felipe moitta

Reflexões, pensamentos e um convite à toda troca construtiva

Felipe Moitta

Felipe Moitta, Consultor de Gestão e Desenvolvimento Pessoal.

Bicho Papão

Sobre o meu medo do infinito.


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Spoiler alert: Esse texto é um pouco diferente dos outros, mais melancólico e com o potencial de te deixar pra baixo. Leia por sua conta e risco.

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Nos livros do Harry Potter existe um bicho papão, uma criatura que tem a curiosa capacidade de se transformar instantaneamente no nosso maior medo. Acho bem interessante esse conceito. Fiquei um tempo pensando em qual era o meu maior medo.

Talvez ele tenha mudado com o tempo, certamente já houveram alguns que me incomodaram mais nesse ou naquele momento de vida. Mas, sinceramente, meu maior medo é o infinito. Esse conceito abstrato, essa ideia que está além, muito além da minha razão, talvez e ironicamente, esteja infinitamente distante da minha capacidade de compreendê-la.

Não apenas que não compreendo o universo ser infinito, mas o tempo, e mais precisamente, a minha - a nossa - existência nele. O que é existir ou deixar de existir?

Se os ateus estão certos, vivemos uma vida e pronto, passamos a ser nada, e isso é de uma tristeza ímpar. Pensar que tudo que fui ou vivi foi só isso, que será pra sempre perdido, que nunca vou aprender o que não aprendi, que nunca vou viver o que não vivi, que existe tanta dor e tristeza no mundo, tanta injustiça. E tanta felicidade também, sim, mas tudo se empalidece quando expandimos os horizontes mais e mais. Se a vida segue, infinitamente, qual a diferença?

Estamos fadados a existir.

Mesmo que num ciclo de renascimento e morte e renascimento, e mesmo que existam ainda outros planos depois que alcançarmos níveis mais alto, o que quer que isso signifique, ainda estamos fadados a existir. Centenas de anos, milhares, milhões. Tem noção do que pode ser isso? Nem eu, é demais pra nós. Se ficamos perdendo e recuperando a memória, ainda assim, cada vida passa a ser só mais uma. O seu maior amor nessa vida fica como o melhor dia de um mês quando você tinha 5 anos, mal se lembra, na hora foi agradável, mas tanto mais aconteceu que aquilo torna-se insignificante.. Não importa o que de fato vai vir a acontecer, nós estamos fadados a existir, e essa noção de que estamos ai pra sempre, isso me amedronta. Ou a ideia de que vamos deixar de existir, seja pois existe de fato um fim, seja porque nos fundimos e unimos a algo maior, mas tão maior que somos menos que uma gota num oceano, e por definição, também deixamos de existir.

Não é um medo egoico de perder o meu “eu”, não é que sou tão apegado às minhas memórias e identidade que tenho medo de me perder. É outra coisa, uma tristeza em saber que o caminho é esse e tem que ser seguido, não tem escapatória, e por mais que ele possa ser lindo, incrivelmente lindo e com amor e tanta coisa boa, ele tem que ser seguido. Pra sempre, seja pra onde nos levar. Não é também pura e simplesmente um medo do desconhecido, são quase-momentos em que eu sinto que esbarrei num entendimento, algo claramente além da minha capacidade intelectual, mas os esbarrões me provocam diversas sensações, e refletindo em alguns momentos, percebo esse medo, e depois uma aceitação, uma tristeza, que pode se tornar mais suave, pois também estou ciente das belezas e coisas boas.

Enquanto, brevemente, exploro esse assunto, percebo diversas rotas de escape, saídas de emergência. "Sim, a vida é isso, então melhor é aproveitar o agora e ..." Ou então versões mais misteriosas, tipo "quando chegar a hora compreenderemos os planos divinos ..." e tantas variações. Nenhuma resiste a uma investigação mais honesta, e a única resposta é que de fato não sabemos, não temos como saber, e essa é a condição humana.

A saída final é o pragmatismo, o que não tem solução, solucionado está. E logo volto a me preocupar com os clientes e compras a fazer, e o aniversário do amigo ou a viagem, o workshop e os livros pra ler, mas de vez em quando esse meu bicho papão mostra a sua cara, e me sinto mais solitário, um tanto melancólico. Sei que não tem solução, e o que qualquer um pode me dizer é uma mera tentativa, pois esse entendimento está além de nós, as respostas, se é que existem, estão além. Tenho que me conformar. Seguimos vivendo, sim, buscando o melhor, é claro.

Perdoe-me se essa minha reflexão te fez sentir mal ou desconfortável de qualquer forma, não era mesmo a minha intenção. Queria me abrir, falar de uma vulnerabilidade, de um medo, e isso era o que tinha de mais profundo e, agora, aqui está.


Felipe Moitta

Felipe Moitta, Consultor de Gestão e Desenvolvimento Pessoal. .
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