eulírico

Concepções do mundo

Naílle Conceição

JUSTIÇA PARA MARIANA FERRER

Escrevi esse texto depois de tomar conhecimento do caso da Mariana e fiquei inconformada com a falta de visibilidade, a insensibilidade por parte das embaixadoras do clube e dos sócios, além da morosidade da justiça. Mariana foi muito corajosa em compartilhar sua história e com ela poderá salvar muitas meninas. Eu só quis ajudar.


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Texto escrito por mim e originalmente publicado no blog Escreva, Lola, escreva em 30 de janeiro de 2020.

15 de dezembro de 2018, uma festa em um Beach Club badalado em Jurerê Internacional (Florianópolis), cheio de gente bonita, música, comida e bebida. Parece o início de uma matéria de revista sobre o deslumbrante estilo de vida de ricos e famosos, onde a maior preocupação é manter o espumante gelado. Na superfície, pode parecer que sim, mas o que a fachada glamorosa esconde nada mais é que abominável e criminoso. Mariana Ferrer, uma moça de então apenas 21 anos, havia sido contratada para a função de embaixadora do local, pois trabalhava como digital influencer. Parecia ser um dia como qualquer outro na sua agenda promissora, e ela foi trabalhar.

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Mariana foi vitima de um crime brutal e premeditado. A jovem foi violentada em um espaço reservado do clube, cujo interior era desprovido de câmeras de segurança e do qual ela saiu cambaleando, como mostram as poucas filmagens disponibilizadas pelo estabelecimento. A garota havia sido levada para o “matadouro”, como o local é chamado por alguns que o conhecem bem, por um homem depois identificado como André de Camargo Aranha, empresário do ramo esportivo, de família rica e influente. Devido ao trauma, Mariana, que era virgem e a família a paz, a vida social, as noites de sono e a tranquilidade.

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As evidências que foram preservadas, apesar dos esforços daqueles que se diziam amigos e parceiros da garota, detalham o acontecido, desde o comportamento errático e os efeitos colaterais das drogas colocadas na bebida -- apenas um gim, como a comanda que ela depois apresentou denota -- aos áudios desesperados pedindo ajuda e sendo respondidos com um cinismo e uma frieza absurda ao sangue e sêmen nas roupas. Ao ser chamado para depor, o acusado não esperava que a pessoa que tomou seu depoimento fosse colher seu DNA de um copo d’água que ele havia bebido, apesar da recusa do empresário em doar material genético depois de conversar com seus advogados.

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Depois de tornar o caso público, Mariana recebeu diversos relatos de outras jovens que passaram pelo mesmo horror no clube e/ou de formas semelhantes, sendo dopadas de maneira desconhecida e perdendo a consciência. O clube emitiu apenas uma nota mal-feita sobre o caso e até os dias de hoje tranca os comentários em redes sociais, assim como os amigos famosos do denunciado, sem prestar qualquer tipo de apoio à Mariana.

Após o reconhecimento do local e do acusado, o modo como a investigação estava sendo conduzida mudou. Há varias coisas incomuns acontecendo -- afastamento de profissionais, demora em realizar certos procedimentos, dificuldade de acesso a arquivos por parte dos advogados da vítima, falhas na proteção de Mariana, entre outros. Além disso, Mariana recebe ameaças. Prints de grupos de Whatsapp de funcionárias do clube mostram mulheres debochando da garota, procurando sua localização e difamando-a. Outra mulher, uma médica legista, usou suas fotos para tentar montar um perfil “narcisista e exibicionista” da jovem, para desqualifica-la.

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Além disso, muitas personalidades da mídia que afirmavam que iriam ajudá-la divulgando o caso desistiram abruptamente. Em seu perfil no Instagram, Mariana conta que uma emissora de televisão, a Record, entrevistou sua advogada Thayse Pozzobon, mas o segmento nunca foi exibido na televisão. No SBT o caso foi abordado, mas de maneira tendenciosa, como se isentasse o denunciado de sua culpa e a transferisse para a vítima.

Ao tomar ciência desses fatos, é possível perceber parte da dimensão da grande batalha enfrentada por Mariana e sua família, há mais de um ano. Ele nunca chegou a ser preso. Mas ela está. Presa naquela noite, presa às lembranças confusas, dentro de casa, com medo de sair, com medo de barulhos, como uma criança indefesa, sobrevivendo aos dias que se seguem em busca de justiça, vendo sua mãe definhar pela preocupação e pelo descaso com o qual elas vem sendo tratadas. Isso motivou sua decisão de expor os acontecimentos em redes sociais, cinco meses após a denúncia.

Ainda em 2020, o julgamento de Harvey Weinstein tomou os holofotes. Um homem poderoso que muitos julgavam intocável, com fama, dinheiro e influência foi condenado e está pagando por seus crimes. O que o levou à derrocada foi a união não apenas das vítimas, mas de outras mulheres e homens que compartilharam suas histórias, cobraram dos órgãos adequados que tomassem uma atitude, e fazem questão de não deixar ninguém esquecer o que ele fez e o que ele é, inclusive cantam na frente do tribunal as palavras certeiras “O ESTUPRADOR É VOCÊ”. O que poderia significar uma fagulha de esperança.

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Mas infelizmente, o denunciado foi absolvido por falta de provas. A vítima é quem foi realmente julgada no processo, tendo que ouvir ofensas da defesa do réu tão absurdas ao ponto de chorar durante seu depoimento e o resultado foi comemorado em redes sociais por seus ex-colegas de trabalho, antes mesmo da sentença. Seu perfil no Instagram, criado em 2012 e onde antes mostrava sua rotina e trabalho e depois denunciava o caso e pedia justiça, foi derrubado por decisão judicial, sobrando apenas o Twitter, no qual ela detalha os acontecimentos.

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Eu peço para que você que está lendo para que procure as redes sociais de Mariana, compartilhe seus posts, marque os perfis referentes a órgãos públicos especializados e entre em contato com a família dela para oferecer auxílio, se puder. É necessário fazer barulho para trazer visibilidade não apenas ao caso dela, mas também ao de muitas outras mulheres vítimas do mesmo crime. É importante procurar e prestar apoio a outras pessoas que foram dopadas e/ou violentadas, não apenas em Florianópolis, mas em todos os estados do Brasil. Também devemos alertar as pessoas para que não frequentem mais esse local e das precauções que devem ser tomadas em relação ao assunto. O silêncio pode facilitar muitos crimes.

Não podemos voltar no tempo ou devolver a Mariana sua vida de antes, mas podemos auxiliá-la a cumprir sua tarefa no futuro, deixá-la menos árdua. Não podemos ficar parados enquanto tudo isso acontece, pois assim como aconteceu com ela, pode acontecer com outras mulheres, nossas filhas, irmãs, amigas, vizinhas, colegas ou desconhecidas que, assim como ela, têm o direito de viver a vida livre da ameaça do estupro. Ao olhar suas fotos antigas em matérias de revistas, vi uma menina bonita, leve, jovem e com um grande futuro pela frente. À ela eu digo, Mari, seu futuro não está perdido. Sua vida ainda nem começou. Você vai conseguir justiça e tudo que você merece, uma vida plena ao lado de sua família, sua gatinha e aquele sorriso encantador que está guardado aí. Pode levar algum tempo, mas vai dar tudo certo pra você. Tenho certeza.

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