exescrevinhos

Quase tudo que vier à cabeça...

Vanessa Lemos

Provável escritora.

a violência é humana?

A possibilidade, em pleno século XXI, da instauração de um regime totalitário, corroborado por grande parte da população.


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O homem é um animal violento e instintivo por natureza, isso o manteve vivo e evoluindo através dos séculos, bem verdade, mas permanece até hoje. Hobbes acreditava que o homem tem a guerra dentro de si, que já nasce egoísta, vingativo e orgulhoso e com um instinto de sobrevivência que o impele a atos violentos, bellum omnium contra omnes (guerra de todos contra todos). Rousseau, não. Para ele, o homem nasce bom e sua bondade vai se esvaindo aos poucos.

A obra O Leviatã, de Thomas Hobbes, descreve o homem a partir de um olhar natural. Quando o livro foi escrito, a Inglaterra vivia um Estado Absolutista e estava em plena guerra civil. Hobbes tenta discorrer sobre esse fenômeno e explicar porque chama o homem de o lobo do homem.

Para o filósofo inglês, coisas e pessoas ocupam o mesmo lugar e nenhuma das duas tem valor intrínseco. E nós, enquanto indivíduos egoístas e julgadores, seríamos os responsáveis por atribuir valor a essas coisas ou pessoas, segundo o que nos viesse a fazer bem ou mal. Estaríamos buscando sanar nossas necessidades, e não seriam poucas, e alimentar nosso bem-estar a qualquer custo. Para isso, precisaríamos enfrentar ou combater tudo o que, ao nosso ver, pudesse nos impedir ou atrapalhar. Tudo que nos atrapalhasse, nós iríamos odiar, logo, destruiríamos.

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Se parássemos para pensar no que, em uma sociedade contemporânea elitizada e burguesa, seria classificado como algo que atrapalha, traremos para o diálogo as minorias. Há uma exclusão velada a estes grupos, onde ou eles estão escondidos, encobertos pela vergonha, preconceito e vivendo à margem, ou vestidos de ovelha. Ora, se esses grupos segregados socialmente, diferentes entre si e dos demais, plurais e multifacetados destoam do rebanho, seria preciso combatê-los, e já.

Vamos pensar que, nessa sociedade, surgisse um Salvador da pátria que confirmasse serem eles um problema e oferecesse meios simples e rápidos para a eliminação desse problema. E que, a propósito, não desse muito trabalho e fosse, finalmente, cessar nosso medo causado pelo preconceito. E que, ainda, legitimasse todas as nossas fobias e reações contrárias violentas a elas. Eu, o indivíduo egoísta descrito por Hobbes, que odeia tudo aquilo que o atrapalha, e destrói o que o impede de encontrar seu bem-estar, fatalmente apoiaria e idolatraria tal criatura, mesmo que submetido a um Estado totalitário, sob um regime ditatorial.

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O homem é mau por natureza?

Segundo Rousseau, o homem nasce bom, a sociedade que o corrompe. Se refletirmos que o homem pode ser bom e ao mesmo tempo violento, então essa premissa é verdadeira. Quando repassamos a história da humanidade e de como a raça humana subverteu minorias em prol de riquezas, poder e conquistas, talvez não encontremos essa bondade. Mas ela existe? Não para Hobbes e sim para Rousseau. Este francês acreditava na bondade humana, mas sabia que era corruptível então, o homem se submetido à uma sociedade bárbara e cruel, poderia sim se tornar mau em um processo gradativo. Deixo a pergunta: existe ou existiu alguma sociedade dócil e provida de bondade o tempo todo?

O paradoxo das filosofias desses dois grandes pensadores se dá onde um crê na maldade humana desde o princípio, onde só o total controle do Estado conseguiria freá-lo e o outro, na humanidade boa inerente e natural que se corrompe com uma sociedade má e controladora.

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A única maneira de prover segurança é através da opressão?

