et in arcadia

Uma tentativa de apresentar a arte como afirmação da vida

Piero de Sá

Formado como internacionalista e trabalhando com apicultura, gosto de escrever sobre artes, video-games, filosofia moral e outras coisas que não entendo direito lol

Socialismo, ditaduras e outros contos de fada no Labirinto do Fauno

Todos achamos que as crianças buscam os contos de fada para fugir de uma realidade assustadora. O que o filme O Labirinto do Fauno, de Guillermo del Toro, nos mostra, no entanto, é que, igualmente, os adultos têm seus próprios contos de fada. Mas, será que, no fundo, vale a pena acreditar neles?


Fauno y Ofelia.jpg O Fauno. Produto da imaginação de Ofélia?

Contos de fada não foram feitos para crianças. Não só para crianças, pelo menos. De fato, quando os irmãos alemães Jacob e Wilhelm Grimm publicaram os Contozinhos para Crianças e para o Lar – aqui conhecidos como “Contos de Grimm” – em 1812, eles foram recebidos com uma enxurrada de críticas pelo conteúdo perturbador devido a episódios de violência, relações sexuais, canibalismo e infanticídio dos contos. Ao longo das décadas, os irmãos Grimm realizaram uma série de intervenções nos contos para retirar esses episódios violentos, e, somente após dez edições diferentes e a remoção de dezenas de contos, eles chegaram, em 1858, à versão definitiva que hoje conhecemos.

Guillermo del Toro, o diretor de cinema mexicano, decidiu seguir a tendência contrária, por outro lado, ao criar O Labirinto do Fauno: um filme que deveria ser como um conto de fadas, mas que é irreversivelmente arrasado por cenas de mortes, violência, desesperança e futilidade.

O filme se passa em 1944, cinco anos após a vitória franquista da Guerra Civil Espanhola, e narra a história de Ofélia, uma menina de 9 anos cuja mãe, após a morte do primeiro marido na guerra, casa-se com o falangista Capitão Vidal, levando a família inteira a morar num vilarejo entre as montanhas de alguma região espanhola. Lá, o Capitão espera conseguir honrar a memória de seu pai, um militar de renome, acabando com a resistência republicana na região e, talvez, morrendo em combate.

A vida nesse vilarejo é um pesadelo para a pequena Ofélia, no entanto. Ela odeia o padrasto, e o Capitão, por sua parte, só se interesse em exterminar os guerrilheiros da região e em que o filho de sua mulher grávida nasça logo. De fato, ele é morbidamente cruel e aterrador com todos à sua volta chegando, num episódio, a matar um jovem camponês com garrafadas na cara pela suspeita infundada de que ele fosse um guerrilheiro. O único refúgio da menina são os livros de contos de fada que ela possui e que, para o desgosto de seus pais, ela insiste em ler.

Uma certa noite, Ofélia está em sua cama quando uma fada a visita e a leva para um labirinto num canto da propriedade. Lá, ela encontra um fauno mágico que afirma que, na verdade, Ofélia é a Princesa Moanna, a monarca do Mundo Subterrâneo, e que ela se tornará imortal e governará num palácio se ela completar três simples tarefas. Essas tarefas devem ser completadas nas três noites seguintes, antes que a lua fique cheia, ou ela perderá para sempre tal oportunidade.

A partir desse momento, Ofélia passa a sair escondida de seu quarto completar as missões do Fauno, sendo a primeira delas, matar um sapo que, pelo seu desejo de comer insetos, está envenenando uma árvore, uma provável alusão ao papel do Exército numa ditadura militar. Paralelamente, os habitantes da casa, como a empregada Mercedes, cujo irmão é guerrilheiro, e o médico Dr. Ferreiro, simpatizantes dos republicanos, também saem escondidos da casa para completar missões de auxílio à resistência anti-franquista, como levar cartas, chaves, alimentos e medicamentos à milícia escondida nas montanhas.

As missões, tanto as de Ofélia quanto as do simpatizantes, começam a dar errado, no entanto e as coisas vão de mal a pior. Na sua segunda missão, a menina deve conseguir um chave sem ser descoberta por um monstro. Devido a um deslize, porém, ela acaba sendo descoberta e suas fadas ajudantes morrem. Ao mesmo tempo, deslizes de Mercedes e do médico da casa entregam o fato de que eles estavam fornecendo suprimentos e ajuda à resistência. Pelo seus erros, a criança escuta do Fauno que ela perdeu para sempre a oportunidade de se tornar a princesa, o Dr. Ferreiro é morto a tiros pelo Capitão e Mercedes é presa num celeiro, para ser torturada. Enquanto isso, a mãe de Ofélia jaz morta, após ter dado à luz um menino.

O Capitão julga que Mercedes não seria nenhuma potencial ameaça e decide torturá-la sozinha. A jovem trazia, no entanto, uma faca de cozinha escondida em seu avental e, após dilacerar o rosto do militar, ela foge para as montanhas, em busca de seu irmão. Ela jura voltar para salvar Ofélia de seu padrasto, numa missão final com a resistência.

