felipe moitta

Reflexões, pensamentos e um convite à toda troca construtiva

Felipe Moitta

Felipe Moitta, Consultor de Gestão e Desenvolvimento Pessoal.

Sobre Criatividade e Confiança

Quão criativo você se sente? Porque?


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Quando eu era pequeno gostava de brincar sozinho. Como eu brigava muito com a minha irmã tive que desenvolver essa habilidade. Adorava brincar de bonecos. Tinha vários. Nessa época meu pai viajava muito a trabalho para os EUA e quase sempre me trazia um. Mas como eu brincava sozinho as brincadeiras foram ficando cada vez mais na minha imaginação. Especialmente porque eu não gostava quando tinha alguém perto ouvindo o que eu falava, passei a fazer isso mentalmente. Com o tempo vi que não precisava mexer muito os bonecos, so ficar com eles ali, sentando no meu quarto (que eu dividia com a minha irmã) era suficiente. Eu tinha histórias longas, e eu continuava de onde tinha parado no dia anterior. Sempre que via uma cena legal num filme ou desenho, trazia isso de alguma forma pra brincadeira, pro boneco da vez. Ele assim ia evoluindo, herdando habilidade dos personagens de filmes de luta e meus desenhos favoritos. Olhando pra trás é interessante observar o tipo de desafio e histórias eu criava, e como elas foram mudando com o tempo, se tornando mais complexas conforme eu crescia.

Um dia fomos viajar e eu não levei os bonecos, ou por algum motivo não os tinha comigo e tive que improvisar. Estávamos num quarto de hotel e sem nenhuma privacidade, então reduzi ainda mais os movimentos e poucos barulhos que fazia. E me diverti. De alguma forma o que eu passei a fazer nem era necessariamente brincar, era quase o trabalho de um escritor, mas ao invés de escrever as histórias eu só as assistia. Esse processo continuou de alguma forma até hoje, mudando e diminuindo a frequência. Foi o que me deu tanta facilidade quando entrei no teatro e especialmente no improviso. Ter que criar histórias na hora, e ir reagindo quase que instintivamente às ideias dos outros me parece extremamente natural, e mais do que isso, absolutamente divertido. Talvez a maior mudança tenha sido em aprender a aceitar a intromissão dos outros. Brincando sozinho eu, apenas eu, era o criador de tudo. Tudo seguia exatamente como eu quisesse, não havia discussão ou quaisquer atrito. Mas essa mudança foi bastante suave e orgânica. E acho que foi assim pois entrei no teatro mais velho, quando já estava na faculdade. Tinha melhorado sensivelmente minhas habilidades sociais, e a interação com outros no campo das histórias foi uma novidade muito bem vinda.

Seguindo com o improviso cheguei a montar uma peça com uns amigos. As pessoas sempre nos elogiavam pela nossa criatividade e diziam que não seriam capazes de fazer o mesmo. Nesse ponto acho que tive sorte. Não em ser criativo, pois creio em absoluto que todos o são e têm o potencial de ser mais, mas na confiança quanto à minha criatividade.

Além de brincar sozinho, outra forma de entretenimento que eu tinha era desenhar. Adorava, e o ato de praticar constantemente me deixou acima da média em termos de habilidade. Isso não é um grande feito, pois assim como não se veem criativas, a maioria das pessoas tem vergonha de suas habilidades artísticas. Elas não só evitam desenhar e pintar, como elogiam excessivamente os que o fazem minimamente bem. Quase sempre super-valorizamos o que não temos (e desejamos), e sub-valorizamos o que temos. Na prática isso se mostrou com mais elogios do que o merecido, que me estimulava a desenhar mais e naturalmente melhorar. Assim devo ter aceitado comentários a respeito da minha criatividade. Imagino que o ato de brincar como eu brincava tenha me treinado a criar cenários e contextos complexos na minha cabeça, então quando eu compartilhava alguma parte disso com os outros era novamente visto como criativo.

Um traço da minha personalidade que ajudou também foi o de sempre buscar um ponto de vista diferente. Algumas vezes me rendeu o apelido de do-contra, mas, mais do que isso, me trouxe oportunidades de ser visto como engraçado. A comédia na maioria das vezes tem um quê de surpresa, ela conta com o inesperado. E como, por algum motivo, boa parte dos meus pensamentos é inesperado para os outros, foi simplesmente uma questão de tempo até eu descobrir que podia fazer os outros rirem com certos comentários. Acho que até a faculdade esse comportamento foi impensado, quase uma reação instintiva.

