felipe moitta

Reflexões, pensamentos e um convite à toda troca construtiva

Felipe Moitta

Felipe Moitta, Consultor de Gestão e Desenvolvimento Pessoal.

Sobre (não) ser Vingativo

A vingança não é só aquele plano feito num porão escuro pra matar o inimigo. As vezes é um olhar, um comentário, um silêncio…


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Outro dia uma amiga furou um encontro comigo, me ligou super culpada e pediu para eu “não fica chateado”. Acredito que ela foi muito honesta no pedido, que realmente estivesse culpada e quisesse que eu não ficasse mal. Mas o que percebi foi que eu não sabia como. Eu não sabia como não ficar chateado. Eu fiquei chateado.

Ela me pedir pra não ficar chateado comunica que essa é a intenção dela, mas não me ensina a fazer isso, não me diz como chegar lá. Se eu soubesse, eu realmente preferiria não ter ficado chateado, mas eu fiquei.

Fiquei refletindo, e vi que existem diversas formas de mudar de estado, de deixar de ficar chateado. No caso, eu consegui deixar de ficar chateado em bem pouco tempo, e logo mudei de estado e perdoei minha amiga. Mas foi um exercício, um esforço consciente. Acho que meu natural seria ficar chateado, e permanecer chateado, o que iria contaminar meu humor por possivelmente aquelas próximas horas mais intensamente, e ainda voltar de vez em quando nos dias seguintes. Seria a pior escolha, a mais infantil e quem mais sofre com ela sou eu mesmo.

Observando minhas ações passadas, percebi (com algum arrependimento) que eu fui diversas vezes o tipo de pessoa que ainda iria querer me vingar, punir a amiga pelo que ela me causou. Isso nunca foi consciente, mas olhando minha ações passadas, percebi que isso aconteceu sim.

Qualquer vingança, é como segurar um carvão em brasas pra tacar no outro. Você sofre mais no processo, e não resolve nada. Eu nunca me vi como alguém vingativo, pois pensava que vingança era aquela coisa de filmes, o assassinato da amante pela esposa ciumenta, ou o assaltante que trama uma armadilha pros comparsas que o traíram, algo assim. Mas as vezes vingança é só ficar de mal, sem falar com alguém uns dias. Pode ser até menos. Um olhar, um comentário baixinho. Por fora a coisa pode parecer quase nada, mas isso esconde intensas emoções.

Tenho alguma vergonha de reconhecer que já agi assim, e mais ainda em pensar que esse impulso ainda surge de quando em vez. Consigo controlar, ressignificar, mudar mesmo de estado, mas isso ainda requer algum esforço consciente, em diversos casos. Menos que antes, e esse é meu maior indicador de progresso, a cada vez percebo que consigo mudar mais facilmente de estado, que a intensidade vêm mais fraca e dura menos.

É meio bobo, mas tudo começa com o desejo de mudar. Eu sempre achei isso meio clichê, mas nesse caso só posso dizer que é exatamente assim. Pelo menos foi comigo. Podem haver técnicas e outros caminhos que eu desconheço, mas pra mim, o grande diferencial foi querer mudar, querer deixar de ser vingativo, ou ciumento, ou de ficar de mal com a amiga ou quem quer que seja.

É estranho pensar que isso pode ser uma decisão, pois eu fui acostumado a me ver como um passageiro nesse quesito, a emoção brota e tudo o que posso fazer é viver ela. Se me vem uma raiva, tudo que me resta é sentir e esperar passar. Nunca imaginei que ficar pensando em algo, imaginando situações, tendo discussões mentais e tantos outros devaneios pudessem piorar ou manter um estado X, e nunca me percebi como o autor real desses pensamentos, como o criador ativo desse estado.

O impacto dos pensamentos são gigantescos, e por mais que não pareça, são decisões. Conscientes ou não, mas ainda assim decisões. E o grande lance é que você pode tornar elas consciente se quiser, e a partir daí mudar é mais viável. O que não quer dizer que é fácil de cara, depende do caso e da sua prática, é como um músculo, quanto mais você pratica, mais forte fica.

