fabiana lapa

Pra aliviar o peso das palavras

FABIANA LAPA

Desconstruir-se para reerguer-se

Manoel de Barros: a poética particular de um apanhador de desperdícios

“A poesia está guardada nas palavras — é tudo que eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim, poderoso é aquele que descobre as insignificâncias
(do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado.
Sou fraco para elogios.”


Cuiabá, 19 de Dezembro de 1916. Nasce Manoel Wenceslau Leite de Barros, poeta brasileiro do século XX, cronologicamente pertencente à Geração de 45 da Literatura Brasileira e formalmente, situando-se mais próximo das vanguardas europeias do início do século, embora sua palavra poética não aceite enquadramentos. Comumente comparado com Guimarães Rosa e utilizando-se de neologismos e sinestesias, teve como matéria-prima de sua poesia, o chão do Pantanal Matogrossense, um mundo primitivo de riqueza visual, tátil, olfativa, permeado pelo humor e pela busca do ínfimo, do pequeno.

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Para ele, o papel da poesia sempre foi o de ultrapassar o sentido e demonstrar que é a linguagem que mostra o avesso, que foge da realidade, criando algo novo com os sentidos das palavras. E Manoel de Barros, consciente do projeto estético que realizava, conseguiu ser um poeta engajado, incutindo sutilmente no leitor, sua ideologia e a relação político-estética para “esconder por trás das palavras, para mostrar-se”. Na fazenda do pai, no Pantanal, entre ranchos, plantações e gado selvagem, Nequinho - como era chamado pelos familiares, cresceu brincando com os pés na terra, entre os currais e as coisas “desimportantes”, que marcariam suas obra e vida pra sempre. Num internato, encantou-se com livros de Padre Antônio Vieira e concluiu: “A frase para ele era mais importante que a verdade, mais importante que sua própria fé. O que importava pra ele era a estética, o alcance plástico. Foi quando percebi que o poeta não tem compromisso com a verdade, mas com a verossimilhança”. Um bom exemplo disso está num verso de Manoel, que afirma que “a quinze metros do arco-íris, o sol é cheiroso.” E quem garante que não é?

Manoel conheceu pessoas engajadas na política, entrou pra Juventude Comunista, aprofundou-se nas leituras de Marx, escreveu um livro – não publicado, aos 18 anos, e, ainda na incerteza de fincar suas raízes onde cresceu, viajou pra alguns países. Em Nova Iorque, fez cursos sobre cinema e pintura no Museu de Arte Moderna, observando com profundidade, pintores como Van Gogh, Picasso e outros que reforçaram seu sentido de liberdade, compreendendo que a arte moderna veio resgatar as diferenças.

Mas o que, exatamente, sugere sua poesia? Em seu livro intitulado “Livro sobre nada”, diz: “As coisas tinham para nós uma desutilidade poética/ Nos fundos do quintal era muito riquíssimo o nosso dessaber/ A gente inventou um truque pra fabricar brinquedos com palavras/ O truque era só virar bocó/ Como dizer: Eu pendurei um bentevi no sol...” livro.png O próprio autor anunciava o desejo de fazer brinquedos com as palavras, fazer coisas desúteis. A “desutilidade”, o “dessaber”, os “desúteis” sempre foram frequentes na obra de Manoel de Barros, assim como o “desaprender” e o “desinventar”, em “ O livro das ignorãças”: “[...] Desaprender oito horas por dia ensina os princípios/ Desinventar objetos. O pente, por exemplo/ Dar ao pente funções de não pentear/ Até que ele fique à disposição de ser uma begônia/ Ou uma gravanha.”

Ou seja, é instaurada, na obra do escritor, uma certa poesia do “des”, da negação, da desconstrução incessante e radical, a poesia do sempre inatingível: desinventar objetos e usar algumas palavras que ainda não tinham idioma. É a poesia que busca o originário, o desconstruir “as coisas” de seus significados mais habituais, desconstruir para construir, fazer “delirar”, como afirmava o próprio poeta. É o “descoisificar” a realidade. E enquanto “descoisificava” o real, construía uma gama de significados inexistentes. Na verdade, é o remeter-se ao próprio sentido da poesia, através de uma linguagem que quer o avesso do avesso, ou seja, quer deslocar ao máximo, a representação da realidade para revelar-se no seu sentido mais originário, livre das amarras da língua.

Para ele, o papel da poesia sempre foi o de ultrapassar o sentido e demonstrar que é a linguagem que foge da realidade, criando algo novo com os sentidos das palavras. E, consciente do projeto estético que realizava, conseguiu ser um poeta engajado, incutindo sutilmente no leitor, sua ideologia e a relação político-estética para “esconder por trás das palavras, para mostrar-se”.

O poeta de Manoel foi aquele que desvendou os caminhos da linguagem, a criatividade no uso dos neologismos, renovando e dando novos sentidos ao uso das palavras. Sua preocupação intencional sempre foi a de compor a ruptura em relação a qualquer tipo de conceito linguístico ou de formas aplicadas à nossa gramática normativa. Com isso, criou uma poesia livre de padrões vigentes, edificando seu mundo, desfazendo os significados das palavras.

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Escolheu o Pantanal, a natureza e as coisas ínfimas para a composição de seu fazer poético, como se não encontrasse seu lugar no mundo e, por isso, a busca por um mundo poético diferente, no qual as coisas e as pessoas não fossem apenas mercadorias. E o fez na valorização dos “abandonados” e no repúdio aos bens da sociedade, nas críticas sociais, sempre de maneira sutil, mas com grande carga de denúncias. Porta para variados mundos, a literatura permite o surgimento das várias leituras que dela se fazem, fala do que poderia ter sido e, portanto, seu compromisso é com o mundo do possível e não com o mundo do real. .

Muitos livros publicados, reconhecimento mundial e premiações - entre elas, duas vezes ganhador do prêmio Jabuti, o mais importante da Literatura no Brasil, o ocupante da cadeira número 1 da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, saudosista em relação à infância e ressentido diante do presente, deixou um legado para a humanidade: o de uma poesia que se insurge no ordinário cotidiano de cada um de nós, para doar uma significação da qual carecemos. Avesso à imprensa e qualquer tipo de ostentação, foi um “caramujo”, que ganhou o mundo sem sair de casa.

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Dotado de lamentável mortalidade física, em 13 de Novembro de 2014, o poeta, já cansado fisicamente pelos 97 anos e pela perda de dois dos seus três filhos, deixou este plano, já pequeno pra sua grandeza. E o mundo, lamentando essa insubstituível perda, disse adeus ao incomparável apanhador de desperdícios e àquele que transformou o Pantanal, em verso.

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