felipe moitta

Reflexões, pensamentos e um convite à toda troca construtiva

Felipe Moitta

Felipe Moitta, Consultor de Gestão e Desenvolvimento Pessoal.

Eu queria um desse, só que verde, tem?

Quantas vezes não sofremos por tentar mudar as coisas "só um pouquinho"? Lutando pra adequar a realidade à nossa imaginação...
Acho que vezes demais.


IMG_2829.JPGEssa foto tirei do chão em Milão, na Itália. Achei ele lindo assim, do jeito que estava.

Se a vida fosse um restaurante, ela seria menos uma versão do “monte seu próprio prato” e mais do tipo com combos e pacotes fechados. Muita infelicidade vêm de pessoas que compraram um combo, queriam o hamburger mas não a batata, ou era só trocar a bebida.. Quantas brigas nos relacionamentos não tem como base um querendo mudar o outro, querendo que ele ou ela seja um pouquinho mais assim, um pouquinho menos assado.. Por isso os combos. O que temos são pacotes, é tudo ou nada, não dá pra mudar, pra adaptar. Quer dizer, até dá, mas esteja consciente do trabalho, de que o outro também tem que querer e mesmo assim esteja consciente de como o pacote vêm, que pode ser que demore até mudar.

Pra cada pessoa no planeta existem dois mundos. Aquele lá de fora, que já existia antes de você chegar e que continuará existindo depois que você se for. E existe o mundo interno, o seu mundo, um que só existe porque você existe e vai deixar de existir no mesmo momento em que você (ou não, mais ai é outra conversa). Entre o seu mundo e o mundo de fora existe uma diferença. Ambos se influenciam, é uma via de mão dupla mesmo que a intensidade em cada sentido varie - ora o de fora mexe no de dentro, ora seu impacto no de fora é mais forte. É o que acontece com os visionários. O mundo interno do Walt Disney ou da Joanne Rowling foram tão fortes que escapuliram e passaram a fazer parte do de todo mundo.

Mas como absorvemos o mundo de fora varia, e isso depende da percepção de cada um. Por isso vivemos ilusões. É quando nossa percepção do mundo de fora está enganada. Se for grande demais você é um louco, alguém em delírio é por definição que não consegue distinguir imaginação da realidade. Se for só um pouquinho tudo bem. Se for nos relacionamentos amorosos você é normal, e tem toda uma indústria pronta pra alimentar suas ilusões, crescê-las e tudo o mais. Filmes, livros, comédias românticas e contos de fadas, cheios de mensagens de que o amor triunfa e no final tudo da certo. Sim, ele te quer, ele pode te querer. Claro, ela vai perceber que te ama e entrar correndo no aeroporto declarando em alto e bom som o seu intenso amor por você. Pra quem está na dúvida existem milhões de opções a serem consumidas. De horóscopos, filmes, peças e contos que mostram alguém numa situação bem parecida com a sua (ok, as vezes nem tanto, mas fazemos vista grossa) e que conseguem o que eu quero.

O perigo está nos detalhes. Imagine o sofá perfeito na sua nova sala. Demorou mas você encontrou. Ele é lindo, todo branco, confortável e encaixa perfeitamente com o resto. Até que você repara uma pequena mancha no canto. Não é grande, mas notável. E não dá pra lavar, não sai com nada. Agora toda vez que você olha pro sofá, só consegue ver a mancha. Sempre que pensa no sofá é a mancha que vêm a mente e em geral é só nela que você fica. A mancha aparece o tempo todo, antes de dormir você lembra dela e é impossível pensar no sofá sem a mancha ali. Até que decide trocar de sofá. Termina com um menor, menos confortável, não combina tanto assim com a sala, mas pelo menos não têm a danada da mancha. Demora até o arrependimento bater e você perceber que era muito melhor aquele sofá com mancha do que esse sem. Ai você lembra de quão confortável era, sentar e se sentir abraçado por anjos, de quão bonito, mesmo com a mancha.. dos detalhes no braço, do fato de ser um pouco mais alto bem mais resistente.

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Assim somos. Deixamos um pequeno defeito nublar nossa visão. Perdemos o referencial e cometemos severas injustiças com cujas consequências nós mesmos temos de conviver. Nos relacionamentos, no trabalho e mesmo com sofás. Nas grandes e pequenas decisões somos vítimas da falta de clareza, das nossas expectativas que se tornam ilusões. Ai tentamos fazer o mundo de fora ficar igual ao de dentro, igual ao que eu tinha imaginado. É como uma criança tentando encaixar o cubo no formato da estrela, forçamos a realidade e se ela quebra ou impede a passagem o resultado é sempre o mesmo: sofrimento.

