felipe moitta

Reflexões, pensamentos e um convite à toda troca construtiva

Felipe Moitta

Felipe Moitta, Consultor de Gestão e Desenvolvimento Pessoal.

Sobre decisões e zonas de conforto

Os vários “eus”, suas disputas e nossa preferência pela dor conhecida ao prazer estranho.


aldeia-14.jpg

De vez em quando somos forçados a decisões difíceis. Uma decisão pode ser considerada difícil por uma série de motivos.

Tive uma outro dia que achei difícil pois me forçou a ser coerente, me forçou a ver um lado de decisões anteriores que eu preferiria evitar, ou sobre o qual não tinha pensado o suficiente.

Quero ser alguém que ajuda os outros, decidi a muito tempo que considero toda crítica como positiva (lógico que há formas e formas) e que quero agir com os outros assim como gostaria que agissem comigo. Não gostamos de desagradar os outros, e esse é, basicamente, o motivo subjacente de porque uma decisão se torna difícil. Compreendemos que iremos desagradar alguém. E mais importante que o fato de desagradar, em si, é a forma. Ao longo da minha vida, diversas forma de desagradar os outros entraram pra dentro da minha zona de conforto. Não quer dizer que gosto, mas é algo que faço sem maiores problemas. Se quero reclamar de algo, terminar um relacionamento, me demitir, recusar um convite emocionalmente carregado, são todos exemplos de formas de decisões difíceis que já fiz, que já estiveram fora da minha zona de conforto e foram extremamente cansativas pra mim - em termos de ansiedade, vergonha, medo e outras sensações que a expectativa da conversa gerou - mas atualmente estão dentro.

Existe uma diferença entre a coisa ser fácil, difícil e estar dentro ou fora da zona de conforto. Fazer uma caminhada de 8 horas de subida com uma mochila pesada é, sem dúvidas, difícil, cansativo, até exaustivo, mas apesar disso é algo que está dentro da minha zona de conforto. Saltar de um lugar alto dá medo, me apresentar pra centenas de pessoas, são coisas que dão um nervosismo, mas estão atualmente dentro da minha zona de conforto. Chamar uma menina pra sair, por mais simples e fácil que seja, está fora da minha zona de conforto. Pedir pro meu pai investir na minha empresa está fora da minha zona de conforto. São coisas fáceis que eu inclusive sei como fazer, no entanto, estão fora.

Apesar do nome, o que está na zona de conforto não é necessariamente confortável, é apenas conhecido. Somos apegados ao que nos é familiar, e muitas vezes preferimos o sofrimento conhecido ao prazer estranho.

Existem desafios na internet sobre o assunto, seguindo a ideia de “fazer todo dia algo de que vc tem medo”. Um exemplo clássico é deitar no chão no meio da calçada por 30 segundos, e a ideia é ajudar as pessoas a superar o medo de serem vistas como estranhas, o medo de serem julgadas.

A ideia é se colocar fora da zona de conforto, e um tipo em especial escolhido é o medo da rejeição/julgamento dos outros. E o exemplo é deitar no chão, algo meio aleatório, esquisito mas seguro o suficiente pra ser um desafio que chegou a se tornar “viral”. Acho excelente toda forma de enfrentar medos, mas no meu caso, não teria um problema em deitar na rua, então tenho que adaptar.

Só que somos racionalizantes, e assim que começo a pensar em algo realmente fora da minha zona de conforto, imediatamente uma parte de mim (ego?) já vem com bons motivos pra não fazer aquilo em especial. E como sou razoavelmente inteligente (e metido por dizer e/ou pensar isso?), essa parte de mim vem com bons motivos, que resistem aos primeiros contra-argumentos bem. Só uma análise mais persistente me permite ultrapassar esse tipo de barreira. E não é uma batalha estática. Se eu não percebo o padrão que eu mesmo estou seguindo, fico num duelo esquizofrênico de argumentos e contra-argumentos, com motivações conflitantes, parte de mim querendo que eu faça algo fora da minha zona de conforto (pedir o dinheiro, ligar para a menina, me mostrar vulnerável) e outra tentando me preservar (evitar a possível humilhação, o sofrimento de um coração partido, o desgosto da rejeição). Enquanto eu não percebo a dinâmica, os dois lados se usam do meu conhecimento como armas e da motivação como combustível.

Se minha auto-preservação fala mais alto eu travo e fico na zona de conforto, onde parte de mim se sente protegida - e a outra parte responde me deixando culpado, em dúvida e me sentindo mal de algumas formas. Senão, tudo que a parte cautelosa consegue consegue fazer é me deixar com a mão suando e um frio na barriga, mas eu vou e faço assim mesmo. Se der certo, ponto para a equipe da inovação, essa parte de mim fica mais forte e passa a ser cada vez mais fácil repetir a coisa até ela entrar na zona de conforto, que é quando a parte neurótica desiste de lutar contra isso, e aceita. Se dá errado, essa parte vem com tudo, fortalecendo padrões que a fortifiquem, de que eu não devia ter tentado e etc, e pode ficar mais difícil da próxima vez.

