheguei até um determinado canal que me deixou com uma sensação de impotência terrível, e vou lhes explicar o motivo.

O rapaz que fazia o vídeo tinha o intuito de contar o que acontecia em livros de forma completa, inclusive com o final. A proposta dele era fazer um levantamento dos principais acontecimentos na história e, assim, ajudar aqueles que iam prestar vestibular, ou só eram curiosos sobre um determinado título. O que me chocou é que ele se referia as pessoas que não leem livros como incapazes, e por vezes até burros, com todas as letras dessa palavra. E quando vi a quantidade de visualizações e curtidas que o vídeo teve, me peguei pensando em como o brasileiro tende a se menosprezar, porque para mim é muita falta de amor próprio alguém achar que não é capaz de algo tão simples, como ler um livro. Então tive outro lapso de pensamento e deduzi que na verdade nós gostamos da praticidade.

Todo mundo sabe o quanto de Wikipédia existe nos trabalhos escolares nessa era da internet. Quando eu estudava, não tinha esse negócio de computador em todas as casas, e meus trabalhos eram à base de muita consulta em enciclopédias, o que talvez tenha contribuído para meu gosto pela pesquisa. Claro que não menosprezo o valor da internet e da sua facilidade, pelo contrário. Acho uma ferramenta de utilidade básica a qualquer pessoa hoje em dia. O problema é que o usuário da rede não sabe utiliza-la, ou não quer saber, e usa de artifícios como o Ctrl C e Ctrl V para fazer o que eles chamam de “trabalho”, e o real significado da palavra se perde nessa repetição de informação que não gera nenhum resultado novo.

Esse círculo vicioso é um tema recorrente entre a categoria de docentes. Os alunos deixaram de ser o ideal de Paulo Freire para se tornarem copiadores incansáveis das ideias dos outros. Pouco se vê deles mesmos nos trabalhos que se propõem em fazer, e isso é um perigo na nossa realidade, onde não pensar significa ajudar o país a afundar cada vez mais na merda.

A visão daquele clipe do Pink Floyd, onde as crianças caem em máquinas de moer carne, fica martelando na minha cabeça. Nessa música em questão o que os artistas levantam é a ideia de que as crianças não precisam de um controle mental, ou de educação. Que os pais e professores os deixem em paz. Era a rebeldia do rock usando a antiga rigidez educacional para se comunicar com os mais novos.

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Sabemos que antigamente era comum a quantidade excessiva de regras em sala de aula, causando certo desconforto e acuamento nas crianças, e acredito que foi pensando nisso que o clipe se baseou. Hoje eu acho que se o Pink Floyd conhecesse a nossa educação nacional teria uma opinião contrária, pois se antes tínhamos educação demais, agora temos de menos.

Não culpo professores, governo ou alunos como unidades separadas. A educação é um conjunto de fatores que precisam ser rígidos na medida do aceitável, e que pede uma união de todas as partes. O aluno tem que gostar de estar na escola? Sim, claro, mas ele precisa saber que aquilo não é brincadeira, é responsabilidade. Contudo a partir do momento em que enxergam esse status meio ditatorial da educação, a revolta jovem faz com se sintam rebeldes e, portanto, resolvam não participar, ou simplesmente fazer mais do mesmo. Como se eles aprendendo fosse benefício para qualquer pessoa, menos para os próprios.

A maioria das escolas hoje não exige muito desses alunos em termos comportamentais. Eles preparam para o vestibular com cálculos, história, gramática... Uma quantidade excessiva de coisas pré-programadas que precisam ser passadas de forma automática e rápida. E daí quando o aluno chega à universidade descobre que pode estar lutando por algo que às vezes nem entende. Que a formação que teve à base de site tipo o Wikipédia é rasa e não constrói o conteúdo moral e mental que se precisa para viver na vida real, fora da redoma confortável na qual se enfiou seguindo o programa automático escolar, e que permite que trabalhos com copiar e colar os façam passar de ano. Portanto dos alunos que chegam a uma faculdade, metade ainda não tem formação psicológica para aquilo porque lá o negócio não funciona como funcionava até o ensino médio. Não dá para usar apenas o Ctrl C e Ctrl V aqui. É preciso pensar.

