evidence

Um olhar menos apressado a evidências de um silêncio que desenha segredos.

Zeiss Lacerda

Sou seiva de Moçambique, Mestrado em agricultura, docente universitário apaixonado pela academia e viciado pela escrita e pela moda. Gosto de olhares sem pressa e toques suaves. Fragmento meu dia entre cafés com pinceladas de açúcar. Alimento-me de música, invento momentos de solidão mas não me imagino sozinho.
Sentimentos? Só se me causarem sensações.
#The Evidence

Com o tempo a gente acaba aprendendo...

As coisas boas da vida são difíceis de conseguir, até mesmo um relacionamento saudável: assim se fala neste mundo. E corremos todos atrás do difícil ou se calhar, das dificuldades, a busca de goles de felicidade. Será mesmo que as coisas fáceis são assim tão desinteressantes? O tempo nos transporta até alguns lugares esclarecedores.


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Só depois de certo tempo é que percebemos que conquistar alguém para nosso parceiro deveria ser algo fácil. Às vezes, quanto mais complicado for o processo de conquista mais complicada será a nossa vida para manter a pessoa connosco. Uma pessoa difícil de conquistar pode esconder em si, excesso de zelo, elevado teor de desconfiança, consideráveis níveis de insocialização, traumas não resolvidos ou, pode ser simplesmente que não goste de nós o suficiente. Precisamos prestar atenção para não comprarmos dificuldades para nossa vida.

Depois de algum tempo nos damos conta, que num relacionamento saudável, sorrir é mais fácil que chorar, elogiar é mais motivador que criticar, perguntar é mais esclarecedor que imaginar coisas, dialogar é mais conciliador que brigar, pedir o que se deseja traz menos frustrações que esperar que as coisas aconteçam, abraçar traz mais conforto que um simples "olá".

Leva tempo para entendermos que não se luta por alguém: as pessoas quando realmente querem, facilmente se entregam e daí em diante o que mais desejam é permanecer aqui, bem juntinhas a nós.

Leva tempo para percebermos que uma pessoa que nos ama, conhece os nossos defeitos, nunca os ignora, conhece-os tão bem que consegue calcular que nossas virtudes são mais importantes e que nossa dimensão humana nos permite ser imperfeitos.

E depois de um tempo percebemos que as pessoas não se casam para serem felizes. As pessoas casam-se porque já são felizes. São tão felizes a ponto de o casamento ser apenas um pretexto para festejar o amor com amigos, familiares e o universo. O verdadeiro casamento é uma celebração à volta de uma felicidade pré-existente.

Leva algum tempo para percebermos que as pessoas não se unem na expectativa de mais tarde mudarem o comportamento uma da outra. As pessoas unem-se porque aceitam-se do jeito que são e predispõem-se a melhorar juntos nessa vida de imperfeições;

Leva tempo para entender que o amor não se deve confundir com o relacionamento: o amor é um sentimento que cria sede de dar. Dar implica relacionar-se e relacionar-se significa pacto e isso sim, implica reciprocidade. O amor não é uma moeda de troca mas o relacionamento é. Por isso, não basta amar, para dar certo é também preciso entender as regras do saber relacionar-se.

Leva tempo pra entender que nem sempre que alguém nos rejeita para parceiro é porque nos acha pouco: algumas vezes as pessoas sabem que não nos merecem e que merecemos algo melhor. Nessas situações, evitar insistir quando alguém diz "não" mesmo que tudo pareça indicar que "sim", pode ser absolutamente inteligente.

Com o tempo entendemos os milagres em buscar pessoas fáceis, acessíveis, sorridentes, loucas, divertidas, despreocupadas. O mundo prega que as coisas difíceis são as melhores mas, eu discordo, porque existe muita coisa maravilhosa também no fácil. As melhores coisas na vida temo-las de graça: o ar e o oxigénio, o sol e o calor, a sede e a água, o céu e as estrelas, a noite e o luar, o mar e a brisa, a chuva, o sorriso, o amor, o perdão. Nem sempre o fácil tem menos valor.

E quando chega o momento descobrimos quanta energia negativa nos é transmitida por pessoas mesquinhas, que não se socializam, que reclamam de tudo, que não enxergam beleza em nada, que detectam maldade em quase tudo, desconfiadas, tristes, que adoram dizer mal dos outros, sempre a criticar. Longe dessa gente é um alívio sem medida.

Mas quando é que chega esse tempo?

O tempo chega quando não desperdiçamos o tempo que nos sobra para aprender: o intervalo entre nossa existência e nossa inexistência.

O tempo chega a partir do momento em que aprendemos a respeitar diferenças. Quando percebemos que se todos fossemos iguais e agíssemos de igual maneira, neste exacto momento todo o planeta estaria a ler este texto, achando-o vazio ou qualquer outra coisa diferente. Então, tudo estaria parado, estático e em silêncio porque estamos em igualdade absoluta e, estamos todos neste momento a ler.

O tempo chega quando percebemos que são unicamente as diferenças que movem o universo. Que um mundo sem diferenças é um mundo morto, ensaiado, teatral, desinteressante e desapaixonante. Um mundo sem diferenças é um mundo onde ninguém gostaria de estar, é um mundo onde existo Eu, Eu e mais Eu sobre todas as pessoas e todas as coisas.

O tempo chega quando ficamos cientes de que tudo e todos têm algo de bom a ensinar-nos: o mendigo sabe muito sobre sobrevivência nas mais adversas condições de vida e pode ensinar-nos segredos sobre resiliência; a escuridão nos ensina que ela é uma entidade inexistente e se nos tornarmos luz, tudo a nossa volta fica iluminado. A escuridão, como diz OSHO, é apenas ausência de luz; o sábio nos ensina que na verdade morremos sabendo quase nada, que não existe um dia sequer que podemos dizer que já aprendemos tudo; a introspecção nos ensina que não basta dedicar tempo para visitar amigos e familiares, precisamos também dedicar tempo pra visitarmos a nós mesmos, precisamos saber se realmente está tudo bem connosco, precisamos sair de nós mesmos (da nossa casa, nosso mundo, nosso interior) para olharmos para nós mesmos por um ângulo que nos dê uma visão de um todo sobre nós mesmos.

O tempo chega quando aprendemos a aprender connosco mesmos e culpamos menos aos outros pelos nossos infortúnios.


Zeiss Lacerda

Sou seiva de Moçambique, Mestrado em agricultura, docente universitário apaixonado pela academia e viciado pela escrita e pela moda. Gosto de olhares sem pressa e toques suaves. Fragmento meu dia entre cafés com pinceladas de açúcar. Alimento-me de música, invento momentos de solidão mas não me imagino sozinho. Sentimentos? Só se me causarem sensações. #The Evidence.
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