fabiana lapa

Pra aliviar o peso das palavras

FABIANA LAPA

Desconstruir-se para reerguer-se

A PRODUÇÃO LITERÁRIA FEMININA NO BRASIL DO SÉCULO XIX

Historicamente, o lugar da mulher na sociedade foi categoricamente interpretado como inferior ao do homem, determinando um fenômeno excludente e opressor, construído nos moldes do patriarcalismo. A realidade feminina era pautada nos afazeres domésticos, filhos bem educados, dedicação exclusiva aos maridos, enclausuradas em antigos preconceitos e imersas numa rígida penúria cultural. Por razões históricas e ideológicas, a produção literária das mulheres no século XIX, ignorada ou excluída, permanece na quase invisibilidade.


Os estudos da produção literária feminina no século XIX revelam a marginalidade das mulheres em todos os segmentos da sociedade, especialmente na produção intelectual. Diversas autoras se utilizavam de pseudônimos masculinos para que a edição e a circulação de suas obras fossem possíveis, como também para que seus escritos fossem devidamente reconhecidos. Para que a vida e obra dessas mulheres recebam as devidas honrarias, é necessário um trabalho quase arqueológico, que procura resgatá-las e novamente, inseri-las no universo literário, impedindo assim, que caiam no abismo do esquecimento.

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O século XIX, particularmente em sua segunda metade, revelou inúmeras mulheres que, através da poesia e da escrita, tornaram-se exemplos de manifestação da expressão pública feminina. Incontáveis barreiras dificultaram o desenvolvimento da vida intelectual dessas mulheres, tais como a inferiorização da literatura que produziam, o padrão que as tornava reféns, priorizando o ponto de vista masculino em qualquer tipo de produção intelectual e revelando uma sociedade patriarcal, machista, que idealizava para o gênero feminino uma vida cheia de afazeres domésticos, um sólido ambiente familiar, filhos bem educados e dedicação exclusiva ao marido.

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A primeira bandeira, que urgia ser levantada, era a do direito básico de aprender a ler e a escrever, até então reservado ao sexo masculino. A primeira legislação autorizando a abertura de escolas públicas femininas data de 1827 e até então, as opções eram uns poucos conventos - que guardavam as meninas para o casamento, raras escolas particulares nas casas das professoras ou o ensino individualizado, todos se ocupando prioritariamente com as prendas domésticas. As mulheres eram impossibilitadas de profissionalização, com exceção do magistério, que exigia somente a Escola Normal, onde também aprendiam os cuidados com as crianças, tarefa anteriormente desenvolvida pelas escravas.

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Em meio às transformações desse período, o comportamento feminino também mudou e aos poucos, ganhou notabilidade naquela sociedade conservadora. Já a formação acadêmica das mulheres no Brasil foi mais demorada, já que a lei que permitia o ingresso destas nos cursos superiores só foi promulgada em 1879.

A classe social favorecia a inclusão neste meio. Grande parte das mulheres que trilhavam o caminho literário pertencia às famílias abastadas e letradas, que dispunham de uma vasta biblioteca de seus pais, irmãos ou maridos e, geralmente, tinham um salão em suas casas, onde ocorriam encontros com intelectuais, poetas e músicos. Como ainda não ocupavam espaços públicos, restringiam-se aos círculos com familiares e amigos.

As primeiras poucas mulheres que tiveram uma educação diferenciada, que tomaram para si a tarefa de estender as benesses do conhecimento às demais companheiras, abriram escolas, publicaram livros, enfrentaram a opinião corrente de que mulher não necessitava saber ler nem escrever, foram tachadas de subversivas, obscenas e sofriam com o preconceito na luta pela ruptura do paradigma doméstico, pela ânsia por liberdade - principalmente de expressão e pelo direito ao pensamento crítico. Nesse processo de produção literária das escritoras do século XIX, injustamente apagadas ao longo da história da literatura, destacamos o processo de luta social e política para a conquista de muitos direitos como ao voto, reconhecimento no mercado de trabalho, nas artes e no meio intelectual.

