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Ler para Viver , Viver para Ler...

Mirian Gomes

Mãe, Advogada, Escritora e Apaixonada pela vida: simples assim

O homem dos meus sonhos

Quem não teve uma "paixonite" de cinema na juventude, hein?

Como toda adolescente, porém, sofria a dúvida de não saber qual dos garotos mais me atraía. Hoje percebo que aquilo tudo só funcionava em conjunto, com a imagem de todos milimetricamente sincronizados na coreografia de “Não se Reprima”. Fã delirante, decorei as músicas, as coreografias, comprei as camisetas sobrepostas, usei faixa na testa (coisa mais ridícula) e, como resultado de tanta dedicação repeti o ano escolar.


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Enquanto o carro trafegava a menos de 10 km por hora, seguindo o fluxo moroso do trânsito paulistano, desviei a atenção para o rapaz que, despretensiosamente, descia a rua e vez e outra passava as mãos pelos longos cabelos loiros, que terminavam um pouco acima da nuca. Uma beleza peculiar, um charme jovial, rebelde, do tipo que já me rendeu suspiros e sonhos no passado.

Na adolescência esse rapaz passaria despercebido. Velho demais, ousado demais, loiro demais, vai saber. Naquela época meu gosto girava em torno de um modelo mais pueril, colorido e múltiplo, chamado Menudo. Como toda adolescente, porém, sofria a dúvida de não saber qual dos garotos mais me atraía. Hoje percebo que aquilo tudo só funcionava em conjunto, com a imagem de todos milimetricamente sincronizados na coreografia de “Não se Reprima”. Fã delirante, decorei as músicas, as coreografias, comprei as camisetas sobrepostas, usei faixa na testa (coisa mais ridícula) e, como resultado de tanta dedicação repeti o ano escolar.

Para mim era o fim do If you are not here (by my side).

Passada a visceral fase boy-band porto-riquenha, comecei a suspirar pelo jovem loiro que semana sim, semana não estava na Sessão da Tarde Andrew McCarthy - o mocinho dos filmes de John Hughes.

Um dia, não sei como, nem quando, a coisa ficou mais séria. Bye bye Sessão da Tarde. Agora tínhamos VHS e uma “infinidade” de títulos disponíveis para locação. Foi numa dessas idas à locadora que conheci o olhar enigmático de Richard Gere. O filme A Força do Destino, me fez abandonar todo o conceito de contos de fadas de John Hughes e acreditar que o homem perfeito, escondia suas imperfeições sob a farda branca da Marinha Americana.

Segui feliz.

Tudo caminhava bem e eu acreditava piamente que havia estabelecido um “padrão” de homem perfeito. Bastou um F14 sobrevoar as telas do cinema para minha cabeça pirar: Seria verdade que os melhores perfumes estão nos pequenos frascos? Assisti uma, duas, três... dez vezes Top Gun e tive certeza: ninguém era páreo para Tom Cruise sem camisa e de calça jeans (?) jogando vôlei na praia.

Eufórica, comprei LP, camiseta, dancei Take My Breath Away com rosto colado, concentrada nos dois passos pra lá e dois pra cá... Numa matinê de domingo, debulhei-me em lágrimas ao som de The Final Countdown. Uma singela homenagem ao colega da 6ª série que havia falecido num trágico e estúpido acidente de moto. Um amor até então platônico que o destino cuidou de tornar impossível.

Pois bem, a música, o filme, o destino, a calça bag e as regatas, tudo, tudo indicava que ali era minha praia.

De repente, não mais que de repente um rapaz alto, loiro, forte, lindo (poderia escrever lindo até o final desse texto), sério (esse tipo sempre me atraiu) e ainda por cima dançarino aparece para desestruturar minha insólita certeza. Quem era aquele que além de dançar, andar com um gingado só dele, ainda tinha paciência para ensinar a mocinha (sem graça) a rodopiar e voar pelo salão? Patrick Swayze – esse era o cara! Dançou, surfou, lutou... Parou tudo e tornou-se eternamente responsável por ter me cativado. Foram 03 anos firmes, decididos e felizes...

Certo dia, porém, a tentação bateu à minha porta, ou melhor, emergiu das escadas rolantes de um shopping com uma rosa vermelha nas mãos, recaída total. Invejei a tal prostituta em toda a sua irritante magreza e deselegância. Só cabia a mim o título de “Uma linda Mulher”.

Definitivamente era ele. Tomei rumo e me mantive firme. Sequer dei ouvidos às maledicências que rondavam seu nome. Mas não é que ele sumiu? Na contramão da fama raramente aparecia, entrou numa pegada Tibetana e fugiu dos holofotes. Ficou difícil de encontrá-lo e cada vez que o via, os anos já tinham transformado tudo aquilo que considerava bonito.

Ah os anos... Esses foram cruéis com o Richard, com o Tom, com o Patrick... Enfim, com todos nós. Serviram, todavia, para revisar meu controle de qualidade. Para me fazer enxergar que o padrão do mundo real é outro e não dá para se apaixonar em 90 minutos (ou dá?).

Nessas idas e vindas, tentativas e acertos, em algum lugar do passado, desisti de padronizar meu gosto e posso arriscar que meu tipo de homem é aquele que consegue desviar meu foco do momento presente, da minha vida rotineira, cheia de obrigações, e me leva a lugares, que nem as telas dos cinemas conseguiram me levar.


Mirian Gomes

Mãe, Advogada, Escritora e Apaixonada pela vida: simples assim.
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