eulírico

Concepções do mundo

Naílle Conceição

Irreversível - O tempo destrói tudo

"Tive um sonho.Era esquisito.Atravessei um túnel.Um túnel...Completamente vermelho...E depois disso,o túnel partiu-se em dois pedaços.Acho que é por causa da minha menstruação.Ela está atrasada."


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Irreversível(2002) foi um filme para o qual me preparei um ano para ver e um mês para escrever. Trata-se da história de vingança de dois amigos após a namorada de um deles ter sido estuprada e espancada e é contado de trás para frente, de um modo que as consequências dos atos tenham maior impacto ao chegarem aos olhos de quem assiste.

Texto com diversos spoilers.

A primeira cena, ou última já mostra a que veio: um crânio esmagado por um extintor de incêndio. É nojento, realista e pesado, pior ainda é lembra-lo e perceber que Vicent, brincadeira, Marcus (Vicent Cassel) e Pierre(Albert Dupontel) mataram o cara errado. O estuprador está lá, ao lado assistindo tudo e com um repulsivo sorriso leve no rosto. Enquanto isso Alexandra (Monica Belucci) está em coma por causa da violência sofrida. Gaspar Noé não nos poupa. São onze minutos intermináveis que dão ânsia de vômito em qualquer um que assiste.

A cena é crua, não há trilha sonora ou efeitos visuais para sofisticar a cena, nem enquadramentos modernos. A câmera segue Alex e depois para, desaparece. Há uma espécie de inserção e de repente você está ali, parado na frente dela presenciando tudo. E sem poder fazer nada. A cereja do bolo, crueldade do diretor é dada em determinado momento, ao tentar desviar os olhos da brutalidade presente na tela ver um homem se aproximar do trecho onde Alex é violentada. Ele para, percebe a situação, observa por alguns segundos e..Vai embora.

Enquanto estão em sua busca frenética, Pierre tenta chamar Marcus à razão diversas vezes, até perder seu próprio controle, sem sucesso. A brilhante atuação de Vicent Cassel nos deixa perceber através de movimentos frenéticos, respiração acelerada e um olhar desvairado que a culpa o consome e ele quer reparar seu erro a todo custo, afinal, Alex não iria mais cedo se não tivesse deixado ela irritada, se não fosse tão imaturo, se não a tivesse “roubado” de Pierre, se, se, se...

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Matar o estuprador não iria fazer o tempo retroceder. Enquanto ele estava correndo Paris como um louco, ela estava sozinha no hospital. E como Pierre disse, se ele cuidasse melhor da moça talvez aquilo não teria acontecido. A última cena do filme é um momento do casal depois de acordar, onde ela lhe conta um sonho estranho e ponderam sobre uma possível gravidez da moça, que seria bem aceita pelo casal, mas com boas doses de realidade ao ponderar a responsabilidade de ter um filho.

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E Alex realmente estava grávida. Saber disso depois de vê-la violentada abre um vazio sob os pés de qualquer pessoa que tenha o mínimo de empatia em seu íntimo. É totalmente plausível começar a imaginar como seria se ela não tivesse saído sozinha da festa, se não tivesse discutido com Marcus, se, se, se... Ela estava feliz e irradiava isso na doçura de sua voz e na beleza de seu sorriso, não só nos lábios, mas também nos olhos. E depois tudo isso acabou. O filme termina mostrando a primeira parte de seu sonho e começa com uma frase que define não só os eventos do longa, mas também muitas coisas na vida de todo mundo: o tempo destrói tudo.

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