felipe moitta

Reflexões, pensamentos e um convite à toda troca construtiva

Felipe Moitta

Felipe Moitta, Consultor de Gestão e Desenvolvimento Pessoal.

A Culpa e o Karma

É errado ajudar o outro sabendo que crio assim um Karma positivo e me beneficio no final?
Como a caridade e a culpa podem ser compreendidas frente à ideia do Karma, de que cada um colhe o que planta?


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Não existe ação sem motivação. Agimos em busca do prazer e pra fugir da dor de uma forma ou de outra. Claro que isso é uma generalização. Muitas pessoas que dizem fazer caridade sem nenhum motivo na verdade querem dizer nenhum dos motivos mais superficiais, como reconhecimento, elogios ou qualquer retorno material. Mas existem milhares de outros motivos.

Alguns mais comuns nesse caso: a expectativa de benefícios futuros. Muitos acreditam que quem é bom vai pro céu, e agir caridosamente é uma das ações que te aproxima desse objetivo. Há uma clara motivação semi-material. É a busca do prazer, mas não nessa vida, sim numa próxima, e em alguns casos por toda a eternidade – um excelente negócio ao se pensar por esse prisma.

Há também a motivação da identidade. É extremamente agradável ter uma auto-imagem de alguém bondoso, virtuoso e correto. Assim, ao ajudar os outros de forma anônima, ganho o prazer de me valorizar, ficar feliz com a minha identidade, com a história que conto de mim para mim mesmo. Há também o prazer de contribuir, de saber que de fato ajudei pessoas. Isso tudo são sentimentos bons. Assim como uma pessoa busca uma boa música, uma comida gostosa e entretenimento de qualidade pois elas lhe geram prazer, sentimentos agradáveis. A diferença está na forma do prazer e nos valores que nossa sociedade, e nós mesmos, damos a cada um.

Uma forma de prazer pode ser muito mais nobre que o outra, mas o meu ponto é que nenhuma ação é de fato “pura”, no sentido de neutra, de ser desprovida de motivações. O melhor que podemos fazer é buscar ter motivações mais nobres, de acordo com nosso próprio sistema de crença, moral e ética. E nisso a gestão karmica pode ajudar.

Há um outro ponto, de apenas compreender e aceitar a realidade como ela é. Talvez eu ainda fizesse o bem e buscasse ajudar os outros mesmo que não fosse ganhar nada com isso, mas existe uma lei de causa e efeito, o universo é como esse grande espaço onde nossas intenções ecoam e retornam pra nós, por meio de uma intrincada rede que ainda não compreendemos completamente, mas da qual não podemos escapar. Não adianta lutar contra a lei da gravidade, ela existe e pronto. O que podemos fazer é aceitar e trabalhar com ela da melhor forma, e com alguma engenhosidade descobrimos como fazer máquinas que voam, curtir um salto de bungee-jump e gerar energia com quedas d’água.

Querer agir sem colher os frutos das ações é como querer que dois elétrons se atraiam. Não é assim que a banda toca. Na natureza nada se cria, tudo se transforma. Uma energia posta em movimento num sistema deve retornar de alguma forma, tudo o que você faz vai voltar pra você.

Compreender as leis de causa e consequência te permite ser ainda mais eficiente e ajudar mais pessoas, se esse for o seu objetivo maior. A saída aos que realmente se incomodam com isso é agir sem absolutamente nenhum apego. Ao agir completamente dissociado do resultado das ações (e o ‘completamente’ é a chave) você alcançou a iluminação, despertou, tornou-se um Buddha. Ainda podem haver sementes antigas que devem brotar, mas nesse nível as novas sementes mudam completamente, pois não há mais intenção ou desejo nas ações, e sua realidade passa a ser outra. Podemos falar sobre, mas não sendo um ser iluminado, suponho que seja como um virgem tentando falar sobre o sexo. Podemos ter alguma ideia de como é e tudo o mais, mas estamos distantes de poder falar com propriedade. Esse momento de iluminação é o que nos permitiria sair da Samsara, o ciclo de nascimento e morte que nos prende a esse mundo de ilusões, aos que creem em renascimento, ou simplesmente um momento de completa realização pessoal, de uma forma absolutamente secular. Nossos apegos geram sofrimentos. Disso tratam muitos textos budistas das mais variadas formas.

