fatos fantasiosos

Porque todo filme é baseado em fantasias

Lina Campos

Lina não sabe falar "tablet" sem colocar um "l" na primeira sílaba. Ama todo o entretenimento, cães e rapazes de lábios grossos.

A garota no trem

Nem mesmo o elenco maravilhoso segura os problemas no roteiro


Rachel Watson (Emily Blunt) é uma alcoólatra, divorciada, estéril e vive de favor na casa de uma colega da faculdade, a Cathy (Laura Prepon, a Alex Vause de “Orange is the new black”).

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Todos os dias, ela pega um trem que vai para Nova York fingindo que vai trabalhar. Numa parte do trajeto, a ex relações públicas observa a antiga casa na qual morou com o ex marido Tom Watson (Justin Theroux) e agora está ocupada pela nova esposa Anna (Rebecca Ferguson) e a filha deles. Duas casas acima da dela, mora um jovem casal. Com o passar do tempo, Rachel fantasia que a vida dos dois seja perfeita. Até dá nome para eles: “Jess” e “Jason”.

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Um belo dia, Rachel testemunha algo que acaba com suas fantasias de que eles sejam um casal feliz. “Jess” está beijando outro cara. Acontece que tempos depois, “Jess” é dada como desaparecida e Rachel, que tem apagões de tanto beber, acha que tem a ver com o sumiço de, agora ela sabe o nome, Megan Hipwell (a insanamente linda Haley Bennet). Será mesmo que Rachel tem a ver com o desaparecimento de Megan? Para saber melhor sobre isso, ela entra em contato com o esposo de Megan, Scott Hipwell (Luke Evans) e o psicólogo dela, Kamal Abdic (Edgar Ramirez).

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Bom, eu, como boa parte dos leitores do best seller A garota no trem (The girl on the train,2015), de Paula Hawkins, fui atraída pela comparação com Garota exemplar (Gone girl, 2012), de Gillian Flynn. É uma comparação injusta, pois ‘Exemplar’ é milhões de vezes superior. Não é um livro ruim, principalmente para uma escritora estreante como Paula Hawkins. O final é totalmente previsível, se você for uma pessoa que não sou eu.

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O thriller psicológico é narrado por Anna (a nova esposa de Tom), Megan (a babá da filha de Tom) e Rachel (a ex esposa). Se os depoimentos são confiáveis, só com o passar dos acontecimentos é que se pode saber.

O filme é uma adaptação escrita por Erin Cressida Wilson que, de verdade, não é apropriada. Primeiro e mais importante, mudaram o cenário. No livro, Rachel vive em Londres, e no filme, Hollywood engoliu a produção e mudaram para Nova York. Os personagens também encararam mudanças. O homem com quem Megan trai Scott é seu psicólogo Kamal Abdic. Na publicação, Kamal é indiano e no filme, ele é latino. O detetive Riley teve o sexo trocado (dessa eu gostei) e é representada por Allison Janney (que não costuma fazer dramas e se saiu muito bem). Fora a aparição de uma Martha (Lisa Kudrow, a Phoebe de “Friends”), esposa do ex chefe de Tom, que não existe na obra.

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A trama do filme, com no livro, é dividida pelo olhar das três protagonistas, deixando isso bem claro na tela, escritos “Anna”, “Megan” e “Rachel”. E também são escritos na tela os tempos em que a história acontece com marcações tipo “Três semanas atrás”. Isso faz com que o ritmo do filme seja seriamente prejudicado. O diretor Tate Taylor (de Histórias cruzadas, 2014) fez uma má escolha ao não se aprofundar nas personalidades das três.

As interpretações são irrepreensíveis, não poderia ser escolhido melhor elenco. Ver uma Emily Blunt feia, inchada de bêbada e acabada é uma oportunidade rara. A atriz faz uma Rachel difícil de ser replicada.

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Ferguson, Bennet, Theroux, Ramirez e Evans, também são muito bons, mas mal aproveitados. Há momentos no filme em que eles simplesmente somem.

Uma coisa interessante no filme é a questão do gaslighting que Tom incide sobre Rachel. Quando bêbada, ela vai sim assediar a nova família do ex marido, mas existem muitos fatos sobre o passado e o presente de Rachel que são muito mal contados. Por ele.

O filme decepciona os fãs do livro e o roteiro não ajuda o livro a ter novos fãs. Um conselho que eu dou é: se leu o livro, vá ver Emily Blunt e grande elenco brilharem, mas sem expectativas. É um filme médio.


Lina Campos

Lina não sabe falar "tablet" sem colocar um "l" na primeira sílaba. Ama todo o entretenimento, cães e rapazes de lábios grossos. .
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