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Ler para Viver , Viver para Ler...

Mirian Gomes

Mãe, Advogada, Escritora e Apaixonada pela vida: simples assim

Clarice

A literatura é feita de paixão... Apaixonei-me por Clarice anos atrás. Quando buscava algo novo, empolgante e delicadamente profundo. Se com as outras fui mais longe, com Clarice fui mais fundo. Permiti que ela fizesse morada no âmago de minha existência.


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Sim, num mundo de tantas opções, não disfarço minha predileção pelas histórias contadas por mulheres. Algumas me encantaram por horas, outras por dias, e as mais interessantes estiveram ao meu lado, por longos períodos. Tão maravilhosamente complexas e genuínas, permitiram, nem que fosse por alguns instantes, uma viagem a lugares até então desconhecidos.

Simone me levou à França. Virgínia ao Farol. Cecília a uma Viagem poética. Com Lygia rodopiei numa Ciranda de Pedra. Rachel encantou-me com o brilho das Três Marias. Já Clarice permanece... Até hoje o relacionamento mais longínquo e fiel.

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Conheci Clarice enquanto perambulava, vendo o tempo passar, numa grande livraria da cidade. Como amantes da literatura que somos, frequentamos os mesmos lugares e, por isso, já ouvira algumas de suas histórias contadas amiúde, por quem não lhe tinha muito apreço. Hoje, confesso com certa vergonha, que preciso melhorar minhas fontes, afinal, somente os tolos não reconheceriam todo o seu esplendor. Apesar dos pesares e ignorando as maledicências, fui de coração aberto para conhecê-la um pouco mais e melhor.

Tomou-me de espanto já nas primeiras palavras... Impossível não resistir ao seu encanto direto, seu olhar profundo e, por vezes, misteriosamente distante. Solícita aceitou abrir-se em minha presença, mostrou-me sua face mais realista, contrária à personalidade intimista que lhe deu fama – e algumas críticas. Gostei do que vi. A conversa foi rolando, quase um monólogo. Ouvia em silêncio sua narrativa apaixonada, sobre uma moça qualquer, desprovida de encantos físicos e intelectuais. Não sou do tipo que rotula pessoas. Mas para a pobre, como Clarice me contou, até um rótulo seria um elogio, sinal de que alguém notou sua presença no mundo. Enquanto falava, um fiapo de minha blusa se desprendeu e saiu flutuando sem rumo. Naquele instante dei conta do que é ser um nada, algo sem valor ou utilidade. Um mísero fiapo que perambula levado pelo vento, incomodando enquanto passa e depois que repousa, nada semeia, vira sujeira. Entendi a moça e, a essa altura, já nutria por ela um misto de apreço e dó. Torcia por um desfecho feliz. Conforme a história desenrolava a felicidade se distanciava. Até que o último raio de esperança surgiu protagonizado por uma cartomante. Consegui imaginar um único sorriso estampado no rosto da pobre. Durou pouco, muito pouco. Em instantes tomei conhecimento do trágico e abrupto epílogo. Triste fim, para uma moça triste.

Se outra pessoa tivesse me contado tudo aquilo, não veria graça alguma – mesmo porque, o enredo nem de longe era engraçado -, mas vou além, talvez desistisse na metade. Quem fez tudo parecer encantador foi a Clarice. Até a desgraça em sua fala é suave, poética, transcorre entre a linha tênue do folhetim e do romance. Ah., como são belas suas palavras. Ao contrário de muitas outras, que me aventurei conhecer, não tinha nada de enfadonho e cansativo. Muitas serviram apenas para me ajudar na checagem mental da agenda da semana. Posso até lembrar o nome, mas não gravei uma palavra sequer.

Ao contrário da Clarice... Ela me prendeu. Poderia repetir tudo que disse. Não só gravei, como levei comigo cada palavra, tanto as doces quanto as amargas. Afinal, apesar do meu olhar apaixonado, sei que ela não perdoa. Crítica, não poupou adjetivos aos descrever a Rua do Acre. Olha, nesse instante, quase que o encanto esvaiu-se entre a xícara de café, que repousava sobre a mesa. Não que eu ame aquele lugar. Não é isso. Mas suas palavras foram cortantes. Vi uma face nova!

Passado o susto, até admirei a coragem. Gosto de mulheres audaciosas!

Aquela conversa terminou ali, no café da livraria, mas Clarice continuou na minha vida. Dormi mal naquela noite, meus pensamentos revezavam entre o olhar de Clarice e a pobre protagonista de nossa conversa. Não via a hora de raiar o dia. Madruguei em frente à livraria, contei os minutos até que as portas subiram e pude entrar. Esperei que o ambiente tomasse vida e pacientemente procurei Clarice...

Depois de andar a passos curtos por todo o ambiente, numa busca lenta e detalhada, finalmente a encontrei. Aguardava inerte entre as fileiras de livros. Meu coração disparou! Daquele dia em diante nunca mais a deixei. Ela acalma minh'alma, faz-me rir e sonhar. Sua eloquência afiada, direta e irônica... Enfim, a mulher na sua melhor expressão.

Por tudo isso, tornou-se minha companheira de todas as horas, em todos os lugares. Almoço com Clarice. Viajo com Clarice. Não me permito sair sem Clarice. Pena que no fim do dia, não ouço mais suas vozes. Repousa muda e silenciosa ao meu lado. Durmo, mas continuo sentindo sua indelével presença!

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Mirian Gomes

Mãe, Advogada, Escritora e Apaixonada pela vida: simples assim.
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