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Quase tudo que vier à cabeça...

@porvanessalemos

Quase escritora | Redatora Freelancer

Coronavírus - 2020 foi um ano perdido ou deu pro gasto?

A pandemia do coronavírus - e a maneira como foi (des)encaminhada - impactou negativamente a vida de milhões de brasileiros, mas será que não houve nada de positivo?


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A Covid-19 começou quietinha, lenta, sorrateira e totalmente desacreditada. Ela foi avançando, tomando conta de estados, países, continentes, até virar mocinha e se tornar uma pandemia de verdade. Confesso que não acreditava nela, mas já a temia.

Num piscar de olhos, vimos, em pleno século XXI, uma pandemia tomar corpo e ameaçar tudo que conhecíamos e amamos nessa vida. Foram projetos, viagens, relacionamentos, vidas, promessas, famílias inteiras e, de repente, tudo que nos guiava virou de cabeça para baixo.

A vida virou do avesso.

A pandemia na minha vida

Minha experiência particular com a pandemia não foi muito diferente da maioria das pessoas, mas foi minha, vou contar.

Não sou, exatamente, uma pessoa de fazer planos. Prefiro as surpresas. Mas, como todo mundo, preciso fazer alguns planejamentos e fiz.

Planejei muitas coisas para minha vida, minha carreira, meu aprendizado. Bom, não consegui concretizar nenhuma. Mas tomei a liberdade de encontrar novos objetivos.

Veja, não mudei a minha maneira de pensar ou quem eu sou - ou acho que não, apenas atualizei desejos.

A pandemia no meu trabalho

Para começar, precisei reformular todos os processos de trabalho que minha equipe e eu conhecíamos. Tudo, absolutamente tudo, sofreu algum tipo de modificação. E não foi fácil, mas conseguimos. Alguns deles, devo manter assim, outros, retornarão ao antigo normal.

Posso dizer que tive momentos confusos, complicados, irracionais até, mas aprendi a lidar com tudo isso. Minha equipe e eu conseguimos superar o ano de 2020 e nosso trabalho surtiu o resultado esperado. Primeiro, porque nos preocupamos com as pessoas, pensamos em tudo de forma direcionada para garantir o mínimo necessário, já que atuamos na área de saúde.

Segundo, porque somos uma equipe e agimos como tal. Nós nos ouvíamos, nos entendíamos, conversávamos e chegávamos à conclusões que eram boas para todas as partes envolvidas. Nós lidamos, antes de tudo, com pessoas e com a saúde delas.

A lição que tirei disso foi que algumas pessoas costumam ter uma imensa resistência à mudanças. Elas são inteligentes, competentes e comprometidas com seu trabalho, mas resistem, insistentemente, às mudanças. Felizmente, acabaram percebendo a inevitabilidade do novo normal e aderiram.

Não estamos todos no mesmo barco

Penso que respeitar a individualidade de cada um fez toda diferença. Costumo ouvir muito que estamos todos no mesmo barco. Mas sabemos que não. Estamos todos na mesma tempestade, porém em embarcações diferentes.

Uns estão em navios, transatlânticos, outros em iates e lanchas particulares e, a grande maioria, está em pesqueiros, jangadas ou agarrados em troncos boiando na tempestade. Cada um irá superar essa tormenta de acordo com a embarcação que possui.

E foi entendendo isso que conseguimos direcionar e gerir as questões de cada um e manter o serviço eficiente e eficaz.

Meu trabalho tomou a maior parte da minha vida no ano em que o coronavírus dominou o mundo. Mas tenho e tentei manter minha vida pessoal ativa e feliz.

A pandemia na meu mundinho

Veja, não foi exatamente uma vida pessoal social, pois o isolamento demandava o contrário, mas foi possível extrair das decisões e atitudes algo que me faria bem.

Então, posso dizer que fiz coisas nessa pandemia, que não fazia há muito tempo.

Tive meu salário reduzido e precisei lidar com isso. Cortei supérfluos, parei totalmente de comprar e consegui, inclusive e felizmente, diminuir meus gastos mensais. Não posso dizer que tive muita escolha, mas percebi que posso viver assim.

