fabiana lapa

Pra aliviar o peso das palavras

FABIANA LAPA

Desconstruir-se para reerguer-se

Conceição Evaristo: o protagonismo da preta das escrevivências

“A pobreza pode ser um lugar de aprendizagem, mas apenas quando você a vence. Se não, é o lugar da revolta, da impotência, da incompreensão. E aí você não faz nada. Hoje eu vejo que a pobreza foi o lugar fundamental da minha aprendizagem diante da vida. Minha literatura não é pior nem melhor do que qualquer outra, só nasce de uma experiência diferente, da qual eu me orgulho e que não quero camuflar."


A literatura marginal, produzida nas duas últimas décadas nas periferias, tem merecido a atenção da mídia e da crítica especializada. Isto porque seu alcance é muito maior, à medida que interfere nos processos de produção, recepção e circulação da obra literária, deslocando posições acerca da função e da relação da literatura com a sociedade. Além de emergir diariamente, inovando o jeito de contar a própria história, também rompe com estigmas de silenciamento, sendo excelente ferramenta de reivindicação, principalmente no que tange às vozes femininas negras, pela necessidade de autoras socialmente marginalizadas falarem e se comunicarem com o mundo por meio de poesias, livros e artes, rompendo com o silêncio destinado àqueles que a cidade expulsa para áreas remotas. Por isso, é cada vez maior a importância de discutir o (re)conhecimento das mulheres negras escritoras e as desigualdades que herdamos nessa sociedade, as quais influenciam no modo como os negros se veem como sujeitos. Assim, falar dos novos “marginais” que surgem no cenário da literatura brasileira contemporânea envolve representações estéticas, políticas e sociais de naturezas diferentes. No processo de construção da literatura feminina da periferia, surgida da miséria nacional e que emerge como terreno de expressão simbólica de indivíduos que conseguem ecoar seus discursos contundentes para além da barreira que os isola geográfica e socialmente, em áreas remotas das metrópoles, impondo-lhes a vivência excludente, surge Conceição Evaristo, a preta protagonista de uma trajetória ímpar no contexto da história da literatura nacional. CONCEIÇÃO 1.jpg

“Não nasci rodeada de livros, mas rodeada de palavras. Havia toda uma herança das culturas africanas de contação de histórias. Minha mãe fazia bonecas de pano ou de capim para mim e minhas irmãs, e ia inventando tramas. Ela recolhia livros e revistas e mostrava para nós, mesmo sem saber ler. Víamos as figuras e inventávamos novas histórias. Meu interesse pela literatura nasce daí.”

Nascida numa família de mulheres negras cozinheiras, faxineiras e empregadas domésticas, Maria da Conceição Evaristo de Brito, a segunda de nove irmãos e que na infância, não viveu apenas a pobreza, mas a própria miséria na favela do Pendura Saia, em área nobre de Belo Horizonte, cresceu ouvindo da mãe e das tias, muitas histórias. A ficção era indispensável à sobrevivência, como uma forma de sublimar a realidade, alimento da sua escrita ou, como ela afirma, da sua “escrevivência”. Desde o início da vida escolar, onde teve o primeiro contato com a palavra escrita, Conceição já se destacava nos clubes de leitura e, com o passar dos anos, começou uma série de interrupções, entrando e saindo da escola. Trabalhou como babá, faxineira, vendedora de revistas, seguindo o caminho das mulheres da sua família, nascidas antes dela. Almejando uma vida diferente, já sabia o que queria: ser professora. Terminou o antigo ginásio, ingressou no curso normal e não parou mais de estudar. Cursou Letras na UFRJ, no final da década de 1970, especializou-se em Literatura na UERJ, logo após ficar viúva, na década de 1980. Nos anos 1990, formou-se mestre em Literatura na PUC-Rio e concluiu o doutorado em Literatura Comparada, na UFF, após enfrentar uma isquemia. CONCEIÇÃO 2.jpg

"A voz de minha bisavó ecoou/criança/nos porões do navio. Ecoou lamentos/De uma infância perdida.A voz de minha avó/ecoou obediência/aos brancos-donos de tudo."

Em todos esses espaços, era uma das poucas negras, e sempre a mais velha dos colegas. Essa sensação de deslocamento atravessa sua escrita desde a infância. Participante ativa dos movimentos de valorização da cultura negra em nosso país, estreou na literatura em 1990, quando passou a publicar seus contos e poemas na série “Cadernos Negros”. Escritora versátil que cultiva a poesia, a ficção e o ensaio, seus textos vêm angariando cada vez mais leitores e seus contos vêm sendo estudados em universidades brasileiras e do exterior. Após a publicação do romance “Ponciá Vicêncio”, em 2003, de narrativa não-linear marcada por seguidos cortes temporais onde passado e presente se imbricam, o livro foi incluído nas listas de vestibulares de universidades brasileiras e vem sendo objeto de artigos e dissertações acadêmicas. Já em 2006, Conceição Evaristo traz à luz seu segundo romance, “Becos da memória”, em que trata, com o mesmo realismo poético presente no livro anterior, do drama de uma comunidade favelada em processo de remoção, cabendo o protagonismo, mais uma vez, à figura feminina, símbolo de resistência à pobreza e à discriminação. Vários livros lançados, seguidos de palestras da escritora em diversas universidades, e sua poesia, até então restrita às antologias e à série “Cadernos Negros”, ganha cada vez mais visibilidade, mantendo sua linha de denúncia da condição social dos negros, embora num tom de sensibilidade e ternura próprios de seu lirismo, revelando um minucioso trabalho com a linguagem poética.CONCEIÇÃO 3.jpg Conceição Evaristo é uma das vozes cujas obras traduzem os dramas vividos pelos negros em nosso país, num cenário de exclusão e miséria, conferindo-lhes uma falsa liberdade, discutindo questões de identidade e buscando dar a importância devida a esses sujeitos femininos, através de suas participações na sociedade ─ ainda que esta as veja como subalternos. Urge trazer, também através da literatura, profundas reflexões acerca das questões de raça e de gênero, com o objetivo claro de revelar a desigualdade velada, de recuperar uma memória sofrida da população afro-brasileira em toda sua riqueza e potencialidade de ação. E Conceição, na sutileza de suas “escrevivências”, ajudando a abrir espaços para reflexões com a beleza de suas obras, desempenha este papel com brilhante maestria.


FABIANA LAPA

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