fabiana lapa

Pra aliviar o peso das palavras

FABIANA LAPA

Desconstruir-se para reerguer-se

Paulo Leminski: a trajetória do hippie polaco, samurai erudito e poeta concretista

"Amor, então, também, acaba?
Não, que eu saiba. O que eu sei
é que se transforma numa matéria-prima
que a vida se encarrega de transformar em raiva.
Ou em rima."


Autor de uma obra singular dentro do panorama da literatura brasileira contemporânea, o poeta curitibano Paulo Leminski (1944-1989), ainda não recebeu a devida atenção por parte da crítica acadêmica. Ao contrário dos grandes nomes do movimento concretista brasileiro, o nome de Leminski dificilmente é lembrado pelos historiadores da literatura brasileira que se ocuparam dessa tendência e, por isso, é grande a necessidade de avaliar a contribuição do poeta dentro de um panorama maior, identificando os processos formais, temáticos e sociais que aproximam Leminski da vanguarda desse movimento.

Paulo-Leminski.jpg

Inicialmente, é importante que se observe a gênese do movimento concretista, para que se torne possível compreender a inserção da obra leminskiniana, nos âmbitos social e literário. O Concretismo foi um movimento vanguardista, de cunho racionalista, buscando na arte a expressão de um geometrismo extremo. A busca dos artistas era incorporar estruturas geométricas na música, poesia, artes plásticas e na arte de modo geral. A intenção do movimento concreto era desvincular o mundo artístico do natural e distinguir a forma do conteúdo, assim como a abolição da linearidade temporal do poema. Institui-se a dimensão amplamente verbo-visual.

A expressividade de uma nova forma, multiplicidade de significados e misturas de linguagens visual e verbal com apelos persuasivos, são algumas das características da poesia concreta, cujo estilo norteou a poesia pós-modernista, sem preocupação com estruturas literárias, desde estrofes, versos e rimas. A partir disso, há o predomínio de imagens em detrimento ao caráter discursivo da poesia.

A fase de poemas concretistas de Leminski, em que ele seguiu mais de perto os princípios desse movimento ao privilegiar principalmente a espacialidade e explorar a dimensão gráfica das palavras, serviu como ensaio, como preparação para a abertura de outros questionamentos sobre as teorias da linguagem poética. Poeta de vanguarda, compositor, escritor, tradutor e professor brasileiro, Paulo Leminski Filho trabalhou uma poesia sem compromisso. Mestiço de pai polaco com mãe negra, nasceu em 24 de Agosto de 1944 e sempre chamou a atenção pela intelectualidade, erudição e genialidade.

LEMINSKI ASSINATURA.jpg

Em 1958, foi para o Colégio São Bento, em São Paulo, instituição mantida por monges beneditinos. Aluno disciplinado, estudou latim, grego, francês e as obras de Homero, Dante Alighiere e Virgílio. Os monges identificaram em sua personalidade, pontos visíveis de soberba, inquietação, vaidade e sensualidade. A direção do mosteiro achou mais prudente mandar o garoto de volta para casa. Aos 16 anos, aproximou-se do movimento estudantil de Curitiba e participou de algumas reuniões clandestinas.

Em 1963, o jovem curitibano lê num jornal a notícia sobre a “Semana de Poesia de Vanguarda”, que prometia reunir em Belo Horizonte, alguns nomes importantes da intelectualidade brasileira. Decidiu ir para conhecer Haroldo de Campos, Décio Pignatari e Augusto de Campos, núcleo histórico da poesia concreta paulista. No ano seguinte, enquanto instaurava-se a ditadura militar no Brasil, afogando em sangue as lutas operárias, camponesas e estudantis, Leminski abandona a universidade, aceita o convite para dar aulas de História e Literatura num cursinho pré-vestibular.

Assumindo um tom de rebeldia pós-existencialista, também se aventurou em alguns tipos de poesia que não têm uma raiz brasileira, como o “haikai” – vocábulo da língua japonesa (hai = brincadeira, gracejo; e kai = harmonia, realização). É um tipo de poema em que, à primeira vista, possui formas e disposições na página que pouco lembram o modelo literário tradicional. São poemas pequenos, com métrica e moldes orientais e seus primeiros registros datam de um longínquo século XVI. Leminski era fascinado pela cultura japonesa e pelo zen-budismo, praticava judô e escreveu a biografia de Matsuo Bashô, poeta famoso do Japão, reconhecido por seus trabalhos através do haikai japonês. Ainda como biógrafo, também se dedicou à vida de Jesus Cristo e Cruz e Souza.

