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Ler para Viver , Viver para Ler...

Mirian Gomes

Mãe, Advogada, Escritora e Apaixonada pela vida: simples assim

A arte de enxergar

Quando foi que deixamos de olhar para o mundo? Não, quando foi que deixamos de olhar para frente, para os lados e ver a vida passar diante dos nossos olhos?


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Houve um tempo em que as pessoas olhavam o mundo através dos livros. Sabiam dos acontecimentos através das cartas. Conheciam pessoas através de pinturas. Nessa época quando a distância e o tempo conspiravam contra, a realidade era do tamanho da imaginação de cada um.

Quem não olhou para as curvas abstratas de Saint-Exupéry e, antes que a explicação viesse, não viu ali um chapéu de cowboy? Àquela altura já estávamos por demais condicionados para conseguir enxergar o que o autor pretendia nos mostrar. Quando o segredo é revelado, vem o encanto.

É paixão à primeira vista. Já na segunda página, começamos a desejar um livro mágico, que nunca acabe. Queríamos saber mais. Ver mais desenhos. Avistar de perto o campo de trigo, enxugar as lágrimas do principezinho diante do jardim de rosas e, por fim, não permitir nunca que ele se aproximasse da serpente.

Ah., atire a primeira pedra quem não desejou uma continuação... Quem não quis saber como foi regressar ao asteróide B 612 e reencontrar a rosa – se é que o carneiro não a comeu.

O principezinho nos encanta porque enxerga e ouve. Porque vive o momento presente até dele se esgotar. Porque suga o conhecimento da vida. Não aceita as explicações simples, vai a fundo. Reconhece a beleza da conquista, da recompensa vinda do esforço. Porque na contramão da modernidade, não trocaria a sensação de matar a sede bebendo a água que jorra na fonte, para desfrutar do ócio.

Quando foi que deixamos de olhar para o mundo? Não, quando foi que deixamos de olhar para frente, para os lados e ver a vida passar diante dos nossos olhos?

Por que os ausentes interessam mais do que os presentes? Por que experimentar momentos sublimes através da câmera de um celular? A raposa passa ao nosso lado, mas estamos focados demais no intangível que não conseguimos identificá-la. Não lamente que as relações estejam fluidas demais. Deixamos de cativar e ser cativado para curtir e ser curtido. Para que se dedicar a uma rosa, se podemos cultivar um jardim? De certo, é mais fácil despender uma atenção superficial a muitos, do que dedicar-se de corpo e alma a um só.

Enfim, se não bastasse tudo que o principezinho insiste em nos mostrar, para os mais atentos Saint-Exupéry sintetizou nosso dilema já na dedicatória do livro, afinal, seríamos pessoas melhores, se lembrássemos que todos um dia fomos crianças.

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Mirian Gomes

Mãe, Advogada, Escritora e Apaixonada pela vida: simples assim.
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