A representação dos modelos da escrita, definidos desde os séculos passados, caracterizaram principalmente escritores que atendiam a um padrão constituído de homens brancos e burgueses. A produção feminina desde o século XIX é vasta, porém, sem o devido reconhecimento, muitas escritoras dessa época não foram legitimadas e, consequentemente, grandes obras foram esquecidas no tempo. Daí essa urgente necessidade de fazer emergir a escrita de autoria feminina e dar visibilidade a essas vozes dissonantes.

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Alguns nomes merecem destaque como o de Narcisa Amália, considerada a primeira mulher no Brasil a se profissionalizar como jornalista, alcançando projeção em todo o país com artigos em favor da abolição da escravatura, defendendo as mulheres, oprimidos em geral e produzindo uma poesia de grande importância social e política, numa sociedade onde as mulheres possuíam papel inexpressivo.

Nísia Floresta Brasileira Augusta, uma das primeiras mulheres no Brasil a romper os limites do espaço privado e a publicar textos em jornais da chamada "grande" imprensa, lançou seu primeiro livro - "Direitos das mulheres e injustiça dos homens", em 1832, o primeiro no Brasil a tratar do direito das mulheres à instrução e ao trabalho e a exigir que elas fossem consideradas inteligentes e merecedoras de respeito.

Auta de Souza, poeta ilustre do Rio Grande do Norte, também merece destaque. Sua poesia se comunica com as três gerações românticas, que passam desde a exaltação da pátria e da natureza, ao mal do século e ideais abolicionistas.

Em meados do século XIX, começam a surgir os primeiros jornais dirigidos por mulheres – avançando em direção à construção da identidade feminina, embora classificados pelos críticos como uma imprensa secundária, inconsistente e supérfula. Em 1852, o público leitor do Rio de Janeiro surpreende-se com o lançamento do "Jornal das Senhoras", de Joana Paula Manso de Noronha, uma argentina radicada no Rio de Janeiro.

O editorial do primeiro número expõe o firme propósito de incentivar as mulheres a buscarem um "melhoramento social e a emancipação moral", representando importante passo em direção à superação de seus medos e conscientização de seus direitos.

Júlia Lopes de Almeida, pioneira da literatura infantil no Brasil, teve seu primeiro livro, "Contos Infantis", publicado em 1886, reunindo 33 textos em verso e 27 em prosa destinados às crianças, escrito em parceria com sua irmã, Adelina Lopes Vieira. Um ano depois, publicou "Traços e Iluminuras", o primeiro dos seus 10 romances. Também escreveu para teatro, com dois volumes publicados e cerca de 10 textos inéditos.

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Julia integrava o grupo de escritores e intelectuais que planejaram a criação da Academia Brasileira de Letras. Seu nome constava da primeira lista dos 40 "imortais" que fundariam a entidade, elaborada por Lúcio de Mendonça, porém, na primeira reunião da ABL, seu nome foi excluído.

Os fundadores optaram por manter a Academia exclusivamente masculina, da mesma forma que a Academia Francesa, que lhes servia de modelo. No lugar de Júlia Lopes entrou justamente o seu marido, Filinto de Almeida, que chegou a ser chamado de "acadêmico consorte".

A lista de grandes contribuições femininas na literatura é grande, apesar de pouco conhecida e divulgada. Apenas no final do século XIX e a passos bem curtos, a sociedade começava a mostrar indícios de transformações e mudanças de comportamentos, caminho este ainda trilhado com muita persistência, tendo em vista os inúmeros percalços encontrados em nossa sociedade, que traz resquícios do conservadorismo, da misoginia e do machismo.

Por esses e tantos outros motivos que só fortalecem a luta feminina pela igualdade de gêneros e pelo real desejo de mudanças sociais e políticas, é de grande relevância o conhecimento, a divulgação das vidas e obras de tantas mulheres escritoras do século XIX, cujas produções são parte do processo de emponderamento feminino e um grande legado na história da literatura.


FABIANA LAPA

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