Então quando eu vi esse vídeo no Youtube, onde o cara estava transmitindo uma informação para os “burros” que não conseguiam ler os livros, fiquei pasma por um tempo, e logo depois veio a sensação de conformismo, porque se ele faz um vídeo desses é porque recebe retorno sobre isso, e dos bons, ou ele não faria. É mais fácil ir à internet e perder quinze minutos da sua vida descobrindo o que acontece em uma determinada obra, do que perder algumas semanas lendo um livro.

Eu acredito que na verdade essas pessoas que tornam tais canais populares não entendem a real utilidade de um livro. A obrigação os cega quanto a capacidade que o objeto tem de ajudar na formação de um caráter. De ajuda-los a viver naquele mundo real e novo do qual falamos. Como diz Ciro Bezerra no livro Conhecimento, riqueza e política, “Conhecimento é poder”, e a grande maioria desconhece tal fato.

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Não estou desmerecendo o que se lê nos Wikipédias da vida, contanto que você use aquilo como base para um aprofundamento maior de um tema. O Wikipédia não é o único site de dados para pesquisa, além de que ele é composto pelas informações de várias pessoas juntas, e isso pode ser um tanto perigoso. Usar uma única fonte de pesquisa para qualquer coisa que seja, mostra o quão raso vai ser o seu conhecimento sobre aquilo, e o quão fraco você se torna por usar essa informação.

O que diriam Tolkien, Tchekhov ou Dickens, que demoraram anos desenvolvendo uma obra, se soubessem que seus livros são transformados em vídeos de quinze minutos para pessoas “burras”?

Eu gosto daqueles vídeos na internet onde a pessoa fala do que se trata uma obra e o que achou dela. Penso que nesse caso abre-se um espaço para debate que é interessante para os alunos, e isso prova que o Youtube também pode ser uma ótima ferramenta educacional. Mas contar uma história inteira e justificar que isso é porque as outras pessoas não tem capacidade de ler, é a coisa mais absurda que já vi na vida.

Alguns alunos já chegaram a me dizer que um determinado livro estava sendo difícil de ler, e que eles estavam pensando em desistir. Às vezes penso que esses jovens encaram os livros como monstros instransponíveis, quando poderiam encarar como uma batalha épica contra o que ainda não foi conquistado.

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Tudo o que é novo assusta e pode ser difícil, mas se existe é porque dá para ser feito. Você não é burro porque não conseguiu entender O Jogo da Amarelinha ou Ulysses numa primeira leitura, você é inteligente porque está tentando fazer isso. Digo que quando terminar uma obra dessas vai ter acumulado um caderno de divagações mil sobre muitos assuntos, e isso muda a vida de uma pessoa. A sensação vai ser do tipo “Posso conquistar o mundo”.

Acredite, cada desafio desses que você conseguir cumprir vai te dar vontade de fazer mais, e sempre extrapolar seus limites. Aposto todos os livros que tenho que esse acúmulo de conhecimento vai lhe render uma segurança forte sobre o que pode ser feito em qualquer aspecto da sua vida.

Então, se você é um daqueles que usam Ctrl C e Ctrl V para facilitar as coisas, e que prefere ser um pedaço de carne numa máquina de moer, tenha cuidado com o que vai te acontecer lá na frente, porque o mundo pode querer fazer um Ctrl C e Ctrl V com você também. Não ache que ter algo de bandeja te torna poderoso, porque não torna. E não estou te dizendo para parar de usar a internet, ou de ver vídeos, ou de usar o Wikipédia. Estou falando para aproveitar a internet a seu favor, assistir vídeos como um estudo, e usar o Wikipédia como uma das referências, não a única. Se desafie sempre a mais porque as coisas estão ai para serem vencidas por você. Não seja um aluno exclusivamente Wiki já que desses o mundo está cheio, e não acredito que você pensa que nasceu para ser mais um deles.

É lógico que não podemos – e nem devemos – deixar de usar a internet. Ela veio para ajudar, mas não para nos transformar em máquinas repetitivas. Vale lembrar que nunca se deve deixar de lado o cuidado com o que ela pode fazer com você. O certo é usá-la, e não deixá-la te usar. Isso aqui não é um livro do Asimov, e o Will Smith não vai aparecer para detonar a máquina mãe, como em Eu, Robô. Então arregace as mangas e trabalhe em quem você quer ser, sempre lembrando que o conhecimento é o que lhe garante poder.


Carol Teles

Fugindo da minha eterna previsibilidade em ser inofensiva. Sentindo-me perigosa nesse momento. .
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