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Quase tudo que vier à cabeça...

Vanessa Lemos

Quase escritora | Redatora Freelancer

O Retorno do Escaravelho do Diabo

Coleção Vaga-Lume, todos lembram, todos leram na adolescência, todos gostam. Eram livros voltados para o público jovem e com o propósito de estimular a leitura que fizeram um enorme sucesso nas décadas de 70, 80 e 90 e ainda fazem. O Escaravelho do Diabo, um dos preferidos, virou filme e estreia em dezembro nos cinemas.


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A coleção Vaga-Lume entrou na minha vida através da escola pública, quando eu tinha por volta dos 12 ou 13 anos. Aquela época em que você não se considera mais uma criança e seus pais ainda não te aceitam como adolescente, mas você sente as alterações de humor e corpo e mente e onde os jovens não tem muito o hábito de ler, ou a maioria deles. Livros, naquele tempo, eram caros e raros. A Vaga-Lume surgiu exatamente para reverter essa situação e incentivar a leitura nos jovens, com uma proposta de estórias envolventes, práticas, de fácil leitura e com preço acessível, esse formato fez um enorme sucesso na década de 70, nas próximas e até hoje.

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O Escaravelho do Diabo foi o livro escolhido pela minha então professora para ser lido e discutido em sala de aula e valeria nota. Não tive escolha, teria que ler. Li. Felizmente, li. Li esse e vários outros títulos dessa coleção, não sei se foi o início do meu gosto pela leitura, não lembro, mas contribuiu avidamente. O livro que motivou este texto, adotado na minha adolescência pela minha bendita professora, e muitos outros utilizados nas escolas até hoje, já tem versão digital, terá novas edições com gravuras e capas estilizadas e, em dezembro deste ano, será lançado também nos cinemas.

O livro foi lançado, originalmente, em 1956, como folhetim na revista Cruzeiro e, quem diria, em 1972 como romance pela sua autora Lúcia Machado de Almeida. A obra fala sobre crimes, assassinatos, serial killers e investigação. Ela mostra Alberto, jovem estudante de medicina que, após descobrir a morte do seu irmão Hugo, resolve investigar o caso e se vê envolvido numa sequência de assassinatos em série. O jovem conta com a experiente ajuda do inspetor Pimentel para desvendar esse mistério. Ruivos começam a ser encontrados mortos após receberem pelo correio uma caixinha contendo um escaravelho. As mortes estão interligadas e todas acontecem de maneira brutal. A trama se passa numa típica cidade do interior, com personagens caricatos, uma pitada de romance, suspense e misticismo envolvidos. O final é surpreendente, calma, não terá spoilers neste artigo.

Mas tudo isso a maioria de nós já sabe, está no livro que embalou a nossa juventude e a de nossos filhos. O que pretendemos descobrir é o que difere um do outro, se difere, se será tão bom quanto aquelas leituras feitas nos intervalos das aulas ou nos minutos antes dormir, e se vale a pena ir ao cinema em dezembro. Na telona, o jovem Alberto ainda não estudará medicina, ele será uma criança de 12 anos, o que muda um pouco a perspectiva dos fatos, o viés da investigação e, é claro, a abordagem do romance dele com Verônica. O diretor conta que queria dar uma pegada mais adulta no thriller sem alterar o enredo.

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Penso que a escolha se deu por conta de uma manobra de marketing para atingir não apenas os adolescentes crescidos da década de 80, mas os filhos, que hoje devem ter por volta de 12 ou 13 anos. Temo que a adaptação desagrade e destrua a imagem que tenho do livro, mas todo filme baseado em alguma boa obra literária causa esse temor. A produção adiciona também um contexto tecnológico atual, aproximando a narrativa da realidade dos jovens de hoje e faz uma tentativa de realizar um blockbuster brasileiro. Falo sobre tentativa, pois ainda não foi lançado, mas tem todos os ingredientes para ser. A direção é de Carlos Milani, com Marcos Caruso como Inspetor Pimentel e Jonas Bloch no elenco e um garoto estreante como Alberto.

O mais importante neste lançamento, e também a grande sacada dos idealizadores, é que o filme não agradará apenas ao público infanto-juvenil, ao qual é proposto. Mas a todos que leram esse best-seller enquanto estudantes ginasiais, antigo Ensino Fundamental, durante as décadas de 70, 80 e 90. Serão quase cinco décadas de telespectadores indo ao cinema, é muita gente. E é o que eles esperam. Para muitos, como eu, o contato com esses títulos foi uma forma de descobrir a leitura como algo estimulante, numa época em que não existia Internet, smartphones, TV a cabo ou redes sociais e que o acesso à informação era através das escolas, bibliotecas e bancas de revistas. Essa fase, para quem tem entre 30 e 40 anos, traz um saudosismo único, temperado com sabores diferentes dos de hoje, onde o tempo passava mais devagar e as cobranças eram menores.

E esse filme, se não fugir muito do livro, levará esse público ao cinema exatamente por isso, por esse resgate de memórias adormecidas, pela iminente explosão de uma nostalgia agradável ou ainda para experimentar um simples flashback da infância/adolescência. Essa geração vai gostar de partilhar experiências com seus filhos, que hoje estão lendo o mesmo livro e fazendo os mesmos resumos e exercícios escolares de 20 ou 30 anos atrás. Alguns de nós irão assistir por uma curiosidade despertada nas aulas ou pelos pais, outros por saudade, uns esperando que dê certo, eu para ver no que vai dar e você?

O filme é uma grande tacada de mestre ou um enorme tiro no pé. Que chegue dezembro!


Vanessa Lemos

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