felipe moitta

Reflexões, pensamentos e um convite à toda troca construtiva

Felipe Moitta

Felipe Moitta, Consultor de Gestão e Desenvolvimento Pessoal.

Lições Diretas e Indiretas

Sobre os veículos do aprendizado, e as suaves pancadas que felizmente levamos.


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Uma vez fui numa meditação Zazen, e estavam me explicando algumas práticas e rituais. Tem um sino especial que eles tocam ao início e fim da sessão, e dentre outras práticas uma mais tradicional (e menos usada atualmente) que é o Kyosaku - basicamente uma vara de madeira achatada, como se fosse uma grande régua, e com ela se dá duas pancada no pescoço do praticante. Como tudo no budismo há uma explicação e todo um procedimento. O responsável pela prática, em geral o monge mais experiente do local, é quem cuida disso, e se ele percebe que alguém está desatendo, talvez com sono ou saindo da postura correta, ele se aproxima e toca a pessoa no ombro com a vara. A pessoa, sem abrir os olhos, entende o comando, inclina a cabeça pro lado e recebe duas palmadas no pescoço com a tal régua.

O que achei mais interessante foi o responsável pelo lugar me contando que uma vez ele recebeu uma pancada dessa, mas ele tinha certeza que estava fazendo tudo certo, estava atento na meditação, na postura certa e não entendeu porque tinha merecido a pancada. Após a meditação ele foi conversar com o monge, e ele respondeu “Realmente, eu percebi que vc estava atento, foi por isso mesmo que dei a pancada em vc. O seu amigo do lado estava muito desatento, e se eu desse a pancada nele, poderia ser uma mudança brusca demais, ele ia passar o resto da meditação atordoado. Ao dar a pancada em vc, que estava do lado, ele apenas ouviu o barulho, e isso foi o suficiente pra ele voltar ao momento presente de forma suave.”

As vezes aprendemos com o erro dos outros, uma lição nos chega de forma indireta. Em outras podemos ser o veículo de um aprendizado dos outros, muitas vezes mesmo sem saber.

Outro dia amigo estava discutindo com a namorada. Houve (na minha opinião) uma falha de comunicação, era tarde da noite, ele achou que ela estava vindo encontrar com ele e ela achou que ainda ia dar tempo de ficar mais onde estava. O que intensificou a coisa foi que passou um tempo e ela não estava ouvindo o celular. Ele ficou ligando o tempo todo, de propósito, ele me disse, ficou muito incomodado de esperar na rua e ela não atendendo, sabendo que ele estava cansado e etc. Quando ela finalmente atendeu a conversa logo descambou pra uma discussão, desde o clássico “vc sempre faz isso” até “eu to sem te ver a semana inteira, mas se vc prefere ficar com o pessoal ai tudo bem..”. Eles estão juntos há um tempo e naturalmente se conhecem, tem incômodos e questões.

Achei que seria forte demais falar “Cara, vc ta sendo infantil. Admite que tá frustrado que ela não veio, com ciúmes e que no fundo vc só quer um pouco mais de atenção, se sentir valorizado por ela e estar junto”. No estado que ele estava se eu falasse isso provavelmente ia deixar ele mais irritado e negando tudo. O que tentei fazer foi mudar de assunto, falar como ele tem sorte de poder estar com a pessoa que ama naquela noite, tantas pessoas não podem.. É um privilegio, deixa de lado essa besteira e vai curtir com ela. Queria ter falado mais, dado exemplos de momentos em que eu fui infantil e reagi dando vazão a frustração e ciúmes, e como isso só piorou a situação, e depois como eu no fundo só estava querendo um pouco mais de atenção. Acho que isso teria sido mais sutil, mais tragável, e talvez ajudasse. Infelizmente nesse caso depois que ele começou a discutir não parou mais, e acabamos indo cada um pra um lado sem ter tempo de conversar mais.

Acho que um dos ingredientes da felicidade é apreciar o que se tem. Muita gente só valoriza algo quando o perde, chega a ser um clichê de filme, o homem de negócios que só percebe a importância da família depois que quase perde ela. Recentemente percebi que existem dois tipos de saudade, pelo menos. Uma é essa saudade de quem sofre, da perda de algo que não queremos aceitar, existe negação, tristeza pelo quanto não foi vivido ou foi desperdiçado, essa saudade dói. Mas existe outra saudade, mais gostosa, de algo que foi vivido intensamente, que foi apreciado e valorizado de forma consciente, mas a vida aconteceu, houve uma separação, então chega essa saudade que é completamente diferente. É uma mistura de gratidão pelo que foi vivido, uma nostalgia de alguma forma, somado ao desejo de ter mais, não mais do mesmo, não repetir ou ficar parado naquele ponto, mas mais daquilo de outra forma.

A saudade que dói olha pra traz, não aceita, quer voltar ao passado, ela te paralisa e te faz pensar apenas no que se perdeu, no que foi, em como nunca mais vai ser assim e costuma gerar mais tristeza, ou raiva. A outra saudade olha pra frente. Ela entende o espaço do que aconteceu e busca seguir com isso, sabendo que fez o que tinha que ser feito, tranquila de ter vivido o momento e atenta em viver o novo agora, e o próximo, e assim sempre. Pode ser melancólica, mais reflexiva, mas é diferente o suficiente a ponto de merecer outra palavra.

Um outro ponto da prática Zazen é que depois de receber a pancada vc agradece a pessoa que te bateu. É simbólico, mas acho bem interessante. Uma das frases em que mais tenho pensado é que a vida não acontece COM você, ela acontece PARA você. Isso faz toda a diferença em como interpretamos as “pancadas” que recebemos. Quero cada vez mais ser capaz de imaginar o simpático monge me olhando com carinho, agradecer o toque e voltar minha atenção para o lugar certo.

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Felipe Moitta

Felipe Moitta, Consultor de Gestão e Desenvolvimento Pessoal. .
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