Para Hobbes, em uma sociedade que ainda não estivesse subvertida, a simples condução do rebanho seria suficiente para que as ovelhas se mantivessem na linha, sob rédea curta. O povo sequer pensaria em algum tipo de oposição ou subversão. No entanto, qualquer indício de fuga ou tentativa de revolução, o único caminho seria o peso da bota sob total concordância das demais ovelhas, que acreditariam que os rebeldes estariam incomodando e mereceriam uma lição.

Para que não se precisasse usar a força bruta na tentativa de conter a violência, ainda segundo ele, deveria haver um controle ideológico. Leia-se, doutrinação apaziguadora, ou catequização de mentes e ideologias, através das ideias pacificadoras e unificadoras de opiniões. O indivíduo atingido pela cegueira coletiva não seria capaz de se opor ou realizar um levante contra o Estado, e ainda iria colaborar com o projeto distópico. A maneira mais eficaz de dominar mentes é através da sabotagem da educação e dos mass media, censurando quem ensina e quem informa. Onde a primeira nega conhecimento e a segunda manipula.

O sucesso de um regime totalitário dependeria da soberania ser absoluta, o poder indivisível e repressor e um total controle sobre o povo. Este último seria imprescindível. Isso tudo colocaria o homem muito próximo da guerra de todos contra todos, já mencionada anteriormente. Ou seja, se o homem é um animal violento e selvagem, apenas o Estado soberano seria capaz de contê-lo. E o sujeito, ao aceitar esse pressuposto, assume sua total incapacidade de pensamento crítico e se submete, sem ressalvas, para não ter que lidar verdades inconvenientes.

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A violência e o viés da confirmação

Acreditamos e seguimos aquilo que corrobora o que pensamos. Se eu, ao ter medo, odiasse o que me faz temer e entendesse que a única forma de parar de sentir medo seria destruindo o que eu odeio, ora, todos que repetissem o meu discurso teriam meu apoio incondicional. O viés da confirmação se manifesta através de expressões ou ideias que combinem com o que eu penso. Veja, se eu formulo uma opinião, independente de sua base argumentativa, e busco reafirmá-la através de assertivas ou fatos, tudo que respalde minha opinião seria irrefutável.

O viés da confirmação ou viés confirmatório, é visto também como uma limitação cognitiva, que todos nós acabamos sendo vítimas. Ele nos induz buscar por dados ou experimentos que confirmem nossas hipóteses e ignorem tudo aquilo que se oponha. Nós, enquanto seres humanos, tendemos a nos identificar com o que concordamos e nos ofender com o que vem de encontro ao que pensamos, então o viés acaba sendo um consolo, um tapinha na cabeça. Logo, se alguém compartilhasse do meu ódio, receberia meu apoio incondicional.

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Obviamente uma sociedade composta por uma grande massa de pessoas, possuiria aqueles que não seguem o rebanho. Não teriam adquirido o comportamento de manada e seriam capazes de tomar suas próprias decisões e formular opiniões distintas, com base em suas impressões, conhecimento, poder de argumentação e reflexão. Mas seria uma parcela bem menor da população, pois Estados totalitários são criados para controlar a maioria através de manipulação e oprimir os que não se deixam manipular.

Esse fenômeno separatista e autocrático não diz respeito apenas à inteligência individual ou nível de conhecimento e informação. Mas à capacidade de criticar, discordar, duvidar, compreender, pensar de forma não linear e principalmente, à capacidade de controlar não só o ódio, mas a violência que se manifesta abruptamente. O homem poderia ser bom ou mau individualmente no entanto, quando em grupo, ele se tornaria aquilo que a maioria representa, ainda que não o fosse. Em um Estado absolutista, o homem estaria submerso no rebanho ou oprimido por este mesmo rebanho. Por fim, tanto Hobbes, quanto Rousseau estavam certos e o homem é aquilo que consegue ser.


Vanessa Lemos

Provável escritora..
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