O militar descobre que Ofélia estava ciente das atividades clandestinas de Mercedes e tranca a menina em seu quarto, sem que ela possa fazer nada para sair de lá. Para sua surpresa, então, o Fauno a visita e decide que a dará mais uma chance, com a condição de que ela o obedeça sem questionar absolutamente nada. Diante de sua afirmativa, a criatura mágica dá-lhe um giz mágico que lhe permite criar uma porta pela qual fugir e diz-lhe que ela deve pegar o filho recém nascido do capitão e levá-lo ao labirinto onde eles se conheceram. A menina, então, droga o Capitão e foge para o labirinto. Sem embargo, apesar de estar dopado, o militar consegue segui-la.

Enquanto Ofélia foge, Mercedes retorna com a milícia e eles começam um ataque furioso na casa, queimando e destruindo tudo e matando todos os soldados franquistas. A menina consegue levar o bebê ao Fauno no meio do labirinto, mas ela descobre que, para viver eternamente e tornar-se a princesa do Mundo Subterrâneo, ela terá que sangrar o recém-nascido com um punhal, pois só o sangue de um inocente pode realizar a magia. O Fauno a alerta que ela perderá tudo se ela se recusar, mas ela não o obedece. Ao virar-se de costas, ela vê o Capitão, que, após tomar em seus braço o bebê, mata Ofélia com um tiro na barriga.

Ao sair do labirinto, ele encontra Mercedes, seu irmão, e um bando de guerrilheiros republicanos armados. Ele entrega seu filho à Mercedes e pede que lhe contem, quando ele crescer, que ele morreu um soldado, assim como seu pai. Ele simplesmente ouve que a criança sequer saberá seu nome e morre com um tiro na cabeça. Mercedes corre para dentro do labirinto para buscar Ofélia, mas ela já está morta e seu sangue cai dentro de um poço iluminado pela lua cheia.

Mercedes junta-se ao seu corpo e começa a cantar. Ao som da música, descobre-se que o Fauno estava testando Ofélia e que ela passou pelo teste, pois, quando recusou sangrar o bebê com um punhal, ela preferiu derramar o próprio sangue a derramar o de um inocente. Como recompensa, ela se tornou a Princesa Moanna e, ao lado de sua mãe e de seu pai, ela reina por séculos e séculos no Mundo Subterrâneo.

Após assistir o filme, fiquei tentando descobrir se as visões de Ofélia eram reais ou não. Ela é a única pessoa que vê o Fauno e as fadas e todos os adultos do filme lhe dizem que contos de fadas não são reais e que ela precisa entender que o mundo não tem magia. Após passar um tempo medindo se o Reino Subterrâneo era real ou não, entendi que isso era irrelevante, pois não era disso que o filme tratava.O filme estava falando de contos de fadas dos adultos.

De fato, não por acaso, o filme se passa cinco anos após o fim da Guerra Civil Espanhola e a vitória republicana. Como o filme foi lançado em 2005, o espectador sabe bem que a resistência foi completamente exterminada e que Franco ficou 35 anos no poder, até sua morte. Não havia qualquer esperança que um bando de idealistas armados, escondidos em bosques nas montanhas, pudessem mudar qualquer coisa. De fato, vários personagens, sobretudo os milicianos, afirmam que a resistência é inútil, pois, mesmo que eles matem o Capitão, logo alguém o substituirá e as coisas permaneceriam como antes.A esperança deles de que eles possam mudar algo é tão infundada como a crença de Ofélia que ela poderia usar magia para se libertar de sua situação. Nesse sentido, os dois estavam vivendo contos de fadas.

Nesse contexto, o ideal socialista da milícia é só um devaneio, uma utopia irrealizável, um falanstério que alguém idealizou mas que jamais teve vida fora da tinta e folha de livros. E, de fato, o espectador do novo século, ao ver esse filme, sabe que todas as revoluções socialistas falharam, seja por serem militarmente derrotadas antes de subirem ao poder, ou porque subiram ao poder, mas devido à sua execução autoritária e sua ineficiência econômica, desabaram sob seu próprio peso, da União Soviética e Angola à Coreia do Norte e Iugoslávia. Tudo isso foi uma quimera que consumiu-se dentro de si mesma.

Todo conto de fadas tem um vilão, no entanto. Fiquei pensando, ainda dentro da mesma metáfora, qual seria o antagonista dos iludidos socialistas. Bem, nesse caso, os vilões são os mantenedores do status quo, ou seja, os tradicionalistas, monarquistas, eclesiásticos, defensores do livre-mercado e os militaristas. Nesse ponto me lembrei do que o Dr. Ferreiro, no filme, disse antes de morrer: “Obedecer por obedecer… assim, sem pensar… isso só o fazem pessoas como você, Capitão.” Em suma, talvez acreditar que as coisas são como são hoje, simplesmente porque elas estão desta maneira, possa ser algo ruim.

Sem concluir nada em absoluto com esse filme confuso, pensei que talvez Guillermo del Toro não seja um bom autor de contos de fadas. A violência da maior parte dos contos de fadas nos ensina que obedecer é algo bom e que as as crianças desobedientes são punidas e perdem a inocência. O diretor mexicano usa a violência dos contos de fadas para nos dizer o contrário, que obedecer é algo ruim e que a recusa preserva a inocência. Ele precisa de uma boas palmadas de um pouco mais de Contos de Grimm.

TL;DR: “Por meio de nossa própria inocência recuperada, nós descobrimos a inocência de nossos vizinhos”. Henry David Thoreau.


Piero de Sá

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