exescrevinhos

Quase tudo que vier à cabeça...

Vanessa Lemos

Cronista. Curiosa. Incansável leitora. Provável pensadora. Possível escritora.

Engarrafa Mentes Bem Humoradas

Um olhar engraçado e detalhado sobre trânsito e transporte público. Um desabafo de um brasileiro comum. Este texto é para quem anda de ônibus, para todos que enfrentam diariamente engarrafamentos gigantescos espremidos em um coletivo e que, apesar de todo esse sufoco, não perdem o bom humor.


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Nunca havia discorrido sobre engarrafamentos. Não sei por que, é algo tão presente o tempo todo, talvez por isso mesmo. Mas como é inconveniente, merece ser “mal” dito. Primeiro, entendamos o motivo de eles ocorrerem. Um engarrafamento pode ser desencadeado por vários fatores, poderia ser um acidente, uma sinaleira com defeito, uma passeata, uma festa de largo, um grande evento nas proximidades, uma briga no trânsito, ruas estreitas, sinaleira quebrada etc. Mas, sempre que houvesse uma explicação, ele seria aceitável, concordam? Atrapalha, incomoda, atrasa, irrita, mas há como aceitar por que houve um estopim, houve uma causa, um porquê. Agora, e quando não há motivo? Como na maioria dos casos. Quando você fica parado por três, quatro, cinco horas em uma droga de um engarrafamento, perde o seu compromisso e nem fica sabendo por que perdeu? Aí é de matar. Mas acontece.

Vamos ao ponto de ônibus (sim, você anda de ônibus), espera-se cerca de 30 a 40 minutos o bus chegar, com as pernas e pés encharcados da chuva (sim, está chovendo), pois o ponto mais próximo não tem cobertura e os guarda-chuvas não “guardam” direito. Ele chega e, se não passar direto, você entra e o trânsito flui normalmente até que aparece, do nada, uma fileira imensa de carros, ônibus, motos entrecortando a fila e afins. Um belo e comprido engarrafamento para embelezar mais ainda este dia. O que fazer nesses momentos? Rezar para acabar logo? Xingar o motorista? Ofender a mãe do cobrador? Seriam passatempos relaxadores, mas socialmente incorretos e os coitados não tem culpa, além de que não se pode deixar que pequenas coisas nos tirem do sério (imaginando ainda que será pequeno). Você pensa no que o terá causado e começa a procurar pistas.

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Logo começa a temporada de “vendas” dentro do coletivo. Entra o rapaz do Instituto de Apoio aos Usuários de Drogas, o menino das balas, o vendedor de agulhas, o de canetas, o de picolés, aquele que só pede, aquele que canta para ganhar algum e ainda vende o CD, o palhaço que ajuda uma casa de caridade, o garoto do incenso, o do bombom, das canetas com calendário e lanterna, do chaveiro, do massageador de cabeça etc. Para aqueles que não tem o hábito de utilizar o transporte público, saibam que são verdadeiras feiras livres, encontra-se de tudo. Caso queira, dá para fazer cara de “mau-humor” também que eles não te abordam. E o engarrafamento lá, imponente, todo seguro de si, mas você ainda vai descobrir o motivo. Então você começa a prestar atenção nas conversas alheias, não tem nada melhor para fazer mesmo, são reveladoras, engraçadas, escabrosas, vixe! Melhor pensar na vida, nas contas, nos quilinhos a mais, nos chifres, naquele vizinho que acabou de se mudar, no que terá para o almoço, pensar em como seu corpo está doendo de ficar em pé se segurando com um braço só e sendo espremido pela superpopulação do coletivo ou em como você tem que se esquivar de todos que passam atrás, para não ser bolinado.

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O engarrafamento, por sua vez, não dá trégua, ele te castiga, te mostra quem realmente manda e você atento, vai descobrir sua origem. Hora de concentrar-se na rua, no movimento, na bela paisagem, nos motoristas buzinando e ofendendo uns aos outros porque estão atrasados, nos pedestres que atravessam correndo na frente dos carros, no pivete quebrando o vidro do carro ao lado para levar a bolsa da senhora e saindo correndo. Em como os pobres transeuntes precisam se proteger não apenas da água que vem de cima, mas também do lado, das poças de água suja formadas por causa dos bueiros entupidos. Outra opção é jogar, ouvir música ou falar com alguém ao celular e torcer pra que ninguém te roube. Poderia até dar uma cochilada se estivesse sentado para não precisar sentir o aroma abafado de mais de 60 pessoas enclausuradas em um ônibus todo fechado por causa da chuva.

Todas essas coisas podem ser feitas para esperar o engarrafamento esnobe, insuportável e irritante acabar e, finalmente, desvendar seu mistério, suas raízes. Mas ele continua no comando, ele veio, te infernizou o dia e foi embora quando bem quis, sem você perceber. As pessoas vão chegando aos seus destinos, você chega ao trabalho estressado e com aquela dúvida que não lhe sai da cabeça, por que cargas d’água esse engarrafamento começou? E, enquanto se reconcilia com seu bom humor para enfrentar o resto do dia, se promete: Ahhh, mas amanhã eu descubro!!!


Vanessa Lemos

Cronista. Curiosa. Incansável leitora. Provável pensadora. Possível escritora..
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