Nunca de fato pensei em mim como alguém engraçado, nem quis “fazer piadas” em grupos. Só fui ficar consciente de que isso era um traço particular meu num encontro de ex-alunos do colégio. Assim que cheguei um amigo ao me cumprimentar disse logo “Vai Moitta, fala algo engraçado”. Foi ai que eu percebi que nesse quesito meu comportamento era diferente dos demais. Eu nunca tinha reparado nisso dessa forma. É como a meu jeito de andar. Ninguém pensa sobre ele em relação ao dos outros. Se me perguntarem, sim, eu ando do meu jeito, e cada um tem o seu, mas é meio que a mesma coisa, a gente só anda e pronto. O “ser engraçado” era a mesma coisa. Todo mundo fala algo engraçado de vez em quando e, num grande grupo, especialmente na época do colégio, o somatório de todos os gracejos faz com que estejamos rindo quase que o tempo todo. Eu nunca atinei para o fato de que eu fazia mais contribuições que a média até esse dia.

Hoje tenho total consciência de quanto aprecio a comédia. Adoro ver um stand-up de qualidade, bons textos, peças, filmes e etc. E tenho paixão pelo improviso, pela adrenalina de criar a história em tempo real, tendo que reagir ao inesperado, e percebo como um bom timing de comédia pode fazer toda a diferença numa cena.

Fato é que tudo isso me fez ter uma auto-imagem de alguém criativo. E o feedback dos outros quase sempre veio a confirmar essa visão. Mas a verdade é que todos são criativos, todos os dias, mas infelizmente muitos em áreas onde não são apreciados. Muitas vezes nem chegam a comentar com os outros as soluções criativas que tiveram, e pior que isso, nem chegam a perceber e valorizar quão criativos foram.

O Sir Ken Robinson é na minha opinião um dos maiores educadores vivos, e ele define criatividade como “o processo de ter ideias originais que têm valor”. Primeiro, é um processo, não apenas um resultado. Segundo, são ideias originais. Mas isso não significa que tenham que ser inéditas. Muitas vezes a originalidade esta em usar algo já existente de outra forma. E o ponto final que é o mais importante, que é isso ter valor. Se você resolveu um problema, por menor que seja, isso tem valor. Se usou a torradeira pra fazer um waffle isso pode ser original pra você. Tem valor pra você, e como processo mostra um bom uso do método. Fez ligações incomuns e gerou um resultado que de outra forma não existiria assim.

Logo, se tornar criativo não é a questão. Você já é, pois é único e pensa e age no mundo de uma forma só sua. No entanto o mundo tem muito a ganhar com mais pessoas tendo a confiança criativa. Com mais pessoas buscando resolver problemas, fazendo novas conexões em assuntos antigos e assumindo um papel de criador, que é necessariamente oposto ao de vítima.

Acho que cada um devia simplesmente aceitar que é criativo e celebrar cada pequena manifestação. Quem quiser acertar mais tem que tentar mais. E no começo é normal errar mais ainda, para toda habilidade há uma curva de aprendizado. Começamos fazendo muitos erros, mas progredimos rapidamente. Sair da zona de conforto. Cada vez mais essa sugestão parece clichê, mas é 100% real. Sair da zona de conforto significa se colocar em situações limite, onde sua habilidade está abaixo da requerida para o sucesso. Assim você se força a ser criativo, a dar a cara a tapa, e a se recuperar quando falhar. Você simplesmente precisa de um contexto no qual há motivação para fazer algo levemente acima do seu nível, recursos limitados e alguma segurança pra falhar e tentar de novo. No livro “O Código do Talento” (que recomendo bastante), essa é exatamente a fórmula.

Costuma-se atribuir criatividade à ações no ramo da arte, como pintar ou compor uma música. Mas a realidade é que toda e qualquer atividade humana pode ser realizada de forma criativa. Em geral o que falta não é inteligência, sagacidade ou genialidade, mas apenas confiança.


Felipe Moitta

Felipe Moitta, Consultor de Gestão e Desenvolvimento Pessoal. .
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