evolução das ideias

Reflexões na arte da vida

Francisco Julio Xavier

Jornalista por formação, editor do blog Curtirthenovo.com (cultura e entretenimento) e colunista colaborador do Portal Observatório da Imprensa desde 2013. Contribui ainda com a cultura, a poesia e com articulações de ideias políticas e sociais. Apaixonado por café e fissurado em letras e frases. Falam que sou potiguar, e eu digo, sou Universal. Repare bem, Sou universal, sem religião por favor! Pontos de exclamação são fundamentais em minha life, especificamente essas do tipo: parouuu, quero mais café! Ah, no mais, só sei o que eu não sou: conclusivo e corrosivo. Evolução sempre nas ideias. Avante!

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Preconceito e tabu na psicanálise de Sigmund Freud

Sigmund Freud vai pesquisar em tribos para entender a origem dos totens e tabus e descobre como a sexualidade está relacionada com a resposta para o preconceito.


Em meio a tantas crenças, culturas e costumes, evidenciamos a diversidade da raça humana. E foi tentando entender como nasce o emaranhado de prejulgamentos que Sigmund Freud foi pesquisar as civilizações (diríamos exóticas) para posteriormente deixar registrado na obra “Totem e Tabu”, publicada em 1913. Considerada base de reflexão para alcançar o raciocínio de como são alicerçadas a regulamentação de uma sociedade, a obra foi inicialmente endereçada aos antropólogos mas logo se tornou referência sobre o tema também para outras áreas do conhecimento.

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O professor e psicanalista, Paulo Endo, em entrevista para a USP Online sobre o centenário da obra Freudiana, afirma que aquilo no qual Freud colocou como tabu, posteriormente direcionaríamos para o que hoje é chamado de Direito Penal. “São as primeiras regulações que apareceram no seio das comunidades”, explica. As leis seriam, portanto, herdeiras do tabu. Freud revela, em relatos sobre o mito da primeira comunidade dos homens, “primeva”, que os filhos de um tirano ao descobrirem a injustiça de viverem sobre o regime opressor do pai, decidem matá-lo.

Do homicídio gera a descoberta da emancipação e, consequentemente, a consciência do poder. Qualquer, portanto, poderia ter acesso a ele e se tornar um possível transgressor. Para coibir tal prática, foi necessária a criação de leis. Mas não para por aí. Com a morte do pai, surge a culpa nos filhos. E sem a figura paterna presente, a necessidade de criar uma representação que lhes passem segurança é latente. Nasce daí o “pai simbólico”. A presença desses totens de forma física na comunidade fez com que o grupo se organizasse a partir deles, se constituindo paralelamente a regulação, a cultura. sigmund-freud-400399_1280.jpg

Para entender o que é tabu, temos que fazer sua relação com o totem. O animal, o fenômeno da natureza, ou mesmo vegetal, a grosso modo poderia ser a definição para essa nomenclatura. As tribos australianas, aborígenes, citadas por Freud, via de regra eram identificadas por nomes de animais (cangurus, emus, animais comuns por lá). Interessante essa informação? Não. Pelo que conta, a curiosidade de Freud e de uma leva de psicanalistas pelos totêmicos vai muito além disso. E a nossa também.

A situação marcante que fez aguçar o interesse de Freud por esses povos está relacionado ao contexto dramático do sexo que os bárbaros faziam – ou pelo menos a uma forma de proibição a ele. Um ato sexual específico era proibição comum em totens e motivo de temor para os membros das tribos. O receio de se cometer o incesto inviabilizava até a comunicação entre parentes. Chegamos a uma conclusão inusitada: o medo que os “selvagens” (classificação dos antropólogos) tinham com o sexo era extremo. A lei era clara: relações sexuais com membros do mesmo clã, “nem pensar”! Com um agravante: todos os membros eram considerados parentes, mesmos os não consanguíneos.

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Em tribos como a Ta-Ta-Lhi, na Austrália, o homem pego em incesto era morto. A mulher, por alegar coação por parte do homem, era poupada da morte. Os irmãos eram separados e a irmã não poderia nem cogitar mencionar o nome do irmão e nem era aceitável que se cruzassem pelo caminho. Cabe aqui uma pergunta: os tabus saíram então das cavernas? Bem, resposta difícil até para os psicanalistas.

Na contemporaneidade, o tabu se estabelece nas convenções sociais, religiosas e culturais e cabe a todos os indivíduos seguirem a cartilha. O derivado desse não cumprimento, poderíamos colocar como o preconceito. De forma genérica, o preconceito seria uma atitude agressiva que gera resultados negativos. É o que destaca o norte americano Gordon Aronson, em sua obra “The cognitive perspective in social psychology”.

Em 1954, ele publicou o livro “The Nature of Prejudice”, mencionando a influência de traços de personalidade, cognições e emoções para o surgimento do preconceito. Contrariando Gordon, estudos recentes, como o “Prejudice: from Allport to DuBois, American Psychologist”, estão mais próximos de confirmar que os fatores que geram o preconceito estão ligados mais a construção no âmbito histórico e sociológico do indivíduo. “Tais comportamentos e crenças surgirão apenas como uma consequência de histórias de opressão particulares”.

A criação tão comum de estereótipos também é mencionada por Aronson como causadoras do preconceito. Distorções ou generalizações seriam contribuições para reforçar a discriminação. Ele ainda define os tipos de preconceitos: quentes e frios. E qual a relação entre tabu e preconceito? Bem, o tabu carrega um sentido de dualidade por todos nós: o sagrado, pode ser considerado por alguns como algo misterioso e proibido. A violação da proibição resulta no termo: “impuro”. O repúdio ao contaminado (“impuro”), segundo Freud o indivíduo que burlou as normas também se transforma em um tabu, põe em evidência o estabelecimento da discriminação, do preconceito.

Em sua tese de doutorado, a pesquisadora Adriana Nunan, da Universidade Católica do Rio de Janeiro, define preconceito a partir daquilo que seria entendido por seu gerador ou agravante. “Os estereótipos são ao mesmo tempo a causa e a conseqüência do preconceito e ambos (estereótipo e preconceito) geram discriminação contra o grupo alvo”, esclarece. As distinções entre tabu e preconceito são postas em xeque por dois pesquisadores, cada um segurando em uma ponta. Freud desvenda os totens e nos traz a luz da construção das leis, geradas pelos os tabus.

Já Adriana Nunan tem a deixa para afirmar que o estereótipo é, além do causador do preconceito, uma forma simples de análise de situações e pessoas. “O estereótipo, em si, pode ser entendido como um comportamento funcional e adaptativo, pois com frequência é uma forma de simplificar e agilizar nossa visão do mundo, julgando pessoas ou situações em termos de categorias”, conclui Nunan.


Francisco Julio Xavier

Jornalista por formação, editor do blog Curtirthenovo.com (cultura e entretenimento) e colunista colaborador do Portal Observatório da Imprensa desde 2013. Contribui ainda com a cultura, a poesia e com articulações de ideias políticas e sociais. Apaixonado por café e fissurado em letras e frases. Falam que sou potiguar, e eu digo, sou Universal. Repare bem, Sou universal, sem religião por favor! Pontos de exclamação são fundamentais em minha life, especificamente essas do tipo: parouuu, quero mais café! Ah, no mais, só sei o que eu não sou: conclusivo e corrosivo. Evolução sempre nas ideias. Avante! |>>|.
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