Sofremos com o choque da realidade, ao descobrir que aquele amigo te traiu, que seu pai ta devendo no banco, que sua mãe ta com depressão. Isso quebra nossa ilusão. Do amigo ideal, do pai perfeito, da mãe amorosa e feliz. É bom viver no mundo da ilusão, é agradável acreditar que meu pai é foda e minha mãe ta feliz, mas assim como muitas drogas o pico de felicidade de agora vêm às custas do vale de tristeza mais a frente. Se iludir é postergar a dor, fechar os olhos pra não ver, empurrar com a barriga. Mas fazemos tanto e com tanta frequência que poderia ser o esporte nacional, ou mundial na verdade.

Não tenho a menor pretenção de acabar com as ilusões, mas estar atento a elas, entender que somos assim e buscar fazer o melhor possível, isso sim. Por isso acho útil entender os pacotes. Como tanta coisa, a grande lição é aceitar a vida como ela é. O que não tem nada de passivo. Aceitar a realidade não quer dizer não agir pra mudá-la. É pura e simplesmente uma questão de não se iludir. Parece óbvio, mas observe nosso linguajar, quantas vezes algo de ruim acontece e a primeira coisa que dizemos é “Não acredito!”. Não posso, ou ainda “não quero acreditar”. Acho que nesses momentos estamos sendo mais honestos do que gostaríamos de acreditar. Muita gente realmente não acredita, ou melhor, tem algum conflito, alguma barreira até isso acontecer. E o atrito se mostra em emoções “negativas” - ansiedade, irritação, tristeza, nervosismo e a lista segue.

Quem assistiu ao filme “Perdido em Marte” com o Matt Damon teve uma aula de aceitação e ação. É um estado de espírito, uma forma de lidar com tudo. Claro que há momentos onde ele se irrita e quase desiste, afinal ele tá no extremo dos extremos, mas ainda assim o padrão é pensar “Ok, X aconteceu, o que eu posso fazer agora?” e seguir. Não se perde tempo lamentando, sofrendo com o leite derramado. Além de ser um filme sensacional, inteligente e bem humorado.

297638.jpg-r_640_600-b_1_D6D6D6-f_jpg-q_x-xxyxx.jpg Resumindo, muitas vezes nos iludimos quanto ao que queremos, vivemos num limiar entre nosso mundo interno e o externo, criando expectativas e tendo elas frustradas ou tentando encaixar um sonho na realidade de forma quase grosseira. Outras vezes perdemos a perspectiva e deixamos algo pequeno crescer, por pensarmos demais naquilo. A coisa cresce literalmente, passamos a visualizar a mancha ou problema qualquer num tamanho maior. O que você usa e não controla está controlando você. Estudantes de PNL e Hipnose logo aprendem a manipular essas representações nossas, como funciona nossa memória e o impacto de pensar em algo visualmente e aumentar ou diminuir aquilo na nossa tela mental.

O título desse texto veio de um exercício de teatro que fiz certa vez. Era uma oficina de improviso, e a primeira aula era “Predisposição ao Desconhecido”. Simples assim. Toda a comédia, todo o teatro e qualquer empreitada pede uma dose de predisposição ao desconhecido. O improviso ensina muita coisa. Treinamos sair da zona de conforto, lidar com o que se tem e ir sempre em frente. Não dá tempo no meio de uma cena de parar e reclamar com o colega de cena, ou de ficar chateado que alguém não reagiu como você esperava. É improviso, então só tem uma solução: aceitar. Aceitar e seguir em frente. Por isso devemos estar predispostos ao desconhecido. O improviso não tem regras, mas a maior recomendação é o “Sim, e..”. Simples e funcional. O “Sim” representa a aceitação, e o “e” representa a ação em cima disso. Pois não adianta ficar parado.

Da próxima vez que algo chato acontecer, experimente essa abordagem. Diga apenas “Sim, e..” e veja como se sente. Pode ser meio forçado no começo, mas em geral mesmo assim funciona. E em pouco tempo você pode se perceber muito mais aberto(a) ao que te acontece, vendo que nenhuma acontecimento em si é chato ou triste, depende apenas de como lidamos com ele.


Felipe Moitta

Felipe Moitta, Consultor de Gestão e Desenvolvimento Pessoal. .
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