felipe moitta

Reflexões, pensamentos e um convite à toda troca construtiva

Felipe Moitta

Felipe Moitta, Consultor de Gestão e Desenvolvimento Pessoal.

Fairplay

"Posso não concordar com o que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo"


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Há algum tempo que não concordo com Maquiavel. Acho que os fins não justificam os meios. A forma com a qual fazemos algo muitas vezes se mostra até mais importante que o objetivo final. Einstein disse “nenhum problema pode ser resolvido pelo mesmo grau de consciência que o gerou”, e isso pra mim significa que cada problema pede, ou ainda, exige que nos tornemos melhores. Mas somos preguiçosos por natureza e instintivamente buscamos atalhos. Essa postura é míope, é o barato que sai caro, pois no final fazer o certo da forma certa é sempre a melhor escolha. Não é a toa que diz-se que a mentira tem perna curta. A grande dificuldade está em aceitar que muitas vezes não estou capaz de resolver a questão no calor do momento e manter o fairplay.

Acho lindo essa palavra, fairplay - jogo justo, ou jogo limpo. Quando alguém comete uma falta, por exemplo, e o juiz não viu, o jogador pode seguir o jogo e se beneficiar com a “vantagem”, ou admitir o erro. No curto prazo, o que você quer é aproveitar todas as vantagens que tiver. Mas, pensando com calma, a escolha certa se torna mais clara. Como sempre, cada caso é um caso, e existem exemplos onde uma resposta não é tão simples assim. No entanto, busco na medida das minhas capacidades jogar limpo. No campo, e fora dele.

Por isso me incomoda a forma de alguns protestos. Por exemplo a forma como algumas pessoas falam de política ou políticos em especial. Se estou criticando alguém, tenho meus motivos e argumentos, e devo fazer isso em cima da verdade, ou do maior esforço possível pra estar com ela. Vejo muita gente criticando o Lula, a Dilma, o FHC, o Bolsonaro, o Gabeira.. O problema está na forma. Quando você deturpa a verdade, exagera propositalmente, omite fatos importantes ou mente abertamente, pra mim você errou feio, errou rude. Isso é em geral se deixar levar pela emoção, permitir que a sua raiva contra o fulano domine a razão e ai você só quer que todo o mundo sinta a mesma raiva que você, sem importar como. Tenta fazer com que os outros sintam o que você sentiu de qualquer forma, mesmo que tenha que exagerar, omitir ou mentir descaradamente. Ou seguimos por outro caminho perigoso, o da leviandade. Falamos de forma seria sobre o que não conhecemos, pouco entendemos mas com opinião formada e a crítica na ponta da língua.

Boa parte da dificuldade está em ouvir o outro lado. Rótulos são mais fáceis, nosso cérebro funciona com o preconceito. Com tudo é assim, eu aprendo a usar uma cadeira uma vez e pra sempre quando vejo algo parecido sei o que fazer. Mas isso depende do rótulo. Se não fosse assim eu veria cada cadeira como única, sem conceitos pré concebidos (pré-conceitos) e toda vez teria que aprender como interagir com cada objeto. Cadeiras, mesas, janelas, maçanetas. Rotulamos todos esses e agimos automaticamente com eles pra não perdemos tempo pensando - usamos o rótulo sem nem perceber. Agir assim com objetos é uma coisa, minha TV não tem uma opinião a respeito de como eu ajo com ela, já as pessoas, sim.

Esse mecanismo de pensamento se mostra ativo por exemplo quando demonizamos alguém. A pessoa faz algo que você despreza, o incômodo é tão grande que toma conta de tudo o que ela significa pra você. A falha vira a pessoa e você se fecha a tudo que vêm dela, ou está associado a ela de alguma forma. Isso é ser intransigente, atitude da qual já fui muito culpado. Assim falo por experiência que isso é “fechar os olhos pra não ver”, é ser infantil e potencialmente hipócrita. Lembro de como eu criticava as “indústrias” quando entrei na faculdade de engenharia ambiental. Pra mim era bem claro o impacto da poluição, fruto da ganância de empresários inescrupulosos que passavam por cima do meio ambiente na sua cega corrida rumo ao lucro. Com o tempo fui entrando mais a fundo no assunto e descobrindo que a coisa não é simples assim. E a questão não é que essa visão estava certa ou errada, é que há uma terceira alternativa. O erro estava nesse sistema binário simplista de avaliação. A solução pedia um grau de consciência acima, que cobrou seu preço - anos de leituras, aulas, discussões e convivência com os dois lados.

O mesmo vale pra tantas questões. Quando era novo absorvia o slogan de ser contra as drogas. Maconha é droga, é porta de entrada pra outras drogas, coisa de viciado e ponto final. Com o passar do tempo vi que não era bem assim. Documentários são bons pra falar de um assunto - o formato da mídia faz diferença. Mas ainda assim há o perigo da parcialidade, por isso gosto de ler livros de tópicos e autores que discordo. Tudo é relativo, depende do contexto onde está inserido, e isso torna o ato de pensar e deliberar sobre um assunto algo trabalhoso. O Fairplay demanda que eu ouça meu adversário, que não pegue quaisquer atalho e só se é possível agir assim se eu não tomar a parte pelo todo, o defeito pela pessoa.

Certa vez participei de uma competição de improviso (de teatro), e num dado momento perdemos alguns pontos pois falamos palavrões numa cena. Achamos injusto, o juiz foi parcial e tudo o mais, mas (depois nos estressar mais do que devíamos) compreendemos que não ia adiantar discutir, e o melhor que tínhamos a fazer era ganhar aquela competição sem falar palavrão. Era uma muleta que estávamos usando pra comédia, e mesmo sem abusar foi bom o desafio, nos forçou a achar o humor na história, de forma implícita e basicamente a fazer cenas melhores. O medo inconsciente era que sem o palavrão nossas cenas não seriam tão boas, e o risco era resistirmos e, ou falar os palavrões e perder, ou não falar e mandar mal. Felizmente percebemos uma terceira alternativa. Melhorar. Nos esforçamos mais e brincamos com o desafio. Até hoje acho que nosso melhor ganho lá foi esse aprendizado. O que está no caminho se torna o caminho - o obstáculo é o caminho.


Felipe Moitta

Felipe Moitta, Consultor de Gestão e Desenvolvimento Pessoal. .
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