et in arcadia

Uma tentativa de apresentar a arte como afirmação da vida

Piero de Sá

Formado como internacionalista e trabalhando com apicultura, gosto de escrever sobre artes, video-games, filosofia moral e outras coisas que não entendo direito lol

Gordo e irrelevante

Depois de assistir um episódio de South Park sobre a espionagem que o governo americano pratica com seus próprios cidadãos e que discute os riscos à segurança nacional americana, qual foi a conclusão mais chocante à qual eu pude chegar? Que, apesar de todas as nossas ambições, nós, indivíduos comuns, somos todos gordos e irrelevantes...


beautiful-snowflake-wallpaper-15536-16213-hd-wallpapers.jpg Cada floco de neve que cai no chão é único, irrepetível e maravilhoso.

Cada pessoa possui suas próprias ambições. Algumas querem ter um carro esportivo, enquanto que outras sonham com um corpo musculoso e atraente, um doutorado aplaudido pela academia ou blogue com um milhão de visitas. Algumas querem levar uma vida de virtude, ao passo que outras desejam conhecer todos os vícios. Outras ainda, ao contrário, tem a única ambição de não ter mais ambições e viver uma vida transcendental. Inevitavelmente, porém, todos nós acabamos nos tornando gordos e irrelevantes.

Pelo menos, é isso que o episódio “Let Go, Let Gov” do seriado South Park sugere. O episódio cobre vários temas, mas o central nele é a espionagem que o governo americano pratica, observando e-mails, telefonemas e atividades online de pessoas que potencialmente podem apresentar ameaças à segurança nacional. Eric Cartman, um garoto de nove anos de idade e um dos personagens principais da série, decide investigar o governo americano e provar a todo o mundo que a privacidade, a liberdade individual e os direitos dos cidadãos americanos estão sendo violados em nome de uma falsa promessa de segurança.

Cartman, então, descobre que literalmente todos os americanos são investigados em todas as suas atividades cotidianas e, em função delas, são divididos em categorias que expressam seu risco à segurança nacional. Curioso com a ficha que o governo teria montado sobre si, Cartman pergunta e descobre que sua ficha foi arquivada devido ao fato que ele foi considerado “gordo e irrelevante.” O moleque fica inconsolável e pergunta para terem certeza de que não deveriam escrever “bombado e da hora”, mas… é só isso mesmo: “gordo e irrelevante”. Todas as questões com as quais ele supostamente se preocupava antes, como privacidade e liberdade, são deixadas para trás e, agora, Cartman só quer provar que é alguém importante.

O uso da palavra “gordo” aqui tem mais que um só significado. Sim, Cartman é um gordalhaço, mas -sobretudo num mundo cheio de blogueiros e instagrameiros (qual é o termo para eles?) fitness que se tornam celebridades- “gordo” encerra em si o sentido ampliado de uma pessoa que fracassou em se adaptar aos padrões com os quais se sonha. Ser “gordo”, nesse sentido, não significa ter um IMC acima de 25, mas, também, ser muito magro, baixo ou alto demais, feio, entediante, chato, sem amigos, sem dinheiro, dependente de transporte público, pagador de aluguel, labutante aleatório de um emprego sem importância, ser escritor sei leitores com seus textos presos no limbo, e por aí vai. Ser gordo, portanto, é se olhar no espelho e ver que não somos tudo aquilo que, um dia, acreditamos ou prometemos que seríamos.

Ao mesmo tempo, a palavra “irrelevate” (a tradução literal da palava que Cartman usa seria “desimportante”, mas isso soa estranho) tem um sentido muito particular no enredo do episódio. O gordalhaço quer expor e derrubar o serviço de inteligência do governo americano: não só isso é uma expectativa irrealista, como também, dum ponto de vista pragmático, não serve nenhum propósito além de expor o país ulteriormente ao ataque de diversos grupos domésticos e internacionais. Os esforços dele, portanto, são irrelevantes.

Na mesma medida, os esforços que tomamos para deixarmos de sermos “irrelevantes”, em boa medida são desprezíveis. Podemos montar uma comunidade de facebook que luta contra contra a gordofobia, mas isso dificilmente vai mudar a os mercados multibilionários de dietas e alimentos para emagrecer. Podemos entrar num “instituto” liberal e gravar vídeos improvisados no qual tentamos tecer alguma teoria política e macroeconômica, mas isso certamente não vai mudar a direção econômica do país e, sem qualquer outros custos políticos, transformar a madre pátria numa nação de primeiro mundo. Podemos montar um blog marxista e sermos homenageados com dedicatórias em mísseis disparados em ucranianos, somente para descobrir que nosso herói, na verdade, é um racista, neo-odinista e neo-nazista, e não conseguimos mudar nada (não para melhor, pelo menos) no mundo.

Em, suma, acredito que essa tenha sido a cena mais importante do episódio. Crescemos acreditando que somos flocos de neves lindos, únicos, especiais e irrepetíveis, mas a própria noção de se defender essa ideia é o testemunho de sua impossibilidade. Ouvimos que merecemos a felicidade, que merecemos um carro grandão, um chocolate ou uma cerveja. Nós até escrevemos uma série de direitos que merecemos num documento. Sobre o fato de que o universo é risivelmente indiferente às coisas que supomos merecer e que a importância dos indivíduos está sendo medida numa dinâmica de livre mercado, pouco se diz… e esse próprio silêncio já diz muito. E o que temos de volta para dizer?

O poeta americano Dan Chelotti, (bolado e da hora) no seu livro “X”, não me ajudou a encontrar nenhuma resposta, mas, pelo menos me ajudou a evitar a pergunta:

O Homem em Mim (The Man in Me)

Eu tenho um pequeno Pavarotti dentro de mim.

Percebi-o enquanto estava escovando

Meus dentes nesta noite.

Percebi como eu afastava

Os verdadeiros desejos do meu coração

Para frustrá-lo.

Isso foi perturbador.

Qual é o problema

Com o mundo? Eu pergunto,

E sei que a questão

Em si é falsa. O pequeno Pavarotti,

Fumando cigarros de aniz na minha alma,

Gesticula e diz: “Não se preocupe, guri.

Ninguém se importa um caralho com isso

De qualquer jeito.” E como

Por um momento não há

Nada mais verdadeiro à disposição,

Eu não gosto de ler

Sobre basebol na internet.

Talvez seja melhor não se importar com nada disso mesmo. Afinal de contas, nós tornarmos flocos de neves únicos e especias não significa, unicamente, que nós seremos arrastados com os outros milhões de flocos de neves numa tempestade, somente para derreter pouco tempo depois? Mas, então, quem será o primeiro?

TL;DR: “All in all is all we are. All in all is all we are. All in all is all we are. All in all is all we are. All in all is all we are.


Piero de Sá

Formado como internacionalista e trabalhando com apicultura, gosto de escrever sobre artes, video-games, filosofia moral e outras coisas que não entendo direito lol.
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