eulírico

Concepções do mundo

Naílle Conceição

Girls,aquelas meninas

A série criada,escrita,dirigida,produzida e estrelada por Lena Dunham estreou na HBO em 2012 com várias expectativas e nenhuma promessa.Achavam que seria a nova Sex and The City.Não foi.Achavam que seria porta-voz da geração Millennium.Em partes,não. Achavam que seria a série de uma geração. Não .Foi uma série de uma geração.


as4.jpg CONTÉM SPOILERS

A série criada,escrita,dirigida,produzida e estrelada por Lena Dunham estreou na HBO em 2012 com várias expectativas e nenhuma promessa.Achavam que seria a nova Sex and The City.Não foi.Achavam que seria porta-voz da geração Millennium.Em partes,não. Achavam que seria a série de uma geração. Não .Foi uma série de uma geração.

De meninas que se espelhavam em personagens de séries que haviam assistido,que imaginavam e planejavam o futuro perfeito na cidade grande vivendo em um apartamento com sofá de veludo molhado,vinil e de companhia uma gata,siamêsa, é claro.Que o(a) boy/girl dos sonhos secretos à meia-noite tomaria forma no corpo de uma hipster moderninha e descolada,ou um intelectual de Oxford nos dois sentidos,alguém com gosto musical incrível e super compatível com o seu.Expectativas...

Realidade. Foi isso que a série mostrou ao longo de suas seis temporadas.Ao menos em parte, pois 65% do drama poderia ser evitado se as meninas fossem menos mimadas e teimosas e mais realistas,mas,white girl problems de lado,às vezes as coisas não saem como planejado mesmo com você dando mais do que é capaz,e chorar num cubículo inconformada com a situação acaba por ser a única saída.

"Não é vida adulta se seus pais pagam seu BlackBerry",eles dizem. "Sua geração se acha muito especial",eles também dizem,com notas de sarcasmo cruel na voz. "A geração que desiste de tudo no primeiro obstáculo ",eles também dizem.Eles não estão errados.E isso é culpa deles.

Eles mudaram o mundo(pra pior) e colocaram milhares de expectativas em nós ao mesmo tempo que criavam novo rótulos para nos moldar,em parte cerrando nosso espírito. Nós apenas nos encaixamos ao mesmo tempo que conversávamos com nosso espírito. Não foi simples ou difícil. Foi apenas o que aconteceu.

E as meninas não souberam lidar com isso.Principalmente Marnie,no começo a mais madura das três, por que o processo de amadurecimento de Shosh se deu ao longo da série e culminou no nono episódio da sexta temporada,o último da série (eu considero o décimo um epílogo) .Marnie tinha o emprego dos sonhos,o namorado perfeito e sua vida estava nos rumos até que tudo começou a desmoronar e ela se perdeu. A personagem foi muito criticada e muito odiada por ser um espelho,refletindo muitas de nossas fraquezas.Quem não surta quando vê o controle de sua vida escapar da sua mão e toma uma medida desesperada?Consequências pra depois. É claro que Marnie também era muito egoísta e narcisista ,o que dificultava as coisas mas era impossível não sentir empatia por ela.Mesmo demorando,ela foi buscando dentro de si mesma a redenção, e vai encontrar,mesmo que não seja mostrado,pois o caminho é longo e árduo, mas é imprescindível trilhar.

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Falando em caminhos tortos, vamos falar de Jessa.A personagem cabe na descrição de outra personagem maravilhosa do livro de Sarah Addison Allen "A garota que caçava a Lua".Jessa é como um bolo confeitado.Linda por fora mas uma incógnita por dentro. Muitas vezes foi um bolo amargado pela vida e aqueles que a rodeavam,outras vezes podre por si só, mas também dotado de uma graça equivalente à doçura que só ela tinha, seja em seu estilo próprio invejável ou em suas tiradas perfeitas. Quando Jessa começou a se relacionar com Adam,confesso que fiquei com um pouco de ranço(dele e dela) mas depois entendi que eles se completavam e que era cabível que ficassem juntos.

