febre de além

O que desejo ainda não tem nome

Brian Lima

Formado em Administração, continuo aprendendo para me sentir vivo. Intenso não é só adjetivo, é condição. "Ninguém pode calar dentro em mim essa chama que não vai passar".
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Pensamentos de uma pessoa febril

Acredito na utopia porque a realidade me parece impossível.


Desde que me propus a expor meus pensamentos neste espaço, procurei fazer do meu blog um elemento natural da inquietação. Febre de além sempre foi para mim mais que uma expressão forte; também traduz um estado de espírito em todos os aspectos da minha (ainda curta) vida.

Talvez Política seja um assunto duro e pouco poético, dada a conjuntura brasileira atual. Mas sou um otimista, e otimismos nos projetam para Além.

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Em tempos em que muitos falam e poucos pensam, ao menos à fundo, acho que vale algumas considerações sobre o que nos reserva o futuro, baseado em nosso presente pouco promissor.

O impeachment da Presidenta Dilma deflagra um processo que começou, ao meu ver, no dia 22 de junho de 2002, quando o Ex-Presidente Lula fez famosa Carta aos brasileiros. Um movimento que serviu para explicitar dois pontos fundamentais dos anos Petistas, que já estavam à mostra aos mais atentos: o primeiro é que todos os contratos do Estado Democrático de Direito iriam ser respeitados; o segundo era que Lula jamais foi um socialista, mas sim um sindicalista.

Chamar o processo em curso de Golpe, é uma simplificação grosseira que a esquerda não pode permitir-se. Existe sim, em minha opinião, uma articulação suja e uma conspiração covarde entre o setor mais conservador, a grande mídia e a elite brasileira para destituir do cargo a Presidenta. Não é possivel negar que o Estado democrático de direito está sendo violado. Por outro lado, existem elementos no processo que explicitam a cruel face da política: o Estado é um mero comitê executivo do grande capital.

Lula governou em um céu de brigadeiros por 8 anos, sem oposição real dos partidos, mesmo sofrendo um duro golpe que foi o Processo do Mensalão. Isso aconteceu, e é fácil perceber, porque “nunca antes na história desse país” as classes dominantes ganharam tanto dinheiro. Enquanto todos surfavam em ricas ondas, nenhum arranhão fora dado na imagem do Lula, que deixou o governo com incríveis 70% de aprovação. Deus e o Diabo admiravam “o cara”.

Mas ninguém se abraça com a burguesia sem que chegue a conta depois. Quem diz que a Dilma é a responsável por essa gravíssima crise que se abate sobre o país, ou está redondamente enganado ou está querendo enganar. Esta crise que começou lá trás na Europa e Estados Unidos e se abateu no Brasil tardiamente, representa uma crise estrutural do sistema capitalista, por isso cíclica, por isso, inevitável. O desgoverno da Dilma tem sua responsabilidade, mas em pequeníssima escala se comparado às decisões sombrias do PT de outrora.

Ninguém passa impune em cometer estelionato eleitoral. Ninguém passa impune em ter Michel Temer como aliado. Ninguém passa impune em abandonar os ideais em nome da governabilidade. Ao trair a esquerda, o PT abdicou da história de lutas e jogou fora a esperança depositada nele de uma verdadeira mudança social.

Não podemos fechar os olhos para o fato de que o Brasil é um outro país após os governos do PT. Alguma coisa de boa foi feita. Mas nenhuma agenda contrária ao grande capital foi seguida. Quem acha que programas sociais serão extintos com governos menos populares, engana-se. O custo do Bolsa família perto dos juros da dívida pagos aos rentistas é poeira. O bónus político é imenso perto do que custa aos cofres públicos.

Mas esse blog não é de ficar olhando para trás.

Provavelmente quando esse texto for lido, Dilma já não será mais a Presidente.

Várias pessoas estarão fazendo uma marcha da família com Deus para agradecer por isso. Com as esperanças renovadas e as mãos sujas, seguirão suas vidas com a sensação de dever cumprido.

Para mim, e acredito que uma parte de minha geração, esse processo é uma amarga derrota. Não (só) porque a esquerda não estará mais governando o país, pois a esquerda há muito não governa o Brasil. Mas sim porque o impeachment, e todas as suas causas e consequências impõem a esquerda brasileira uma derrota histórica. Demoraremos anos para colocar as coisas nos seus devidos lugares. Será dura a luta para traçarmos uma linha no chão e separarmos eles de nós. E será ainda mais difícil juntarmos “aqueles” em prol de uma causa.

O golpe reside não só no processo, mas na sua condução por parte dos setores que o dimensionam e reproduzem. A opinião pública, hoje, associa escândalos e roubalheiras ao PT, e associam o PT à esquerda.

No meio de tudo isso, em Alagoas, professores são impedidos de expressar opiniões acerca de política e religião nas escolas. Estamos nadando de braçadas para o atraso e a decadência intelectual.

Os próximos anos que seguirão irá nos impor uma violenta onda de conservadorismo social e político, bem como uma reprimenda avassaladora aos movimentos sociais. Virá um nó apertado no trabalhador, referendado pela desculpa esfarrapada que isso é consequência dos anos pregressos.

Mas podemos olhar ainda mais à frente.

O Povo brasileiro não é a Câmara dos Deputados.

A esquerda precisa mais do que nunca se entender e entender este processo. Mobilizar pessoas já não será suficiente. Devemos nos organizar. Ser minoria não retira da esquerda a sua importância histórica. Muito pelo contrário. A esquerda revolucionária precisa aprender com os erros da própria esquerda para não repeti-los, e poder direcionar as ações políticas para os lugares certos. Esse processo não será fácil, muito menos rápido. Mas é nosso dever.

“O que eu desejo ainda não tem nome.” Essa fascinante e poderosa frase de Clarice Lispector que subintitula meu blog fala muito do meu espírito.

Não sei se estamos remando para a direção certa, nem se é um devaneio lutar por justiça e humanidade. Eu sei que não gosto do mundo como ele está, e isso me basta para querer encontrar outro caminho.

Seguirei à esquerda.

Mais além.

Essa é minha febre.


Brian Lima

Formado em Administração, continuo aprendendo para me sentir vivo. Intenso não é só adjetivo, é condição. "Ninguém pode calar dentro em mim essa chama que não vai passar". [email protected] .
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