Essa batalha interna conta com diversos aliados que aparecem e somem, vem e vão. Uma conversa com um amigo, um livro, um artigo, um bom humor e ânimo mais elevado podem ser suficientes para superar ou deixar o medo momentaneamente em cheque. O oposto também é verdade, um período mais melancólico, de baixa energia, um sonho ruim, uma má notícia ou uma crítica podem te drenar as energias de forma que o lado da preservação fica excessivamente poderoso.

Acho importante entender que as duas funções, se formos continuar com a metáfora desse dois “eus” que existem em você, ambas são importantes. Como no filme da Pixar, Inside Out (Divertidamente), cada emoção, cada lado seu, tem sua razão de ser. A parte inovadora e corajosa, se reinasse solta te tornaria uma pessoa louca, sem freios, despreparada para viver em sociedade e potencialmente perigosa. Como tendemos a pecar pela falta dela, mais que pelo excesso, tende a ser mais difícil perceber, e muitos idealizam esse lado. É como ir no supermercado com fome. Vc acha que quer comprar de tudo, mas passada a fome, viu que exagerou.

Voltando à minha decisão difícil, ela foi difícil pois estava fora da minha zona de conforto, e particularmente notável pois eu não esperaria que estivesse. Eu percebi que um grande amigo estava fechando o olho, se enganado e fugindo de uma responsabilidade. Meu primo tem um cachorro que está velho e é trabalhoso cuidar. Ele morava com a nossa avó, que cuidava do cachorro e fazia companhia quando ele saía, tornando a coisa toda bem fácil. Há um tempo ele saiu da casa dela e o cachorro ficou. No começo justificava o trabalho que o cachorro dava como compensado pela companhia que ele faz a nossa avó, sendo positivo ela ter algo com o que se preocupar, cuidar e etc, é uma atividade pelo menos, além de uma companhia. Mas agora percebi que as coisas mudaram. A minha avó está com cada vez mais dificuldades de locomoção, e o cachorro está cada vez se tornando mais trabalhoso - com 16 anos, não consegue mais andar até o jornal, faz xixi e cocô onde dorme, e pisa e anda pela casa sujando tudo, etc.

Percebi isso e minha inclinação natural seria falar, mas senti uma pequena trava. Achei delicado falar desse assunto, mostrar que é responsabilidade dele e que as desculpas de antes não mais se aplicam. Especialmente porque sei que todas as alternativas são desagradáveis. Ou ele voltar a morar com a minha avó para cuidar do cachorro, saindo da casa que divide com amigos, ou sacrificar o animal. Levar o cão pra morar com ele não é uma opção (resumindo muito).

Pensando mais percebi que minha dificuldade de tratar desse assunto vem de mais dois pontos. Uma culpa minha de ter dado ou permitido que minha mãe desse um cachorro que tive quando era mais novo. A situação era um pouco diferente, mas no fundo sinto que fugi da responsabilidade, ou pelo menos que fui incapaz de cumprir com o que me propuz, de cuidar do cachorro, e deixei que outros resolvessem o meu problema - minha mãe ficou como a vilã que decidiu dar o cão, encontrou alguém que o quisesse e etc, enquanto eu fiquei confortavelmente no papel da vítima. Acho que não tinha pensando sobre isso até o momento com profundidade.

O outro ponto é menos pessoal. Me confrontar com a realidade da nossa relação com animais. Que apesar de fofos, eles existem, eles vivem, por um capricho nosso. Pelo menos os de estimação. Que temos pena por eles serem peludos e fofinhos, mas que a verdade é que valorizamos suas vidas enquanto nos é conveniente, e admitir que é melhor sacrificar um animal para não ter que ficar cuidando e limpando cocô o tempo todo é difícil. Alguns vão dizer que isso é um absurdo e que é responsabilidade da pessoa cuidar até o fim, e que fariam ou já fizeram isso e tudo o mais, são em geral os que são movidos pela pena, que se sensibilizam com um gatinho ferido à beira da estrada, mas pagariam sem trepidar para uma dedetizadora matar todos os ratos do prédio.

O extremo de quanto uma pessoas dizem se preocupar com os animais, até onde estão dispostas a ir para salvarem gatos e cachorros em sofrimento me parece também uma forma de ilusão. O critério de valorização da vida animal me parece ser emocional e não racional. O critério mais importante é a aparência, quão fofo o bicho é. Mamíferos ganham, aves seguem, répteis são praticamente ignorados, insetos quase nunca chegam a ser considerados.

