felipe moitta

Reflexões, pensamentos e um convite à toda troca construtiva

Felipe Moitta

Felipe Moitta, Consultor de Gestão e Desenvolvimento Pessoal.

Sobre assédios, racismo e minhas amigas

Coisas bonitas estão acontecendo, como a campanha #meuprimeiroassedio e outras que estão surgindo. Não é só uma modinha. Tem valor. Tem fundamento. Tem que vir.


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Tenho achado incrível ler as histórias do primeiro assédio das minhas amigas e conhecidas. Não apenas pois isso me mostra uma realidade para a qual eu era apenas marginalmente consciente, mas pela coragem de se expor dessa forma. Admiro e acho absolutamente necessário.

Sou branco, homem, heterossexual, nascido numa família de classe média alta e creio que nunca sofri de um preconceito real. Minhas únicas e risíveis experiências foram quando fiz intercâmbio pra Alemanha, com 15 anos, e alguém me tratou de uma forma estranha achando que eu era turco (eu tinha a pele um pouco mais escura que a média e falava com um sotaque estranho). Mas assim que a pessoa descobriu que eu era brasileiro e estava viajando, mudou totalmente de atitude. Isso e algum preconceito de idade, não ser levado a serio por ser novo demais (ou aparentar ser). É tão ridículo que deveria ter outra palavra que não preconceito. Talvez um pequeno desconforto.

No entanto acho que a opinião de alguém que não vive a coisa tem também seu valor. O distanciamento emocional facilita uma imparcialidade, pro bem ou pro mal. Me soa absurdo que abusos tão agressivos como assédios tenham uma incidência tão grande. Sempre soube que existiam, mas assim como existem assassinos de aluguel ou chefões da mafia se reunindo em algum lugar. É algo que existe, sim, mas pra mim era a excessão da excessão.

Meu priminho que mora no Paraná outro dia nos visitando perguntou aonde estava a tia marrom. Não entendemos até alguém perceber que era a Naia, a empregada da minha avó, que é negra. Ele tem 4 anos e nos poucos ciclos em que convive acho que não tem nenhum negro. Assim achou curiosa aquela pessoa de pele marrom. Isso é o oposto do pré-conceito. Pela idade e inocência ele de fato não tinha nenhum conceito pré-definido a respeito daquela pessoa. O oposto da maioria. E o que mais me incomoda é perceber o quanto deles estão profundamente enraizados na nossa cultura.

Temos toda uma estrutura predial de forma a ter elevadores separados pra criadagem, os prestadores de serviço. Atualmente se justifica por questões de segurança e higiene, pois o elevador de serviço é também o de banhistas e entregadores. Mas o contexto no qual ele surgiu é outro. Assim como todo apartamento tem um quartinho perto da cozinha. E é um quarto que nem é contabilizado na contagem de quartos da casa. “Essa casa tem 4 quartos, mais o de empregada”. O que dizer de seu ocupante? Será ele ou ela igualmente invisível? Nossa própria gramática favorece o homem, sendo o padrão o artigo masculino. Exceto talvez nos casos em que se refere a certos serviços - presume-se que a pessoa que venha a ocupar o tal quartinho seja mulher. Ai a norma é tratar no feminino mesmo. E com uma frequência maior que gostaríamos de admitir a norma nem é tratar, mas destratar.

O que mais machuca é perceber que em tantas vezes dei continuidade a diversos preconceitos. Conscientemente ou não. E acho bonito ler os casos, pois me mostram quão mais próximos eles estão. Sempre estiveram ali, só que estavam escondidos. Escondidos pela vergonha, pela máscara da hipocrisia, pelo medo. E assim como eu, tantos outros vivem alheios a esse mundo. E mesmo quem sofre de um tipo de preconceito pode precisar de um empurrãozinho pra ficar atento aos demais. É uma forma de ver o outro. Tão simples e tão difícil ao mesmo tempo. Se colocar no lugar do outro é algo que nunca foi intuitivo pra mim, como é pra tantas pessoas, mas um exercício que faz toda a diferença.

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Agradeço a todas e todos que compartilharam de alguma forma suas histórias, se abrindo e se permitindo conhecer um pouco mais. É um pequeno passo, mas, apesar de clichê, toda grande caminhada é composta de pequenos passos. Um atrás do outro.


Felipe Moitta

Felipe Moitta, Consultor de Gestão e Desenvolvimento Pessoal. .
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