febre de além

O que desejo ainda não tem nome

Brian Lima

Formado em Administração, continuo aprendendo para me sentir vivo. Intenso não é só adjetivo, é condição. "Ninguém pode calar dentro em mim essa chama que não vai passar".
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Se não houvesse a morte, Maria, eu me matava

Uma reflexão acerca de nossas necessidades de lutar contra a mudança, contra a vontade do outro e contra o ponto final.


Sempre achei que a vida fosse dividida em projetos e planos. Aos 14 anos sabia exatamente o que estaria fazendo aos 50. Basicamente desejamos as coisas que todos desejam: uma familia, casa própria, carro novo, um bom emprego e viagens anuais para a Europa ou qualquer refúgio que possibilite revigorar as ilusões para tudo começar de novo, exatamente como era. Como o Carnaval. Tinha certeza que seria assim. Mas aos 17 anos achamos que temos mais certezas do que realmente temos e vamos caminhando com muita força, sem olhar onde vamos deixando cair os planos. Nem sempre é possível fazê-los. Aliás, carrego em mim essa dúvida: já fizera eu planos? Eu mesmo? Planos meus? Talvez não.

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Mas essa é uma questão que pouco faz diferença ser respondida. Estamos algemados a isso, sendo ou não. O que nos incomoda mesmo, nos faz tremer em nossos confortáveis lugares, em nossas cômodas vidas, é o medo da mudança, é a não aceitação da transitoriedade. Não fomos feitos para ficar. Mas tentamos ficar. E ficamos. O problema é que as pessoas que passam pela sua vida, essas pessoas que mudam seus planos e os fazem por você sem que perceba, essas pessoas não ficam. A impermanência é aprendida dia a dia na convivência. Sentimos todos os dias os efeitos destruidores e inflamados das despedidas, da passagem das horas, do tempo...

A vida como ela é nem sempre é uma opção para alguns. Nem todos suportam a monotonia, a rotina, a falta de vibração, o cais. Mas outros querem o porto, o cotidiano, o básico. Quando essas pessoas se encontram e se envolvem, algo de diferente deve acontecer com o universo, pois está anunciado um desequilíbrio que certamente virá, quando o efeito do remédio doce de todo começo passar. E ele vai. E não estamos preparados para isso.

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Não nos preparamos para a morte, para o adeus, para a falta, para a passagem... A vida começa solitária e assim termina,e projetamos nas pessoas uma ponte para suportar essa solidão. Mas queremos diferente, amamos diferente. E sempre nos perguntamos se vale a pena continuar com algo, se é aquilo mesmo, aquele emprego, aquele casamento, aqueles lugares... Nos adaptamos, como se fosse questão de seleção natural, ao ambiente e suas condições. Muitos suportam viver pela metade para não arriscar viver sem nada.

mas eu (também) acho que o vazio é um meio de transporte.

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A questão é o quanto estamos dispostos a desfazer as pontes, a abrir as portas, a soltar as amarras do barco para deixar o cais. E depois dessa decisão, teremos de viver com a certeza de que deixamos alguém, deixamos e desfizemos planos, reconduzimos ao começo duas ou mais histórias. Tudo porque não fomos feitos para ficar, nem deveríamos querer ficar.

Esse poema de Mario Quintana é uma belíssima reflexão:

MONOTONIA

É segundo por segundo Que vai o tempo medindo Todas as coisas do mundo Num só tic-tac, em suma, Há tanta monotonia Que até a felicidade, Como goteira num balde, Cansa, aborrece, enfastia... E a própria dor - quem diria? - A própria dor acostuma. E vão se revezando, assim, Dia e noite, sol e bruma... E isto afinal não cansa? Já não há gosto e desgosto Quando é prevista a mudança. Ai que vida! Ainda bem que tudo acaba... Ai que vida tão cumprida... Se não houvesse a morte, Maria, Eu me matava!


Brian Lima

Formado em Administração, continuo aprendendo para me sentir vivo. Intenso não é só adjetivo, é condição. "Ninguém pode calar dentro em mim essa chama que não vai passar". [email protected] .
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