eulírico

Concepções do mundo

Naílle Conceição

Por trás de Jackie


Preservar a memória dele.Preservar seu legado.Cuidar de seus filhos e lhes garantir um futuro.Garantir seu próprio futuro e acima de tudo continuar de pé.


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O TEXTO A SEGUIR APRESENTA ALGUNS SPOILERS

Jacqueline Bouvier Kennedy foi a 35ª primeira-dama dos Estados Unidos.Também foi ícone de moda e elegância, sendo lembrada até hoje. Sua vida não foi fácil, pois havia muita pressão e expectativa nas costas dela,boa parte vinha de si mesma. Seu casamento com Jack tinha de parecer perfeito,assim como seu comportamento em público e sua representação política. Para isso Jaqueline criou uma personagem,Jackie.

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Coube a Natalie Portman o desafio de interpretar Jaqueline interpretando Jackie. Ao mesmo tempo que lidava com a surpreendente morte de seu marido e via seu futuro incerto.Como cuidar de Caroline e John se ela não tinha capacidade de cuidar de si mesma?

Ela não poderia se dar ao luxo de ter essa dúvida. Depois de alguns momentos para tirar o excesso de sangue,Jackie teve que presenciar a posse de Lyndon Johnson e começar a planejar o funeral de seu marido. Já nas cenas iniciais Portman mostra seu talento em uma sequência rápida e tocante.O trabalho da atriz foi árduo para manter conteúdo e sentimento alinhados com maneirismos e gestos calculados. Quando a fita cortava para a entrevista que é mote principal da película deixamos de vê-la interpetar Jackie e nos mostrar Jacqueline.

Dá até para lembrar de Cisne Negro,trabalho que rendeu o primeiro Oscar da atriz.Muitos criticaram sua performance em Jackie por parecer plástica, mas Natalie não poderia entregar algo mais sincero.Ela era uma mulher de muitas camadas,e todas muito complexas.Uma era doce e solícita,a outra era rígida,fumante e pragmática.A mãe de dois orfãos era calma,compreensiva e frágil.O medo de que Kennedy fosse esquecido a dominou e se transformou em obsessão, fazendo- a agir de forma imprudente mas totalmente compreensível.

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A maioria das pessoas não conseguiria no lugar dela.E Portman conseguiu. Eu vi uma Jacqueline humana ao ouvir a música favorita de seu falecido enquanto se embebedava,fumava e se preparava para enterrar junto com Jack a sua vida perfeita de primeira-dama.A pompa e o glamour, festas,vestidos e artistas.Eu vi uma Jacqueline ressentida com Deus de forma tão dura a ponto de questioná-Lo e julgar suas decisões. Eu vi uma Jacqueline cansada e frustrada gritar e lutar por Jack até os últimos minutos.Não só por ele,mas por si mesma também, que talvez estivesse sendo esquecida e tragada no meio de segredos, inveja,opulência e poder que Camelot era. Eu me assustei ao ver e ouvir Natalie se transformar naquela mulher simpática e simples naquele tour pela Casa Grande,ou melhor,Casa do Povo.Eu vi Jacqueline usar Jackie para esconder seus sentimentos e protegê-la mesmo que isso significasse definhar.

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Realmente foi uma performance digna de Oscar, que infelizmente não veio,a Academia tem resistência em premiar uma pessoa em um período de tempo tão curto,mesmo que a performance seja marcante. O filme também não foi tão digno de Oscar. A entevista intercalada com flashbacks não funciona.Os cortes são crus e tiram o espectador da imersão do momento, e a troca de persona causa incômodo.Além de Natalie Portman não há nada para lembrar nesse filme.Talvez a trilha sonora,talvez o figurino ou as lembranças de Camelot.Talvez.

Para muitos o longa foi um Oscar-bait.Não estão errados.Para outros foi injustiçado.Também não estão errados.Para um derivado de uma série, ele se saiu muito bem,com alguns cortes necessários que foram bem feitos e ajustes que funcionaram. Mas o que todos devem admitir é que Natalie Portman deveria estar no dicionário como sinônimo de atriz,de artista.

E que Jackie cumpriu sua função em honrar a memória de seu falecido marido e permitir que Jacqueline pudesse seguir em frente e dar continuidade à sua vida e a de seus filhos,mesmo levando bastante tempo. Ela ainda chorou muitas vezes escondida, ela se escondeu do mundo para se acalentar com sua dor,aos poucos fez as pazes com Deus e pôde abrir seu coração para um novo amor. Jackie O. foi um ícone. Exemplo de força,história, beleza que não permitiu que o tempo apagasse a mais marcante história de amor da nova era,a primeira e única Camelot, seu marido e a si mesma,que foi muito mais que uma primeira-dama. Talvez a mais digna delas.

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