felipe moitta

Reflexões, pensamentos e um convite à toda troca construtiva

Felipe Moitta

Felipe Moitta, Consultor de Gestão e Desenvolvimento Pessoal.

Sobre o impacto das palavras e más evidências

Quantas vezes não falamos algo sem pensar no impacto que isso pode ter? Quantas vezes não acreditamos em algo, agimos com base em pouco ou má evidência?
Me falaram... mas eu achei que... parecia...
Nossas ações, palavras e pensamentos pra sempre estarão conectados. Somos o que fazemos constantemente.


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Um dos maiores problemas da sociedade é o hábito de chegar a conclusões com pouca ou má evidência. Primeiramente, boa parte do problema está em isso ser um hábito. É algo que é feito com frequência, sem pensar, quase automático.

Somos adeptos da razão. Quando uma pessoa fala uma besteira dizemos logo “isso não faz sentido”. E é isso mesmo, algo não fazer sentido é o suficiente pra ser repudiado, não segue uma lógica, não pode ser compreendido. Se eu digo “a homem antes bolha que pode construção de mola” isso simplesmente não faz sentido. Cada palavra separadamente faz, converte um significado a quem lê, mas como frase isso não transmite nada, então é desconsiderado - não tem valor.

Evoluímos de forma a chegar a conclusões e formar opiniões rapidamente. Os ancestrais que pararam pra refletir o que poderia significar esse farfalhar na mata, em sua maioria, não viveram pra perpetuar seus gens na humanidade, enquanto os que agiram e saíram correndo sem pensar, sim. Com o tempo passamos a valorizar cada vez mais a razão, mas em muitos casos ela é apenas uma muleta com a qual melhor justificamos nossas preferências. O processo ocorre de trás pra frente. Não seguimos a ordem lógica de analisar as evidências e chegar a uma conclusão, nos partimos já com a conclusão e buscamos as evidências que nos confirmem.

Somos movidos por nossas emoções. E emoções precisam de muito pouco pra chegar a um veredicto. No filme Relatos Selvagens há uma cena em que um carro atropela uma moça grávida; a polícia está investigando o caso e vai até a casa do proprietário. Os jornalistas estão do lado de fora, o caso é ainda recente e recebe muita atenção de todos. O marido da moça está revoltado e diz que a justiça pra ele é matar o responsável. Mesmo que concordemos com ele, sua ação é simplesmente irresponsável. Spoiler alert, quando a polícia está saindo com o suspeito da casa, o marido vai e o ataca, possivelmente o matando. No filme a trama é muito bem executada e mais interessante que isso, pois o pai do menino que atropelou suborna o jardineiro pra que leve a culpa. Independente disso, tudo é feito a portas fechadas, e o público - e o marido - não sabe de nada. O suspeito até o momento é apenas isso, um suspeito. Tudo que se sabe é que o proprietário mora numa casa e a polícia está lá. A pessoa sendo escoltada pra delegacia ainda não sofreu julgamento, podem haver outros suspeitos, como é comum haver, e um milhão de outras possibilidades. Mas o marido não espera por nada disso, e julga que o fato da polícia achar alguém suspeito o suficiente pra ter certeza do crime e executar a sentença que crê apropriada. Ataca pra matar. Imagine a culpa ao saber que matou um inocente? Nesse caso, nem totalmente inocente pois o jardineiro aceita assumir a culpa, então algo de errado fez. Mas e se não fosse? Se a trama fosse que o pai acusa o jardineiro que não fez nada, e este seria igualmente levado como suspeito. Ainda assim seria atacado. Como o marido ficaria ao descobrir que matou um inocente?

Quando estamos com raiva, a distância entre suspeito e culpado é acelerada, pois queremos chegar logo no final, na punição, e essa etapa de “descobrir se o suspeito é de fato culpado” leva tempo, demora, está no meio do caminho. Como a criança ansiosa que mete o brigadeiro na boca assim que ele sai na panela, nos queimamos. Mas aqui o preço a pagar é um pouco maior que uma língua ardendo.

Nosso sistema judicial existe por um motivo. Ele é péssimo, cheio de falhas, lento e corruptível, mas ainda assim é o melhor que temos. Toda pessoa merece um julgamento, o direito de ser ouvida. Tão mais quanto maior for a punição. É a definição de injustiça punir um inocente. E a verdade é que somos todos juris e juízes diariamente. As mídias sociais apenas potencializam isso, mas rotineiramente avaliamos evidências, chegamos a um veredicto e aplicamos a punição, nas devidas proporções. Se acha um absurdo os erros e falhas de um processo judicial, pare uns minutos e reflita quantas vezes você não fez o mesmo na sua vida.

