felipe moitta

Reflexões, pensamentos e um convite à toda troca construtiva

Felipe Moitta

Felipe Moitta, Consultor de Gestão e Desenvolvimento Pessoal.

Justiceiros

Sobre nossos julgamentos, o que pensamos dos outros, e como isso nos afeta.


Thumbs Down.jpg

Quando falamos de Karma, imediatamente as pessoas pensam em merecimento, na justiça. Uma faceta humana é a nossa vontade, muitas vezes prazer, em ver alguém ser punido – quando sabemos (achamos) que a pessoa é culpada. Existe uma palavra pra isso em alemão, Schadenfreude. Schaden (dano) e Freude (prazer), utilizada para designar o prazer obtido com o sofrimento dos outros.

Alguns pesquisadores estudam o assunto mais a fundo, e à princípio acreditam que essa pode ter sido uma vantagem evolutiva que nos permitiu viver em comunidade. Um grupo primitivo teria mais chances de sobreviver se viesse a punir os que descumpriam as regras (roubando comida ou pondo o bando em risco de alguma forma). E puniam mais os que tinham algum prazer em punir.

Vemos traços dessas características em frases como “bem feito”, “merecido”, e até “tinha que ser pior”. Fazemos julgamentos a respeito dos outros e decidimos a intensidade da punição, em geral baseado em quão incomodado ficamos com a ação do outro. Quanto mais incomodado eu fico, maior a punição desejada, e maior o prazer ao saber que ela foi executada.

Quando sai a notícia que um político corrupto foi preso, muita gente fica feliz, não por pensar que sua democracia está com melhores chances de funcionar como devia, mas por imaginar esse político sofrendo, e por ter raiva de quem age assim, gostamos de acreditar que ele vai receber o que merece, vai se dar mal, vai sofrer.

Falei mais de ações e palavras e seus impactos karmicos, mas pensamentos também criam o seu Karma. Não apenas por serem os precursores das ações, uma vez que tudo se inicia como um pensamento, mas o simples pensamento já é uma semente sendo plantada.

A quintessência do Karma é a conexão com o outro. Enquanto desejarmos a alguém alguma forma de “mal”, de desprazer ou desconforto, ainda temos o que trabalhar. Amar o outro como a nós mesmos é mais do que uma dica, uma boa prática, é a única forma de sermos realmente felizes. Presume que nos amemos, o que pra alguns já é um grande desafio. Amar a si mesmo é fundamental.

Amar o próximo é uma receita. É o melhor conselho pra conseguirmos o que queremos. Como “quebrar dos ovos, misturar com farinha e…”, é uma receita para fazer um bolo, não uma ideia abstrata de como se portar na cozinha. Não é pra agradar quem criou a receita. É pra você, que quer um bom bolo.

Por muito tempo pensamos que “amar o próximo” era algo que fazíamos para merecer as benção divinas, que existe uma entidade que vai ficar feliz se você agir assim e te presentear com boa sorte. A ligação entre causa e consequência é indireta, passa por um agente julgador. Quando entendemos o Karma, percebemos que amar o próximo é o que nos faz colher o que queremos, o ato de amar o próximo é ser caridosa/atenciosa/cuidadosa, e ao realizar essa ação plantamos as sementes da nossa própria felicidade.

Ter prazer com o sofrimento alheio é um karma ruim, em geral, um sinal que ainda estamos presos à formas antigas de pensar. Uma mentalidade da escassez, uma forma de se preocupar com o outro que não é saudável. É o que gera a fofoca maliciosa, a inveja, e em outros níveis a vergonha, raiva, orgulho.

Existem, sim, punições úteis e necessárias. Se você é um juiz, promotor ou parlamentar discutindo sobre leis e suas aplicações, certamente cabe pensar demoradamente sobre as diferentes formas de punição e suas consequências, mas não é assim que a maioria das pessoas pensa sobre o assunto.

Percebi em mim mesmo, que havia um lado racional que não queria abandonar o desejo de justiça, que inclui o prazer com a punição. Temi passar a ser conivente, alguém que aceita de tudo, passa a mão na cabeça dos culpados, e isso não é coerente com quem sou, com quem quero ser. Com o tempo, fui entendendo que posso desejar o bem a todos, e ainda assim agir de forma que creio correta. Vou defender meus pontos de vista, vou abertamente declarar e enfrentar uma situação que acho estar errada, demitir alguém que age em desacordo com os valores da minha empresa e tudo o mais, mas não vou desejar o mal a ninguém.

Nem sempre é fácil ou intuitivo, é um exercício e observação constante.

Algumas mudanças são mais silenciosas, começam nos bastidores e, externamente, pouco se nota a diferença. Comigo, foi um período longo com alguns esforços grandes pra mudar como me sinto em relação a isso. A partir do momento em que realmente compreendo a lei do karma, sei que cada um vai colher o que plantou, e passo a ter muito mais pena do que raiva dos bandidos. Penso que as pessoas estão cavando seus próprios buracos, e o universo não precisa de mim pra garantir seu equilíbrio. Ele já funcionava bem antes de mim e deve continuar um bom tempo depois que eu me for.

