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Reflexões, pensamentos e um convite à toda troca construtiva

Felipe Moitta

Felipe Moitta, Consultor de Gestão e Desenvolvimento Pessoal.

Sobre Não Mentir

O quanto você mente? Pequenas mentiras, mentiras brancas...apenas para agradar, essas podem, né? Qual o ganho de não mentir?


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Poucos momentos tiveram um impacto tão grande, e imprevisto, em minha vida como o momento em que decidi fazer um voto de não mentir. Após esse momento, qualquer pequena mentira ganha uma proporção épica, pois você não só está mentindo, o que por si só, no fundo, já gerava algum incômodo, mas está quebrando um voto.

Nunca me considerei um grande mentiroso, pelo contrário, apesar de não pensar muito no assunto, acho que se me perguntassem, antes disso, eu me diria acima da média em termos de honestidade. Uma mentira aqui ou ali, sim, mas nada grande. Fazer o voto me fez, imediatamente, perceber o quanto eu mentia. Não que eu mentisse muito, pelo contrário...mas, ainda assim, mais do que eu teria imaginado. Mas, mais do que a quantidade, o que me espantou foram os motivos. A grande maioria era por motivos completamente desnecessários, e tantas outras eram simplesmente uma pior escolha do que dizer a verdade. Ou por puro hábito. E quantas mentiras, também, não geravam o efeito contrário?

Em poucas semanas, o processo que se deu foi mais ou menos assim: no início, eu mentia. E, pouco depois, percebia o que tinha feito. Irritava-me e refletia no motivo pelo qual eu havia mentido naquele caso, e qual seria a opção, o que deveria ter falado. Gradualmente, o tempo entre a mentira e a percepção foi diminuindo. Às vezes, percebia segundos depois, e comecei a me forçar a corrigir, voltar atrás, me desculpar e falar a verdade. Eventualmente, esse tempo chegou a zero, quando eu me peguei ficando consciente no exato momento, na iminência de mentir.

Uma opção que tive que seguir, muitas vezes, foi o silêncio. Até hoje, se não tenho nada real para falar, o silêncio é sempre uma boa escolha. Mas, houve um período de ajuste, de ir testando os limites e ver onde quero de fato estar. Tive períodos de longos silêncios, falando bem pouco.

Outro extremo foi ser desagradável pela desculpa de não mentir. Então, falar que não gosto de alguém na cara, e coisas do tipo, era um tipo de atitude que eu me forçava a ter, mas mais para frente, percebi que estava racionalizando outras vontades. É impossível falar tudo que se pensa, pois pensamos muito mais palavras por minuto do que somos capazes de falar. E curiosamente esse meu zelo pela verdade existia para falar mal de alguém, mas não estava tão afiado na hora de me abrir emocionalmente, especialmente com pessoas menos íntimas.

O não mentir é uma regra boa por ser prática, fácil de seguir no dia-a-dia, não requer muita interpretação, mas o objetivo é maior, é ser honesto, autêntico. É mostrar-me como sou, para os outros e para mim. É, certamente, parte de me auto-conhecer, e me aceitar. Na caminhada, vi o quanto eu inventava coisas que não lembrava, mas tinha a sensação de estar certo. Simplesmente inventava dados, pois eu tinha uma conclusão, e queria que a pessoa chegasse a ela, mas às vezes, meus argumentos não eram suficientes, então eu criava um. Isso foi me mostrando o quanto, muitas vezes, quem tinha que rever a conclusão era eu, e não ficar irritado com o fato de o outro não ter aceitado essa conclusão como você.

