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Ler para Viver , Viver para Ler...

Mirian Gomes

Mãe, Advogada, Escritora e Apaixonada pela vida: simples assim

FELICIDADE A TODA PROVA

Todo dia acesso a internet e leio uma pesquisa sobre a fórmula da felicidade. Fresquinha, recém publicada por algum instituto, um portal, uma faculdade, um centro de pesquisas, ou seja lá o que for. A maioria começa com a seguinte frase: “Pesquisas comprovam...” Pelo menos no meu ponto de vista, 99% dessas pesquisas são de uma inutilidade tamanha, que às vezes penso que servem apenas para preencher a falta de assunto.


MARAU.png Foto: Alexandre Canavarro - Pousada Terraços Marinhos - Maraú/Brazil

Hoje li que relacionamento extraconjugal é a chave para a felicidade. Merece comentário? Não, deixa pra lá. Já outras “pesquisas comprovam” que os homens que lavam louça são mais felizes, que uma taça de vinho faz o mesmo efeito que uma hora de exercício, que café faz mal, mas também pode fazer bem, que dormir emagrece, já, dormir na rede é ainda mais benéfico para à saúde, assim como dormir pelado (neste último caso a pesquisa não esclareceu se era na cama, no sofá, na rede ou na relva).

Enfim, não são raras as vezes que me pergunto: “quem se dispõe para pesquisar esse tipo de coisa?” No fundo, vivemos na era da insegurança da informação. Daí a pergunta seguinte: diante de tantas pesquisas e com resultados tão contrastantes, quem poderia confiar categoricamente na perenidade dos resultados? Questionamentos à parte, eu prefiro pesquisar no limite do meu mundo, da minha realidade. Se o café faz bem ou mal à saúde, pesquisas já comprovaram os dois, importa, todavia, que sem uma xícara de café para iniciar meu dia, o risco de eu fazer mal à saúde de alguém é alto. Meu mau humor já foi empiricamente comprovado sem a cafeína diurna, sendo assim, para mim faz bem e pronto!

Já quanto aos homens lavando louça, tenho minhas dúvidas quanto à credibilidade dessa pesquisa. Homem é um ser que, se cozinhar não lava louça, se lavar louça não cozinha. Na limitada habilidade deles para múltiplas tarefas, cabe às mulheres definirem qual a ajuda mais necessária. Algumas mulheres terão predileção ao cozinhar, afinal, já existe máquina pra lavar louça. Agora, dizer que os homens que lavam louças são mais felizes me parece uma abstração. Provavelmente, essa pesquisa foi encabeçada por uma mulher que precisava convencer o marido para ajudá-la com a louça, ou, o que me parece mais certeiro, um homem, cansado de ouvir a mulher falando ao seu ouvido sobre sua folgada atitude de comer e já se esparramar no sofá, decidiu ajudá-la na cozinha. A felicidade, nesse caso, deve ser vista com ressalvas.

As pesquisas já comprovaram que a mulher fala mais do que o homem, falta demonstrar que eles, na maioria, não estão preparados e dispostos a ouvi-la. A mudança desse padrão traria felicidade aos dois e economizaria muitos outros estudos.

Agora, dormir... Ah, precisa de pesquisa para comprovar o quanto é bom dormir? Já diz um ditado que, quando se tem sono, toda cama é boa. Então, seja na rede, no sofá, no chão, na cadeira, no auditório lotado à meia luz durante uma apresentação, no cinema (esse sono é revigorante), no trem, no ônibus, no avião... Bem, dormir é o presente dos deuses para recompor a experiência da vida. O que traz felicidade não é onde e como se dorme, mas com quem se dorme. Sozinho, por vezes, é mais do que necessário, acompanhado, todavia, é vital. Nascemos de dentro de um corpo, e, antes mesmo de chorar, falar, andar, nós já aprendemos a gostar de dividir espaço com outros corpos. Não viemos do ovo, mas de um útero acolhedoramente materno. Por isso, o contato físico traz felicidade, sem necessidade de comprovação científica.

Por fim, mas não menos importante, é a tal pesquisa sobre as benesses da taça de vinho. Neste caso, podemos listar uma série de benefícios à saúde. Tudo graças ao resveratrol, um potente antioxidante. Mas, se as pesquisas se aprofundassem um pouco mais, descobririam que existe um elo indissociável entre esses elementos todos que acabamos de comentar: dormir, lavar louça, tomar vinho e beber café. Bastaria uma única experiência, bem planejada, para perceber a sinergia entre eles.

Para tanto, proponho o seguinte experimento:

Acompanhe um casal, casado há longa data e com filhos. Atenção: o foco da pesquisa é analisar a felicidade na relação homem e mulher, deixando de lado a questão familiar. Vamos definir como causa da felicidade, uma noite de amor entre um casal de pessoas casadas.

Todos sabem que depois de muito tempo casados, marido e esposa têm muita dificuldade em manter uma relação alheia às obrigações do dia-a-dia. A felicidade passa a ser conceituada por sinônimos: maternidade, paternidade, propriedades, etc. e tal. Então, nas raras oportunidades que conseguem um tempo a dois, o que para muitos seria corriqueiro, para o casal, são detalhes cruciais, que devem ser minuciosamente observados para que a empreitada vingue.

Pois bem, para ajudar na disposição e afugentar os pensamentos cotidianos, propomos uma taça de vinho (ou mais), precedida de um jantar – a dois. Neste caso, a fim de agilizar e facilitar a logística toda, melhor que aconteça em casa. Pois bem, depois do jantar, um homem experiente se propõe a ajudar na arrumação da cozinha. A intenção aqui é agradar a esposa e deixá-la ainda mais animada, – neste caso, lave a louça. Já devidamente dispostos, seguem para a cama ou, dependendo do período de abstinência sexual, satisfazem o desejo ali mesmo na cozinha – ressalvas feitas se as crianças estão na casa ou não. Caso estejam, sigam para o quarto e tranquem a porta.

Por fim, depois de uma transa homérica – que neste caso seria de no máximo 30 minutos e cuidadosamente silenciosa – os dois, exaustos, mas, indiscutivelmente, felizes adormecem. Claro, não sem antes tomar banho, colocar as roupas (o experimento de dormir pelado fica para a próxima pesquisa) e destrancar a porta. No dia seguinte, nada com uma boa xícara de café preto para recompor a ressaca.

Em suma, da análise da situação acima descrita, o vinho, a ajuda com as tarefas domésticas e dormir, podem não ser a fórmula da felicidade, mas que resultam nela, ah, isso será definitivamente provado!


Mirian Gomes

Mãe, Advogada, Escritora e Apaixonada pela vida: simples assim.
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