Dentro de casa e com o celular na mão o tempo todo - dando suporte para a equipe - resolvi não perder tempo. Não que o trabalho não me tomasse todo tempo do mundo e eu não tivesse trabalhado, efetivamente, mais do que em dias normais. No entanto, fiz coisas que não fazia mais e nem lembrava mais que gostava.

O que consegui fazer nessa pandemia:

  • Escrevi - sempre cansada, costumava não ter muito ânimo para isso, apesar de amar;
  • Reativei um blog antigo (projeto dos meus vinte e poucos anos) - me diverti com o que aquela menina escrevia e resolvi manter;
  • Li os livros que venho comprando e acumulando na estante - tive que dar uma limpada antes;
  • Criei várias playlists para ouvir sempre que tivesse vontade;
  • Ouvi as playlists criadas - é claro!;
  • Fiz aquela faxina de inúteis, roupas que não usava mais - levei para doação - bugigangas e lembranças que podiam ficar apenas na memória;
  • Melhorei minha alimentação - daí piorei e melhorei novamente (repeti algumas vezes);
  • Tentei, por vezes, fazer atividades físicas - dessas que a gente vê no Youtube - fiz algumas, mas não tenho muita paciência;
  • Busquei a prática da meditação - comecei fazendo duas vezes por dia, diminui para uma e depois fiz só quando dava vontade (mas ajuda muito e retomei);
  • Realizei mais de 25 cursos online - várias plataformas abriram de forma gratuita e aproveitei, e continuo;
  • Organizei contas e documentos - estavam meio espalhados pelas gavetas e portas da casa.

Acho que fiz bastante, considerando que não fazia nada disso antes do coronavírus.

A pandemia no meu país

Claro que consegui fazer tudo isso porque pude manter meu emprego - pelo menos até agora. Não precisei correr atrás de trabalho ou qualquer serviço que pagasse minhas contas para sobreviver. Mas muitos não tiveram a mesma sorte e sinto muito por eles (sei bem o que isso significa, já estive lá).

Nessa lista, citei apenas as coisas boas que fiz, claro. Mas a intenção aqui é botar para fora, então vamos lá. Fiz muitas coisas negativas também. Como muitos, senti raiva por não ser capaz de fazer o que queria, me frustrei por não conseguir comprar o que precisava e fiquei triste por não poder estar com quem eu amo. Mas não me tornei uma hater.

Tive dias inúteis, noites mal dormidas e semanas inteiras de ansiedade. Uma angústia causada não apenas pela pandemia, mas pela falta de possibilidades, pelos objetivos postos de lado. Pelas pessoas que sofriam e morriam, pelo desgoverno do nosso país e o desespero que isso causava e causa.

Um país que já enfrentou tantos desmandes, corrupção, sobreviveu à escravidão, a uma ditadura, conquistou direitos, cresceu e possui os recursos necessários para ser imenso. É entristecedor acordar de manhã e ler as notícias, perceber que não existe cuidado por parte de quem deveria estar cuidando - comentário pontual, "talquei"?

Toda vez que achamos que esse maldito Covid-19 está indo embora, surge uma nova variável ou variante. Num momento em que o Brasil, "acima de tudo", precisa de amor e empatia, temos uma onda de ódio que se espalha cada vez mais. Um isolamento social que não é respeitado, uma vacina que não chega, um presidente que não se preocupa com seu povo e tripudia dele e uma vida que não segue.

Thomas Hobbes dizia que o homem é o lobo do homem e penso que cabe perfeitamente no cenário atual.

A terra plana não para de girar

Mas, apesar de tudo isso, a vida continua. Costumo dizer que o mundo - que não é plano - não para de girar para que as coisas voltem ao seu lugar ou se consertem. O tempo continua passando e não sei se perdemos o ano de 2020, mas sei que perdemos muitas vidas e pessoas queridas.

Isso significa que, apesar de qualquer coisa, precisamos prosseguir. Nossas vidas devem permanecer em contínuo movimento, temos que continuar crescendo, trabalhando, amando, rindo e chorando. E, definitivamente, buscando aquilo que nos faz bem.

Com esse desabafo, concluo que sobreviver à pandemia tem sido minha meta, manter um emprego e renda, uma necessidade. Buscar melhorar como pessoa, parceira, líder, amiga e profissional, uma alegria. Mas manter a paz vem sendo meu objetivo de vida, desde antes da pandemia.

Publicado originalmente aqui.


@porvanessalemos

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