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Mas não é esse o futuro que espero para Jessa. Brigar e quebrar o apartamento, desistir da faculdade e no primeiro sinal de abandono alheio se autodestruir não é nada interessante. Espero que depois daquela longa olhada no espelho ela se encontre e descubra que é mais que uma fucking bitch.É alguém com muito potencial para vários tipos de futuro.

A única girl com futuro definido e cumprido como planejou,com poucos percalços foi Shoshanna,cuja participação na última temporada foi esquecida num churrasco.Mesmo vendo pouco da personagem, acompanhamos seu crescimento,em parte vindo do relacionamento com Ray (que teve uma trajetória maravilhosa,cresceu bastante ao longo da série e terminou super bem,um beijo Ray!) e depois quando continuou sozinha.Seus dois episódios no Japão foram cruciais para entender sua personalidade em transição e ver como é doloroso encontrar algo no qual você se encaixa perfeitamente e por algum motivo externo perder tudo e ter de começar de novo quando você está totalmente quebrado e sem luz.

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Também vimos como tentar continuar sem recursos é um desserviço à si mesmo e aumenta a sensação de fracasso. Foi a partir dos fracassos que Shoshanna encontrou uma nova maneira de prosseguir e se reinventar, inclusive reavaliar sua vida e cortar o que não lhe acrescentava,inclusive a amizade com as meninas.Mesmo vendo pouco é notável como ela havia evoluído durante o tempo que ficou longe das outras Girls e como elas estavam cada vez pior por não parar um instante e repensar a vida.A amizade era sim tóxica e problemática, precisando de muito tempo, esforço e empatia entre elas para poder se aprimorar e sobreviver. Não é impossível que algum dia elas se reencontrem mas amizade não será mais a mesma.Isso é fato.

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Entre duas girls havia um boy.Adam mudou muito ao longo da série e dividiu a audiência.Um caso autêntico de amor e ódio. Em certos momentos,principalmente no começo Adam era bizarro, insensível e incômodo.Ao mesmo tempo era dotado de um charme encantador e magnetismo incrível, que eu acredito serem emprestados do outro Adam,Driver.Conforme as temporadas foram avançando percebemos em Adam um homem cheio de camadas,com uma visão interessante sobre a vida e bastante zelo por aqueles que o rodeavam, como Hannah,sua sobrinha e sua irmã, etc.

Em algumas vezes ele assustou,se comportando como animal que precisava muito ser domesticado,em outras era o namorado perfeito.Entre esses dois extremos,sumia o fator humano. Quando ele foi encontrado,Adam pôde mostrar seu potencial sem reservas e o público conheceu um personagem bem construído e instigante.

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Deixei Hannah por último por motivos de:complexidade e paciência. Tem muita coisa pra falar dela,culpa do narcisismo da Lena Dunham.Hannah tinha o maior tempo em tela mas o menor desenvolvimento de todo o elenco,sendo doloroso assistir muitos episódios desnecessários centrados nela.Felizmente a sexta temporada trouxe episódios memoráveis como American Bitch e pudemos aprender algo com ela,além de um manual de como fazer escolhas erradas e estragar sua vida.Apesar de chato(na minha opinião) o plot da gravidez foi interessante se mostrando como a coisa mais madura que ela fez,mesmo com todas as consequências. Se tornar responsável naquele momento possui uma grande carga,pois era mais fácil simplesmente abortar e seguir o baile mas ela adaptou toda a sua vida pensando no seu filho e por (causa) ele se tornou uma mulher.

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Quem imaginaria,vendo o último capítulo que Hannah daria uma lição de moral em Marnie?Quando eu imaginaria que Hannah daria uma lição de moral em mim? Quando nossos sonhos são transformados em planos mal construídos o cheiro de fracasso exala em todos os nossos passos.Cabe a nós levantar e recomeçar, com cautela.Às vezes o que queremos não é o que precisamos e reclamar não dá em nada.Quando se perde o emprego não dá pra encher o carrinho de compras desnecessárias.Quando você se dispõe a cuidar de alguém não pode desanimar por que odeia acordar cedo.Quando você vai ao médico não pode querer personalizar seu diagnóstico, entre outras coisas isso é vida adulta.Isso é realidade.

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