É um tanto prepotente se colocar na posição de justiceiro, alguém que se esforça pra garantir que cada um receba o que merece. Primeiro, presumir que sabemos, apenas com a nossa observação externa, as motivações reais e mesmo como é a realidade do outro, isso é, no mínimo, delicado. Quantas vezes mesmo processos longos de investigação feito por pessoas competentes se mostram errôneos, quem dirá de nós, com todas as nossas falhas e deficiências tentando fazer o papel de advogado, promotor, investigador e juiz ao mesmo tempo. Mais ainda, chegamos a dar o próximo passo, que é se julgar capaz de definir e executar a sentença adequada. Fazemos isso constantemente.

É um longo processo, pelo menos foi comigo, o de deixar de, ou diminuir consideravelmente, os sentimentos de raiva e inveja, e o desejo de ver o sofrimento daqueles que, na minha opinião, merecem. Há uma parte da postura que vem da humildade. Um acreditar que não tenho todas as informações, que (na grande maioria dos casos) eu não sei de tudo e posso estar interpretando algo erroneamente, posso não saber de partes importantes da história.

Um homem entra no metrô com 3 crianças. Ele se senta enquanto os filhos correm soltos pelo vagão, falando alto, gritando, pulando, brigando, evidentemente incomodando os demais passageiros. O homem, um senhor na faixa dos seus 50 anos, nem se mexe pra controlar as crianças, deixa-as fazer o que querem, e os passageiros começam a ficar cada vez mais incomodados com a algazarra.

Num dado momento uma senhora não se aguenta, resolve levantar, vai até ele e diz “Senhor, não está vendo que seus filhos estão incomodando a todos aqui? Esse tipo de comportamento é inaceitável, um absurdo, você devia se envergonhar, por favor contenha suas crianças”. Ele levanta o rosto e observa a situação, aparentemente completamente alheio a ela até então.

Ele leva um tempo observando tudo. Após alguns segundos olha nos olhos dela e diz “Peço perdão pelo comportamento dos meus filhos, não gostaria de lhes incomodar. Acontece que estamos voltando do hospital onde minha mulher, mãe deles, acabou de falecer de um acidente inesperado. Acho que eles não estão sabendo lidar muito bem com a situação, e honestamente, eu também não”.

O homem desce com seus filhos na estação seguinte, deixando a senhora, e todos no vagão, se sentindo absolutamente culpada. Nada mudou em relação às crianças e como elas se comportaram, a “realidade” continuou sendo a mesma. Mas o incômodo mudou, como as pessoas se sentiam, isso mudou. O julgamento partia de certas premissas a respeito da vida do outro, do que é certo e o que é errado. Assim que a senhora compreendeu o momento de vida desse homem, seu julgamento se expande e esse comportamento passa a ser digno de apoio, e não de punição. Ela gostaria de ter oferecido ajuda, e não uma repreensão.

É apenas um exemplo, mas é verdade que cada um está lutando uma batalha da qual não sabemos nada. Na ideia de que antes de julgar alguém devemos andar uma milha nos seus sapatos, a metáfora mostra como é habitual analisarmos a vida dos outros de forma incompleta, e “calçar os seus sapatos” é uma forma de experienciar o que eles estão passando em primeira mão. Só assim cobrimos o gap de informação entre o que achamos que sabemos e como realmente é pro outro.

De forma prática, é claro que precisamos de leis e regras como sociedade. Precisamos de um sistema judicial e executivo que seja capaz de identificar, punir e prender criminosos. Ser a favor da prisão de um criminoso, por exemplo, não quer dizer que eu deseje seu mal. Não estou no nível de conseguir amar uma pessoa assim, e é muito mais fácil quando o crime não aconteceu comigo ou com alguém próximo, mas isso diz muito mais sobre mim do que qualquer coisa. Uma pessoa assim deve ser afastada da sociedade até que se mostre capaz de conviver sem ser um risco aos demais, mas realmente gostaria que as prisões focassem mais em reabilitação, e não tanto na punição. Estar isolado por anos já deveria ser punição o suficiente, e pra quem não acha que é, o karma dessa pessoa vai se encarregar disso. Se preocupe com o seu. Desejar o mal a alguém, querer que essa pessoa sofra (mesmo que seja “justificado”), isso planta um tipo de semente que é quase uma erva daninha. Ela cresce e se alastra, te prejudicando mais do que pode perceber.

Sentir raiva do outro é como segurar um carvão em brasas pra tacar na pessoa. Pode até fazer algum dano a ela, mas você sofre mais (e desnecessariamente) no processo. Esse tipo de pensamento certamente é uma semente que vai te gerar frutos. Poucos desejam a colheita correspondente.


Felipe Moitta

Felipe Moitta, Consultor de Gestão e Desenvolvimento Pessoal. .
Saiba como escrever na obvious.
version 4/s/recortes// @obvious, @obvioushp //Felipe Moitta
Site Meter