BASHO 2.jpg

Sua estreia como escritor foi na Revista Invenção, do grupo concretista de São Paulo em 1964. Em 1968, durante os anos ditatoriais de exílios, prisões, torturas, assassinatos e enquanto os gritos eram abafados, Paulo Leminski se casa com a poeta Alice Ruiz, com quem viveu durante vinte anos e teve três filhos. Leminski e Alice foram morar com a primeira mulher do poeta e seu namorado, em uma espécie de comunidade hippie. Ficaram lá por mais de um ano, e só saíram com a chegada do primeiro de seus três filhos. Estava sempre à beira de uma explosão produtiva e assim, dono de uma extensa e relevante obra.

leminski.jpg

Tornou-se um dos mais destacados poetas brasileiros da segunda metade do século XX. Sua proposta era a instauração de uma prática poética que, mesmo utilizando como veículo o signo verbal, não fosse interpretada apenas sob a luz da teoria literária, mas também da teoria da linguagem poética. Inventou seu próprio jeito de escrever poesias, fazendo trocadilhos ou brincando com ditados populares:

“sorte no jogo/ azar no amor/ de que me serve/ sorte no amor/ se o amor é um jogo/ e o jogo não é meu forte/ meu amor?”.

Grande parte da produção do artista é marcada por traços da oralidade, por um vocabulário usado no cotidiano e pela fluência da própria fala. Num primeiro momento, essa postura nada tem de inovadora, visto que tanto os poetas modernistas de 1922, como os poetas marginais, adotaram essa dicção informal em suas poesias como uma maneira de contestarem a tradição e inovarem o conceito de literário.

Leminski aproxima os poetas dos músicos e dos artistas plásticos, destacando a fala como fonte de inspiração poética. Sua concepção de que a fala seria icônica – em oposição a uma escrita simbólica e arbitrária, mistura os conceitos de Saussure, linguista e filósofo suíço, cujas elaborações teóricas propiciaram o desenvolvimento da linguística enquanto ciência autônoma. De fato, a aproximação da poesia com a fala e a consciente utilização de recursos musicais como entonação, cadência e melodia, são valores estruturais muito presentes nas composições leminskinianas.

Ousado e irreverente, Leminski fez parte da “geração mimeógrafo”, movimento brasileiro que ocorreu imediatamente após a Tropicália, durante a década de 1970, em função da censura imposta pela ditadura militar e que levou intelectuais, professores universitários, poetas e artistas de um modo geral, a buscarem meios alternativos de difusão cultural, sendo o mimeógrafo, a tecnologia acessível na época. Dessa forma, a partir desse movimento revolucionário literário, a produção poética, que fugia dos padrões, era divulgada pelos próprios poetas a partir de pequenas tiragens de cópias, realizadas em folhetos mimeografados, vendidos a baixo custo nos bares, praças, teatros, cinemas, universidades.

No fim da década de 1980, visivelmente debilitado - reflexo de uma vida mergulhada em álcool e drogas, o samurai tropicalista começa a mostrar sinais de cansaço. A cirrose vai derrubando o poeta por dentro e por fora, embora a vodca continue sendo a companhia nos cafés das manhãs. Com dinheiro curto e um terço do fígado necrosado, apresenta-se fraco e desnutrido. Com a saúde cada vez mais debilitada, é internado em estado grave. A Secretaria de Cultura do Paraná deseja-lhe boa sorte e assume as despesas hospitalares.

Em 7 de junho de 1989, vítima de cirrose hepática, o cachorro louco Paulo Leminski, também chamado de samurai malandro, morre em São Paulo, berço dos movimentos que sacudiram a estrutura poética brasileira e que ainda hoje são ressignificados. Leminski nos deixou propondo a libertação da poesia moderna e um rastro de inquietação. A biografia “Paulo Leminski, o bandido que sabia latim”, escrita pelo jornalista Toninho Vaz, já teve três edições. O lançamento de “Toda Poesia”, pela Companhia das Letras, em 2012 e que reuniu toda a produção do poeta curitibano, foi sucesso no mercado editorial brasileiro, assim como a exposição itinerante “Múltiplo Leminski”, a maior já feita sobre o escritor, atraindo milhares de pessoas em diversos estados do país.

paulo-leminski-ilustra24.jpg


FABIANA LAPA

Desconstruir-se para reerguer-se.
Saiba como escrever na obvious.
version 4/s/literatura// @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //FABIANA LAPA