Qualquer vida serve? Toda vida vale o mesmo? Devemos matar milhões de formigas para construir uma praça? Podemos matar centenas de pássaros para fazer um prédio? Iremos matar milhares de animais de toda a sorte para construir um shopping? E um hospital ou uma escola? Devemos infligir dor e sofrimento a camundongos para estudar remédios e outras formas de experimentos que avançam nosso conhecimento do mundo? Quem se sente indignado que alguém sacrifique um cachorro pois ele se tornou inconveniente acha certo comer uma fatia de bacon? E os veganos de plantão, esses podem falar? Se retiramos a variável hipocrisia, ainda permanece a incoerência. Que vida vale mais, e quem é você pra decidir? Do lado oposto, porque eu não deveria usar os animais da forma que gere maior prazer? Sua vida impacta milhares de outras. Você quer sair da sua casa pra permitir uma área de floresta que permita a vida de animais?

Acho que o espinho no pé é a distância entre a realidade que vivemos e a nossa consciência do que ela acarreta. Nosso estilo de vida vem com várias decisões “de fábrica”, que absorvemos pela cultura sem necessariamente pensar em todas as consequências, e vamos descobrindo ao longo do caminho. Descobrimos que há desigualdade social, que alguém está com fome enquanto você joga comida fora. Que alguém não tem roupa ou estudo enquanto você vai pra Disney pela segunda vez. Milhões de pessoas deixariam de morrer se reduzíssemos o limite de velocidade pra 50 Km/h as estradas. Melhor, se os carros já viessem de fábrica incapazes de passar dessa velocidade. Alguém quer isso? Quem está de fato disposto? Nem falo do argumento de ambulâncias e médicos que precisam chegar rápido a um local, ou a potencial perda econômica dessa regra, as pessoas não estão dispostas a abrir mão do prazer de acelerarem os seus carros, pura e simplesmente.

Partimos da premissa de que o estado atual das coisas é o “default”, e mais importante, não é minha culpa. Quando eu nasci já era assim. E se você descobre que sua família enriqueceu por meio da escravidão? Ah, isso está no passado. E se fontes confiáveis provarem que os descendentes desses escravos ainda vivem na linha da pobreza, com uma linha clara de causa e consequência da forma como foram tratados, você daria todo o seu dinheiro pra essas famílias? Parte dele? Qual parte? O suficiente pra aliviar a culpa, ou só um pouco, ou quase tudo? É um caso hipotético, mas não têm dúvidas, sua família só está onde está pois explorou escravos, e todas as gerações só se mantiveram pois tiveram uma fortuna a partir da qual investir e se manter com dinheiro.

Ou se você herda um apartamento de um tio e descobre que foi comprado com dinheiro de corrupção, que foi desviado da construção de uma escola. Pra facilitar, o apartamento vale exatamente o valor de uma escola, e ninguém nunca vai descobrir. Você venderia ele e construiria a escola, ou doaria de outra forma? Doaria parte apenas? Supondo que você não esteja morrendo de fome, mas não esteja sobrando dinheiro também. E se você descobre isso depois de dois meses morando no apartamento, já apegado a ele, já com planos de como gastar o dinheiro. Isso muda alguma coisa?

Essas perguntas as vezes são difíceis pois demandam que confrontemos partes nossas que em geral não estão alinhadas, mas que raramente entram em conflito. Acho excelente a forma que o filme da Pixar mostra isso, com 5 personagens diferentes que vivem no cérebro das pessoas, e cada uma das emoções tem sua função. É exatamente isso, é como se tivéssemos diversos “eus” dentro de nós, e cada um cumprindo a sua função. O “eu” responsável pelo medo de coisas fora da zona de conforto está preocupado com a minha segurança, não apenas física, mas emocional, psicológica.

As vezes temos vergonha de descobrir certos desejos em nós mesmos. Foi esquisito pra mim pensar que eu poderia ter alguma barreira em falar com meu primo sobre o cachorro dele. Difícil admitir que eu tenho vergonha de pedir um investimento pro meu pai. Certamente tem a ver com o medo do fracasso, com a vontade de me mostrar completamente independente e bem sucedido. Sei que se desejo chegar onde nunca estive, preciso fazer o que nunca fiz, que se quero crescer e me desenvolver, preciso enfrentar os meus medos, sair da zona de conforto. No final, a conversa com meu primo foi super agradável. Como em tantas vezes, o medo existia quase que apenas na minha imaginação.


Felipe Moitta

Felipe Moitta, Consultor de Gestão e Desenvolvimento Pessoal. .
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/recortes// @obvious //Felipe Moitta
Site Meter