E saber isso não te deixa pra sempre imune, pelo menos comigo não tem sido assim. Foi bem esquisito admitir que tenho ou tive esse padrão, que fui sim vingativo, quis punir o outro emocionalmente por como ele me fez sentir, desejei isso de forma silenciosa e maldosa. E não foi num passado obscuro, quando eu viva uma vida de crimes e drogas. Isso aconteceu numa vida bem agradável na real, com um bom conforto material, amigos, encontros, saídas, tudo tranquilo, tudo favorável. Foram poucos momentos, mas existiram.

As vezes algo acontece e eu me pego pensando nisso, um professor é meio babaca comigo e eu me pego visualizando ele sendo demitido ou tendo outro problema qualquer, um seriado que eu gosto é cancelado e eu imagino (e secretamente desejo) o responsável sendo punido de alguma forma, a síndica cria uma regra que me incomoda e vejo a na minha tela mental ela sendo processada. Recentemente eu percebi uma mudança. O nível de punição que ocorre mesmo na minha imaginação tem sido mais suave, não é mais a pessoa sendo espancada, e sim uma ação que afeta mais a moral dela, meio que uma lição, e achei bem bacana essa percepção.

Outro ponto é que é raro eu não me tocar no momento em que estou pensando isso e resolver mudar, ou, no máximo, isso acontecer um pouco depois, num momento mais calmo do mesmo dia eu me ligo que desejei o mal de alguém sem nenhum bom motivo.

Pode soar como besteira pra muita gente, mas eu não quero ser o tipo de pessoa que deseja o mal dos outros, por nenhum motivo. E segundo, é um pensamento meio merda, não me leva a lugar nenhum, não melhora minha situação, muito pelo contrário, só me deixa mais tempo remoendo algo que foi ruim, me fazendo reviver a parte chata de novo, sem necessidade, sem utilidade.

Tem hora que é difícil? Lógico, vejo as pessoas com atitudes absurdas que destoam completamente dos meus valores e crenças, por isso é um exercício constante o de parar ou mudar os pensamentos que surgem. A boa notícia é que, pelo menos comigo, mesmo uma pequena taxa de sucesso, umas poucas vezes que eu consiga mudar os pensamento, isso altera bastante o meu estado e tem um resultado considerável no meu humor, na minha qualidade de vida mesmo, em como me sinto comigo.

Realmente acredito que cada um colhe o que planta, então preciso ficar gastando meu tempo desejando que fulano ou ciclano seja punido pelo que me fez. Isso me ajuda a mudar, a ir da raiva pra pena, pra reflexão, e depois finalmente me leva perdoar e desejar o melhor ao outro. O universo não precisa de mim pra punir ninguém, e cada um tem seus motivos pra agir como agiu. Nunca vou saber a história completa da pessoa que me “feriu”, cada um está lutando uma batalha da qual não sabemos nada. O melhor que eu faço é aprender com a situação e seguir em frente. Sem rancor, sem culpa, sem vingança.

E uma coisa é certa, ficar remoendo a situação e desejando vingança é garantido de deixar uma pessoa mal: Você.

Se o outro vai ser afetado ou não pode depender da sua crença, mas o que não depende dela é saber que se você gastou 15 minutos pensando em como “ferrar” alguém, foram 15 minutos bem merdas da sua vida, e que provavelmente vão contaminar muitos outros minutos, horas, dias…

A vingança é uma rua feia, suja e escura pela qual andamos de vez em quando. Todo mundo sabe que ela não leva a lugar nenhum, e que andar por lá sempre termina mal, mas ainda assim de vez em quando ficamos curiosos e vamos dar uma espiadinha, só alguns metros adentro.. Tenho percebido como meus dias ficam melhores quando decido simplesmente não entrar, nem passar perto. Seguimos muitos caminhos só pelo hábito, vai no automático. Mas de vez em quando é bom parar e reparar se estamos indo pra onde queremos chegar.


Felipe Moitta

Felipe Moitta, Consultor de Gestão e Desenvolvimento Pessoal. .
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