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Ler para Viver , Viver para Ler...

Mirian Gomes

Mãe, Advogada, Escritora e Apaixonada pela vida: simples assim

Conversa de Caboclo

Besteira. Nessa de tentar viver esse amor, fui fazendo filho pelo mundo. Se das mães não sei os nomes, os filhos trago no reio. Filho é sangue misturado, mas não deixa de ser sangue. Por isso, dei ordem desde cedo pra tudo largar a enxada e sentir o peso da caneta. Uns ouviram, outros não. Fazer o quê? Nesse fim de mundo, a enxada pesa menos e tem mais utilidade.


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Sim senhora, quando nasci tudo isso aqui era mata. Nossa casa de sapê nem cama tinha. O chão batido aconchegava as costas e embalava o sono, até o dia que mainha ganhou da patroa uma rede. Aquilo era sonho antigo, pena que num cabia todo mundo. Era bom demais, mas como tudo que é bom dá briga. Depois daquele pano, ninguém queria mais chão. A esteira de palha que até então era luxo, ficou encostada.

A senhora sabe que o mais engraçado é que pai e mãe, ao invés de nós, não fizeram muito gosto. E a senhora sabe por que? Porque num cabia dois. Se não dava pros dois dormir, não era bom. Aqueles dois eram um grude só. Acho que por isso fizeram quatorze filhos. Vivo hoje só dez! Mas eles se gostavam. Nunca vi nada assim nessa vida e olha que procurei.

Cada rabo de saia que aparecia, eu pensava em sentir o que aqueles dois sentiam... Besteira. Nessa de tentar sentir, fui fazendo filho pelo mundo. Se das mães não sei os nomes, os filhos trago no reio. Filho é sangue misturado, mas não deixa de ser sangue. Por isso, dei ordem desde cedo pra tudo largar a enxada e sentir o peso da caneta. Uns ouviram, outros não. Fazer o quê? Nesse fim de mundo, a enxada pesa menos e tem mais utilidade. Mas Reginaldo... Ah., esse menino faz meu olho brilhar. Nunca quis saber da lida no campo. Sempre foi mais manso, sabe? Os irmãos terminaram o primário e Nadinho – aqui todo mundo conhece ele por Nadinho - seguiu sozinho.

Acordava cedo, nunca ninguém se avexou em chamá-lo, nem fez chiada de pular da cama antes do sol. Ele mesmo aprontava suas coisas e ia pra frente da porteira e ali ficava, por horas, esperando a charrete passar. Tinha dia que saia debaixo dum pé d’água que dava dó. Mesmo assim foi adiante. Cabra valente esse menino, acho que esse tomou tenência na vida na hora que mãe pariu. Bicho solto, atirado. Terminou o primeiro grau, depois cursou o colegial numa escola mais longe ainda e agora moço, está terminando a faculdade. Sabe o que é isso pra um matuto feito eu? É aquele tipo de coisa que a gente vê na televisão, mas acha que com a gente nunca vai acontecer. Ele mora na capital, cursa um negócio chamado ciência da computação. Num me pergunte o que é, num sei dizer, só sei que mexe com máquina. Não máquina de roça, não senhora, máquina que pensa. Não disse que o cabra é da peste? Pois então!

Ôxe, sim, se trabalha. Desde que chegou à capital tratou de arrumar emprego, fez um monte de outros cursos, até falar inglês o garoto fala, acredita? Tá pra nascer menino tão esforçado. A senhora não tem ideia de quanta lama ele amassou até chegar lá. Ia pra escola de chinelo de dedo, levava o calçado na mochila pra não estragar. Até porque só tinha um. Quantas vezes esse menino teve de desatolar a charrete ou então, seguir parte do caminho a pé e ainda sobrava vontade pra assuntar na aula. Agora chegou o ônibus escolar, mas naquela época... Nem caminhão, nem carro, nem ônibus passavam por essas bandas. Isso aqui sempre foi terra abençoada por Deus, mas esquecida pelos homens. Hoje tem muito turista que vem pra cá. Descobriram esse lugar. Num foi de todo mal, trouxe emprego pra muita gente. A mãe de Nadinho foi trabalhar pra um pessoal que veio de São Paulo, isso quando o menino tinha 04 anos. Virou a cabeça, ficou doida. Quando eles voltaram, ela foi junto. Aquela sempre foi lesada, à toa. Nunca mais deu notícia. Eu criei Nadinho sozinho. Olhe, no começo foi difícil, fiquei virado no cão, mas filho meu tem pai e cuidei desse menino como pude.

Não, não senhora. Aquele ali não quer saber de namorar. O negócio dele é estudar. Nunca vi com mulher alguma, diz que não tem tempo pra rabo de saia. Vez e outra vem me visitar e traz o melhor amigo com ele. Um rapaz bem apessoado, educado, um pouco mais velho. Os dois dividem apartamento junto na Capital, são unha e carne faz anos. É assim, onde tá Nadinho tá Joaquim também. Sabe que Joaquim trabalha numa empresa estrangeira, ganha bem, meu filho disse que os dois tão pensando em comprar um apartamento juntos. Coisa chique, de frente pro mar. Tão guardando dinheiro, meu filho confia nele. Se fosse mulher eu diria pra desconfiar, até hoje não tive uma pra fazer pé de meia junto. Todas só me deram é despesa.

Já, sim senhora. Ano passado eles me convidaram e fui passar uns dias lá na capital. Foi a primeira vez que andei de elevador. Digo aqui pra senhora, fiquei agoniado, não via a hora de sair daquela caixa. Depois a gente acostuma. Ôxe se não!

O apartamento é bonito, mas pequeno. Coisa moderna, só tem um quarto, a cozinha fica grudada na sala, não tem parede que separe, todo mundo fica junto, até a cama é uma só. Gigante, nunca vi nada igual, cabem uns quatro, com folga. Se estranhei? Quem sou eu pra falar se isso é bom ou ruim. Importa é que eles estão bem instalados e felizes, não é? Se fosse há uns anos atrás ia ficar cabreiro. Mas esse menino me ensinou que amor de verdade é aquele que não mede esforço pra tá com a gente. Então, como eu disse pra senhora, e não canso de repetir: esse meu menino é cabra corajoso, me enche de orgulho!


Mirian Gomes

Mãe, Advogada, Escritora e Apaixonada pela vida: simples assim.
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