Somos emocionalmente apegados às nossas opiniões e, mais ainda, à realidade de quão pouco racional ela é, ou quanto à sua fragilidade real. É uma das nossas grandes parcialidades. Meu pai me perguntou outro dia se existia o aplicativo do Gmail pro Ipad 1. Eu disse que sim. Ele fez uma cara meio descrente, e na hora eu me incomodei com isso e meu instinto foi de reforçar minha primeira afirmação. Porque eu não sei exatamente, mas essa é a vontade. A verdade é que eu não tinha certeza, mas me parecia fazer sentido que sim. Como não existir o app? Não fazia sentido. E esse universo de aplicativos e celulares é algo com o qual convivo bastante, admitir não saber, é admitir ter um conhecimento menor do que eu tenho. Mais do que isso, diz sobre o meu processo mental. Se me perguntam se eu tenho uma cama, o processo mental é visualizar a minha cama, há uma sensação e a resposta: sim. Só que, às vezes, essa visualização é imaginada. Mas, tão bem imaginada que me engana, que encaixa. Admitir o erro é admitir uma falha num processo, um que uso o tempo todo, e que é muito custoso passar a duvidar dele, é certamente fora da zona de conforto. E o inconsciente, ou algo assim, luta para evitar isso, para preservar esse ‘status quo’.

Essa nova regra (não mentir) me ajuda a corrigir, ou olhar para isso quando é necessário. No caso, eu já evito o erro antes, dizendo “eu acho que sim”, ao invés de “sim”. E antes de falar, já aceitei a hipótese de estar errado, e isso faz toda a diferença. Mudar o significado de estar errado, especialmente quando ele não era exatamente consciente, de “se errei eu sou um merda”, para “legal, aprendi algo novo, agora sei mais que antes” fez uma enorme diferença. A mentira é o grande atalho que pegamos para diminuir a distância entre quem sou e quem quero ser. Nesse caso, o 'quem quero ser' é para os outros. Exceto quando minto para mim também.

Os longos silêncios tiveram vários ganhos secundários, também. Mas, o maior deles foi a organização do pensamento. Muitas veze, para não mentir e continuar tendo as conversas que queria, eu tinha que me forçar a lembrar de detalhes que antes simplesmente não pensava, comecei a ser bem mais específico, mais exato. Percebi como minha memória melhorou depois disso. Em diversos casos fui pesquisar, reler ou buscar a fonte de algo que falei numa conversa, mas não lembrava exatamente.

E outro ganho que eu realmente não esperava foi o da tranquilidade constante. Acho que assim como o peixe que nunca percebeu a água, pois viveu sempre nela, só percebi a ausência da ansiedade e o desconforto que mentir causam quando consegui parar (ou diminuir muito). Uma tranquilidade constante ao ser questionado ou de retomar pontos de conversas anteriores, algo como um “não ter nada a temer”. São coisas pequenas, nada dramático como um criminoso que agora leva uma vida honesta, mas muito maior do que eu imaginaria.

Há uma certa exaustão mental em mentir, ficar criando o que vai ser dito, validando se isso é verossímil, falando e tendo que manter um registro mental para depois, tudo feito semi-automaticamente e em segundos, mas ainda assim fatigante. Nunca tinha me dado conta do impacto que isso tinha até ficar sem. Assim como um zumbido constante que você se acostuma, e nem percebe mais, até ele parar e você perceber o quão mais agradável é o silêncio. É a mesma coisa.

Uma maior clareza mental acho que veio, em grande medida, da combinação do exercício de memória, de tentar ser mais preciso, junto com mais silêncio - que facilita a reflexão e a organização dos pensamentos. Algo como criar um ambiente mais propício na sua mente. Além do hábito de falar a verdade, se confrontar com o que não gosta sem o atalho da mentira. Se estou atrasado e você me liga, sou forçado a ter essa conversa, a correr o risco de te magoar, pois você acha que não me importo com você. E sou forçado a ver se, de fato, não me importo, ou se realmente está na hora de mudar, pois não vale a pena passar por isso. Todas as opções geram ou um crescimento ou um aprofundamento - coisas que muito valorizo, e que ficariam intocadas no caso de uma mentira. Aceitar a realidade é um exercício constante.


Felipe Moitta

Felipe Moitta, Consultor de Gestão e Desenvolvimento Pessoal. .
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