Acredito que com o tempo iremos evoluir e talvez possamos realmente agir sem apego, mas creio ser um estágio um tanto distante. Útil como norte, como direção a seguir. Na minha opinião o melhor caminho pra isso passa pelo domínio dos desejos. Quando entendemos como conseguir o que queremos, como “controlar” esse mundo de ilusão (se é que é isso), pois a única forma de fazer isso é pelos outros. Primeiro devemos aprender a criar o mundo que queremos, e só então podemos pensar mais seriamente em nos livrarmos completamente dos desejos e anseios.

Pra ter o que queremos, teremos que ajudar os outros a conseguir o mesmo, e na caminhada ao desapego total iremos crescendo, a cada desejo meu que realizo me torno um pouco mais livre dele (em alguns casos totalmente) e me conecto um pouco mais a todos que tem ou tiveram o mesmo anseio, que sofreram com essa mesma falta. Acredito que seguindo nessa jornada, o natural é que os desejos diminuam, não do dia pra noite, mas de forma constante, devagar e sempre.

Vou cada vez mais curtindo os prazeres da vida e entendendo o que é essa ilusão, o mundo da matéria, dos prazeres e desprazeres. Ao me conectar aos outros entendo cada vez mais como não somos exatamente separados, e minha percepção da realidade muda inteiramente, também não em um momento, mas aos poucos.

Alguns desejos passam a não mais fazer sentido, como um adulto que não mais deseja um boneco. Quando criança não poderia conceber ele não querer tal brinquedo, ou o doce, ou assistir ao desenho animado, tamanha era sua vontade deles, mas passado o tempo, numa infância saudável, se a criança pode brincar o quanto quis, naturalmente essa vontade vai embora. Não é que o boneco mudou ou deixou de ser divertido, a realidade da pessoa que mudou, e o desejo pelo boneco deixou de existir.

Penso que o mesmo acontece com os demais desejos – conquistas, coisas brilhantes que estimulam nossos sentidos e nos seduzem, os carros, casas, status, conceitos de identidade – com o tempo eles deixarão de nos iludir, deixarão de nos seduzir. Iremos olhar pra eles assim como vemos um bicho de pelúcia que outrora nos foi incrivelmente valioso, e que agora não mais nos atrai.

Mas, assim como a criança que teve seu tempo, aceite brincar um pouco também, aceite se dar um tempo pra amadurecer. Se tiramos o brinquedo cedo demais a criança pode demorar pra superar isso, e tentar como adulto compensar a falta que teve, o trauma. Existe a possibilidade de nos seduzirmos demais pelos “brinquedos” e tentar justificar os excessos com a ideia de que curtir por um tempo pode ser saudável. O equilíbrio é delicado e nem sempre fácil. Como sempre, você é o júri e juiz, e vai saber o quanto é demais, se realmente quiser.

Mas não se cobre mais do que pode dar, não dê um passo maior do que a perna. Compreenda os conceitos, entenda que sua felicidade não depende das coisas e se permita refletir e aceitar exatamente onde está. Eu fui vegetariano por 7 anos, e depois resolvi voltar a comer peixe. Continuo achando que ser vegetariano é uma opção melhor, mas por diversos motivos resolvi que pretendo ficar um tempo assim. Mais pra frente pretendo voltar ao vegetarianismo. Reconheci minhas dificuldades, meus desejos, meu tempo. Que muda constantemente, como tudo.

Nem adianta tentar se enganar, pois a vida tem sua forma de ensinar, de nos mostrar onde exageramos, seja pra mais ou pra menos: pela dor. O sofrimento é o professor último, e pode vir de infinitas formas. Pode ficar tranquila que se você se esquecer de prestar atenção, um sofrimento vai vir pra te mostrar onde está o erro. Mas se quiser evitá-lo (cada um é livre pra agir como achar melhor) o entendimento das leis do Karma pode indicar um caminho.

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Esse é um trecho do livro que estou escrevendo sobre gestão Karmica.

2 conceitos que são fundamentais e que podem fazer falta aqui (bem resumidos):

1 – Sementes Mentais. Tudo que vc faz te marca, é como se vc plantasse uma semente em si mesmo. Essa semente brota mais pra frente como a realidade que vc percebe.

2 – Vacuidade. Tudo é neutro de significado, e a realidade é determinada pelas sementes que constantemente plantamos com nossas ações, pensamentos e palavras.


Felipe Moitta

Felipe Moitta, Consultor de Gestão e Desenvolvimento Pessoal. .
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