Eu leio que o Romário tem contas na suíça. Penso que isso faz sentido, ele já era rico, agora é político, a maioria deles é corrupto, é provável que ele tenha entrado num “esquema” - e decido que ele é de fato corrupto, ta escondendo dinheiro e merece a punição. A minha por enquanto consiste nuns xingamentos, falar mal dele em algumas conversas e um compartilhamento no facebook. Pode parecer pouco, mas na verdade isso tem um peso sim. Lembre algum evento onde falaram mal de você, especialmente se exageraram ou mentiram, e você vai ter um gostinho disso. Somos incrivelmente sensíveis ao que pensam e falam de nós, uns mais, outros menos. Nunca sabemos o impacto do que dizemos. Uma amiga minha chorou e passou um dia todo mal pois o guardador de carros gritou com ela e foi super grosso, por ela ter parado mal o carro. Uma que tinha uma loja virtual e realmente buscava fornecer o melhor serviço que podia, recebeu um email enorme falando mal dela, dizendo que ela deveria se matar e tudo o mais, pois a pessoa tinha recebido o pedido com atraso. Ela ficou sem sair de casa 2 dias, pensou em fechar a empresa, mas depois resolveu responder o email, item a item, se justificando, se desculpando e enviou o dinheiro da cliente de volta. A resposta da tal cliente a isso “ah, eu estava apenas mal humorada. Não achei que alguém fosse ler meu email.”

O quanto é necessário pra eu agir? Ler a chamada de uma notícia? Ouvir o comentário de um amigo? Isso é suficiente pra eu acusar alguém de corrupção? É tudo que eu preciso em termos de evidência? Qualquer fonte vale? E pra bater em alguém? Um cara na rua me diz que aquele outro roubou, ou estuprou, e isso é suficiente pra mim? Somo a isso apenas meus preconceitos. É, ele bem se parece com um marginal, deve ser mesmo. É, ela tem um jeito meio assim, deve ser verdade o que falaram.

Somos criaturas de hábitos, e nos tornamos o que fazemos constantemente. Se você acha que é leviano com um comentário, mas não seria se o caso fosse “sério”, pense de novo. Criamos o hábito de agir sobre más evidências e acabamos nem percebendo quando o fazemos.

Cada um é diferente, mas não é porque eu nunca ficaria abalado com os gritos de um guardador que isso é verdade pra todo mundo.

Fiquei anos brigado com a minha irmã, em grande parte por uma frase que a minha avó falou, claramente sem pensar muito, sem dar a menor importância. Eu disse que estava irritado com a minha irmã e que não ia mais falar com ela. Minha avó disse “besteira, já já vocês estarão brincando juntos”. O tom foi de desprezar o que eu estava sentindo, e eu fiquei muito incomodado de não ser levado a sério. Insisti que não ia mesmo falar com ela, mas minha avó simplesmente ignorou e continuou dizendo pra todo mundo que era coisa de criança e que em breve eu nem ia lembrar disso. Resolvi mostrar que ela tava errada, e guardei esse ressentimento com a minha irmã por anos. Anos. Não falava com ela, só brigávamos. Provei meu ponto, mas a que custo? Hoje em dia vejo como foi coisa de criança, mas em minha defesa, é o que eu era. Uma criança, tinha tipo 6 anos de idade ou algo assim. E nem culpo minha avó, o comentário dela não foi pra me testar nem desprezar o que eu sentia, apenas o que ela pensa de crianças mesmo (e que na maioria dos casos é verdade). Acho que nunca podemos prever qual dos nossos comentários terão um impacto. Vária vezes dizemos algo que achamos que foi memorável e ninguém lembra. Outras vezes falamos algo sem pensar e fica pra sempre marcado em alguém.

Tudo que posso dizer é que devemos atentar ao fato do poder das nossas palavras, em nós e nos outros. Uma professora dizia que tentar retirar algo que disse, reparar uma fala mal colocada, era como subir no alto de uma montanha num dia de tempestade, rasgar um travesseiro de penas e depois tentar coletar todas de volta, no dia seguinte. Cada pena representa o impacto que suas palavras podem ter nos outros, e o exemplo tenta mostrar a dificuldade que é tentar desfazer isso.

Acho genial a ideia dos 3 filtros. Antes de falar qualquer coisa, pensar se é verdade, se é bom, se é útil. Há diversos casos onde um ou dois podem ser pulados, mas falar algo que não é nenhum dos três, pra mim, é ser leviano, no mínimo.

Se alguém te pede metade do seu dinheiro pra um investimento, diz que vai devolver tudo com juros, grande lucro pra você, você dá? Quantas perguntas vai fazer? Quantas certezas e evidências vai querer antes de considerar alguma ação? Não devíamos valorizar nossas palavras menos que o dinheiro, pelo menos, não tanto.


Felipe Moitta

Felipe Moitta, Consultor de Gestão e Desenvolvimento Pessoal. .
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