felipe moitta

Reflexões, pensamentos e um convite à toda troca construtiva

Felipe Moitta

Felipe Moitta, Consultor de Gestão e Desenvolvimento Pessoal.

Sobre Desobediência Civil

um protesto só é protesto se doer


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Sou aquariano. Por influência dos astros ou mera coincidência, desde cedo eu tenho alguma resistência em aceitar cegamente algumas regras. Depois que li sobre a desobediência civil, encontrei um poderoso argumento pra mim mesmo. Outro dia percebi que estava usando ele pra me enganar.

Fui entrar sem camisa no meu prédio, e o porteiro disse que não podia. Fiquei bem incomodado e pensando no que fazer. No final, cheguei a conclusão que aquela regra era imbecil. No calor do RJ não faz sentido não poder andar sem camisa. Não era uma questão de estar suado ou não, senão, mesmo de camisa seria um problema, e não é. No fundo, é apenas um tabu com o qual discordo, que estar sem camisa não é arrumado o suficiente pra entrada social. E ai rapidamente minha mente corre nos arquivos de justificativas e encontra lá a desobediência civil. Agora eu estava armado contra qualquer culpa pra ignorar a tal regra, estava agindo corretamente, lutando por um mundo melhor, militando em prol de uma sociedade mais livre e moderna.

Só que não.

Por mais que todos os meus argumentos tenham fundamento, e que eu realmente acredite neles, eu estava apenas racionalizando. A dica é, quando agir de forma moralmente correta me beneficiar sem nenhum preço, nenhum incômodo pra mim, mas sim para os outros, então muito provavelmente eu estou enrolando, buscando um atalho, fazendo uma decisão preguiçosa.

Nesse caso, entrar sem camisa era o meu benefício, e, na prática, só me gerava um pedido do porteiro pra colocar a camisa. Já pra ele, pro porteiro, poderia realmente ser um incômodo bem maior. Isso não é lutar pelos direitos, é ser um babaca. Se eu quiser realmente lutar, vou na reunião de condomínio e digo que essa regra é ridícula, passo de porta em porta com um abaixo assinado pra mudarmos as regras, contrato um advogado e abro um processo, o que for. Ai sim eu tomei uma posição de ir contra uma regra com a qual discordo, mas respeitando as pessoas. Tem um lado de respeitar mesmo o sistema que eu quero mudar. Lutar de dentro, e enquanto o processo acontece, vou usar a camisa na portaria social.

Muita gente baixa filmes piratas e justifica suas ações dizendo que os estúdios são milionários, os cinemas caros demais e isso é quase uma forma de protesto. Eu mesmo fazia isso, menos com filmes, mais com livros, usando a mesma lógica pra me justificar. Bem, eu não gostaria que fizessem isso comigo. Do meu ponto de vista um estúdio pode sim ter dinheiro infinito e não precisar do meu ingresso, mas o mesmo vale pra um menino de rua. Do ponto de vista dele, eu (ou minha família) tenho dinheiro infinito, e ele me furtar um celular ou 50 reais não vai fazer a menor diferença. Se eu realmente estou incomodado com a indústria do cinema, posso não participar dela. Mas querer o benefício do entretenimento, ver o filme, sem o ônus de gastar o dinheiro e ainda achar que isso é correto, ai eu discordo. Ou eu aceito as restrições da minha moral e vou viver sem aquilo, “sofrer” aqui, ou vou ativamente lutar contra, da forma que me for possível. Mas não vou desrespeitar milhares de pessoas.

Acho que o ponto é que a postura moralmente correta frente a algo que discordamos nunca é passiva, e nunca é ativa apenas o suficiente pra nos darmos bem sem nenhum desconforto. Ou aceitamos que é algo que não podemos mudar e iremos nos abstrair desse mercado, como é a postura de um vegetariano por exemplo (discordo da matança e simplesmente não como carne), ou vamos iniciar um movimento para tentar mudar as coisas. Justificar o mínimo de ação (baixar o filme, entrar sem camisa) como uma forma de protesto é uma hipocrisia míope. E karmicamente é uma forma de plantar sementes que certamente não gostaremos de colher.

Existem cenários mais extremos nos quais lutar contra algo desrespeitando a lei é preciso. Os negros que foram contra o apartheid realmente estavam fora da lei, mas estavam colocando suas vidas em risco, e esse é um excelente indicador de que não era apenas uma racionalização. Quanto mais risco você assume ao lutar por uma causa, menor a chance de estar apenas se enganando e racionalizando uma desculpa com o argumento moralista. Caso contrário, vale a pena parar e refletir.

O Alex Castro tem um ponto de vista interessante sobre a hipocrisia. Ele diz que, por definição, nosso ideal de conduta é aquela conduta que nem sempre conseguimos praticar no dia-a-dia.

Da minha parte, concordo. Esses pensamentos não são fixados em pedra. A cada dia me percebo errando aqui ou tentando melhorar ali. Assisto filmes piratas ainda, mas não baixo, e ainda assim abro excessões sim. Valorizo o “fazer a coisa certa”, mas em diversos momentos a prioridade muda. Com livros por exemplo, eu me permito baixar a versão pirata pro kindle se eu já tenho o livro de papel, ou ganhei de presente. Entendo que o autor foi compensado e que eu, por conveniência, prefiro ler a versão digital. E vários outros pequenos casos, como quando um filme não está disponível no Brasil por alguma treta legal. Baixo sem cerimônia. Mas é assim, muitas vezes escrevo pra mim mesmo, como uma forma de me lembrar de como quero agir. Se num momento não consegui, ok, haverão outros. Colocar em palavras me deixa mais atento a essas pequenas coisas.


Felipe Moitta

Felipe Moitta, Consultor de Gestão e Desenvolvimento Pessoal. .
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