exescrevinhos

Quase tudo que vier à cabeça...

Vanessa Lemos

Cronista. Curiosa. Incansável leitora. Provável pensadora. Possível escritora.

A maledicência e seus males

Pessoas bem-resolvidas não falam mal de ninguém. Ou falam?


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Considero fútil toda e qualquer conversa que vise a julgar ou subjugar terceiros. Penso que cada um tem um histórico social, familiar, financeiro, econômico, amoroso etc. que direciona atitudes e comportamentos e justifica decisões e personalidade e, inclusive, momentos. Vivemos num país que prega a cultura da meritocracia, onde mérito perde o conceito de merecimento e se transforma em uma espécie de seleção natural às avessas. Num mundo que sobrevive a base de padrões pré-estabelecidos e tudo que não se encaixa fica à margem, é de se esperar que o povo fale mal. O maldizer sobrevive da ignorância sobre si, sobre algo ou alguém.

“Você viu a roupa de fulano?”

“Olha como sicrana engordou!”

“Ouvi beltrano falando mal de você!”

Falar é uma dádiva, um meio de expressão, uma forma de comunicação, uma ferramenta de transformação de ideias, emissão de opiniões, de informação. Um poeta exprime sentimentos ao falar, um ator interpreta papéis, um cantor transborda música, um locutor transfere sensações e momentos, o palhaço faz rir, o orador encanta, o político convence, o professor projeta conhecimento, as pessoas se comunicam e o povo, o povo fala. O complexo e incomparável ato de proferir palavras e formar frases conexas, ou não, deveria ser melhor utilizado, a meu ver.

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No entanto, creio que a verdadeira razão da maledicência não é exatamente o que foge à regra, mas está diretamente ligada à autoestima, ou falta dela. Pessoas bem-resolvidas não falam mal de ninguém. Não perdem tempo criticando, apontando o dedo, especulando ou olhando para a grama alheia. Falar mal é, como dizem, “coisa de quem não tem o que fazer”. Prefiro definir como “coisa de quem não tem o que ser”, isso mesmo, o que ser. Aquele que não sabe quem é, não se descobriu ainda, não se conhece o suficiente para se gostar ou se bastar, aquele que olha no espelho e não gosta do que vê, que se julga inferior ou ainda não amadureceu o suficiente para conceber quem é.

Ou alguém que está num momento da vida onde todas essas sensações florescem, não é necessariamente apenas falar mal, mas desabafar. Algumas pessoas encontram-se em um estado de estresse ou descontrole emocional causados por razões alheias e isso faz com que adotem comportamentos que, habitualmente, não teriam. E a válvula de escape é o mexerico, diminuir o outro o faz parecer um pouco maior e alivia temporariamente sua angústia ou dor.

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Inveja, despeito, dor de cotovelo, ciúme, sentimentos que só se manifestam quando há comparação. Por mais inocente que pareça olhar o outro e imaginar se este é melhor ou pior, procurar defeitos que o façam parecer “menos melhor” e você se sinta “menos pior”, é o que traz à tona a necessidade de maldizer. É, também, comumente utilizado como desabafo, segundo a ciência, como forma de colocar para fora algo que está lhe incomodando e que, nem sempre, tem a ver com o outro. Entretanto, pode estar ligado à inveja de algo que acredita que deveria ter sido seu ou à inércia a que você mesmo se submeteu e não consegue sair ou, até mesmo, à projeção de si mesmo, dos defeitos os quais tenta esconder e abomina tanto, que não consegue admitir e os aponta no outro. Vez ou outra, é somente algo que realmente te incomoda e a sinceridade não seria exatamente elegante, então a detração é a melhor saída.

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Enquanto desabafo, é extremamente útil para desintoxicar a alma, porém é preciso saber onde e para quem se fala, se dito para alguém de confiança ou que te conheça o suficiente para não fazer julgamentos ou disseminar o dito, é legal e até necessário, pois atua como um bálsamo, do contrário, é melhor guardar para si e rever suas prioridades e definições. Quando se deixa de olhar para o lado e passa a observar sem se projetar, percebe-se que o outro está apenas vivendo a vida dele da melhor maneira que consegue e ninguém possui conhecimento o bastante para julgar ou condenar quem quer que seja. O povo tem o direito de falar, a voz do povo tem força e precisa ser ouvida, mas se for para falar, que fale bem. Se a grama do vizinho é mais verde, significa que você está olhando demais para a grama alheia e deixando de molhar a sua.


Vanessa Lemos

Cronista. Curiosa. Incansável leitora. Provável pensadora. Possível escritora..
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